sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A Língua




Ainda havia um resto de sarcasmo naqueles lábios...
Porém, a morte não aliviara qualquer gota de embriaguez. Mordeu-lhe secamente o crânio como quem apenas contasse um segredo ou proferisse uma sentença irremediável. Ouviram-se os sorrisos das lâminas já distantes. Agora, ali, sobre uma mesa e rodeado por quatro grandes velas, o corpo aguardava o momento em que daria início a um novo ciclo, o da putrefação. Mal sabiam todas aquelas pessoas que nem tudo ceifara... E que por trás daqueles lábios, ali dentro, um fiasco de vida ainda resistia: A língua. Como uma enguia, contorcia-se febril no que restava de boca, de lábios, de gengivas, de dentes, vislumbrando apenas a escuridão profunda que dava para a garganta. E aqui se via o horror. Palavras talvez esquecidas, fissuras de maldições, de murmúrios e de desejos, quiçá alguma dose de orgasmo e felicidade deslizando em restos de saliva pelas paredes. Estava ali a língua no solo de uma prisão à beira do nada quase sendo tragada por um redemoinho que atravessava o esôfago. O tempo passava e era iminente o seu fim. O calor dos gases que jaziam no estômago ainda lhe permitia algum hálito, no entanto, sem absolvição, o que tornava tudo ainda mais doloroso. A hora avançava e o desespero também. Precisava decidir rápido, pois sabia que o desfecho estava próximo. Revelaria o segredo? Trairia o cadáver? Romperia o pacto de toda uma vida?
O padre, uma missa, as exéquias. Um grito, um alarido, um choro. Alguns passos, umas breves palavras e a ordem. Que fosse colocada a tampa do caixão.
Uma cena terrível foi o que se testemunhou em seguida. A língua, como se vomitasse a si própria saltou das garras da morte e pronunciando palavras indecifráveis beijou a face do morto, tombando em seguida como um corpo náufrago trazido pela maré.

Adeilton Lima

domingo, 9 de agosto de 2015

Sobre o mar da noite voou o pássaro... O vento tão algoz quanto parceiro semeava o caminho entre uivos e silvos ancestrais. Estrelas cadentes acenavam dos seus ninhos celestes rodopiando galáxias nas pontas dos dedos das crianças. "Aqui tudo é", disse o senhor dos sonhos, que com sua flauta conduzia o movimento preciso das serpentes pelos pontos iluminados do céu a flertar infinitudes... Havia auroras boreais nas gargantas dos tenores saudando o novo ciclo que se anunciava. Lá no fundo do oceano uma estrela do mar aguardava seu príncipe encantado que viria um dia dos espaços siderais. E o oceano era todo lágrimas entre o que veio e o que já foi no turbilhão das correntezas e no olhar daquele pássaro.

Adeilton Lima