quarta-feira, 1 de julho de 2015



Como febre para além da boca

Como dente para além do siso

Como riso para além do lábio

Como grito na garganta rouca



O dia cinza no teu olho esquálido

O samba negro com batom vernmelho

Os pés gingando, calos sem rima

Um bêbado pálido em zigue-zague

Sobre a calçada deserta de lombadas

Tuas coxas roxas brincando de lilases

Um cão verde no corpo da pessoa certa

Zás a mão atrás da mosca

Aquela voz sem cor no horizonte vesgo

Escorregando com os dedos pela saia da mulata

Ouve-se um tiro talvez fogos de artifício

Pelos corredores sombras em disparada

O chicote lá do alto em estalo

Um bebê chora

Parece até que nasce

A mão agora em fuga na goela azul do galo

Quantas manhãs olhando o leite derramado

Tetas, teias, tendões, tudo findando

Um laço em volta do pescoço

Nem homem

Nem cão

Nem galo

Um réptil que ignora o rastejar do dia

Um lábio leporino a te tragar mil beijos.



Como oceano para além do sal

Como núpcias para além da cama

Como voz para além do verso

Como tez para além da pele

Como gozo

Para além

Do grito!



Adeilton Lima

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