quarta-feira, 1 de julho de 2015

A palavra
tal qual o suor
na pele
mistura-se à saliva
na penetração da língua...
transformada ora em uivos
ora silvos, ora em ecos,
ora em ais...
A boca jaz em ebulição
no ranger dos dentes
como pedra a lapidar...
e para além do corpo
busca a alma
deixa-se ir
ora evaporando-se,
ora molhando o chão
migra, singra, salta
na loucura
para acolher
outros sentidos
delírios, libidos
na fertilização dos ventos
e das novas semeaduras.


Adeilton Lima
O solo de um blues
na corda bamba dos dedos...
a tarde solta um agudo rasgado
ouço Janis... Em seu trapézio
jogando-se, imortal, sem redes
nos mistérios do abismo
de sua própria voz!


Adeilton Lima
O tempo empoeira
os horizontes da tarde
e os girassóis sopram
(des) encarnados arrebóis
um pássaro sonha
tempestades noturnas
na garganta do fogo
enquanto uma criança brinca
marejando alquimias!


Adeilton Lima
Estrelas
pétalas da noite
pálpebras das madrugadas
entre
sons luzindo
espaços e silêncios
na canção das espirais celestes
singrando rotas
onde os espasmos da aurora
banham os oceanos...
os astros são tesouros
inalcançáveis e inatingíveis
na arca do universo!


Adeilton Lima
Sobre a mesa
as frutas
consomem o tempo
na autofagia de suas crateras
rugas que escorrem
pelas cascas frias
na agudez do quando
(outrora) árvore
mas que agora
jazem alimento.


Adeilton Lima
Nuvens kamikazes saltavam
para dentro de si mesmas
com vermelhidão de sangue
rasgando em carne viva
os abismos celestiais.


Adeilton Lima
Nuvens kamikazes saltavam
para dentro de si mesmas
com vermelhidão de sangue
rasgando em carne viva
os abismos celestiais.


Adeilton Lima
Aguardo as noites de lua cheia apenas para admirar a tua luz. Sou náufrago na madrugada quase tocando as estrelas. Teu sorriso largo é o barco da aurora que me resgata na companhia dos pássaros que agora celebram o sol e a terra firme! A água na tua pele e eu nas tuas águas.

Adeilton Lima
 
E eu que já carregava tantas tralhas nas costas, tantos sonhos mumificados, inúmeras bifurcações dentro do próprio peito... Porém, cada pegada na estrada é uma semente que o vento sopra e espalha, e a sombra a me seguir é a minha própria alma travestida de desejos, sem abandonos, constantemente a me dizer, siga e livre-se das tralhas! Adiante encontrarás velhos e novos companheiros de jornada banhados pelo suor das labutas de tantos sóis. A colheita dos sorrisos e dos afetos na ciranda das amizades. A meditação e o mergulho interior seguro para a experiência tão somente do dia seguinte como quem inventasse o agora e multiplicasse eternidades.

Adeilton Lima
O Deputado

Era apenas mais um discurso, um dia importante para os holofotes. Aquela pauta, aquele projeto e aquela plataforma haveriam de vingar, muitos deputados pastores votariam a seu favor. Nenhuma chance para essas tais minorias constantemente a ameaçar a pátria, a fé e a família! Gays, lésbicas, negros, artistas, mulheres, índios, etc, grupos inoportunos sempre a dar dores de cabeça em meio a tantos projetos e trabalhos para o país.
Casa cheia e jornalistas a postos. Ao fundo do plenário, a flácida e tímida oposição.
Dedo em riste, cabeça erguida e histórico político e moral na ponta da língua quando sentiu a pontada no peito... Tombou! Morte instantânea!
No IML, a causa “mortis”. Infarto fulminante. Certamente já estava nos braços de Deus!
Hora de preparar o corpo para o funeral.
Despiram-no... A velha gravata importada, o terno caríssimo feito sob medida para os discursos políticos e orações na igreja, não exatamente nessa ordem, e a mais incrível das surpresas...
Uma calcinha lilás.


Adeilton Lima
Um gesto
de adeus
é tão abissal
quanto colossal
é o abraço no calor
dos afetos


A lona puída do circo era uma tela de cinema para o menino. Através daqueles trapos, sentado numa arquibancada de madeira, ele flertava as estrelas como se caminhasse pelo universo na corda bamba do horizonte. Aquele mesmo horizonte do tamanho da boca vermelha do palhaço sobre quem os trapezistas faziam piruetas quase em câmera lenta parecendo astronautas malucos que ali chegaram num foguete enferrujado. Mas o bom mesmo antes desse encantamento todo era a beleza das bailarinas cujas silhuetas, trocando de roupa no camarim antes de entrar em cena, provocavam a suspensão de sua respiração e também arrepios como se ele estivesse no epicentro do próprio globo da morte.

Adeilton Lima


Como febre para além da boca

Como dente para além do siso

Como riso para além do lábio

Como grito na garganta rouca



O dia cinza no teu olho esquálido

O samba negro com batom vernmelho

Os pés gingando, calos sem rima

Um bêbado pálido em zigue-zague

Sobre a calçada deserta de lombadas

Tuas coxas roxas brincando de lilases

Um cão verde no corpo da pessoa certa

Zás a mão atrás da mosca

Aquela voz sem cor no horizonte vesgo

Escorregando com os dedos pela saia da mulata

Ouve-se um tiro talvez fogos de artifício

Pelos corredores sombras em disparada

O chicote lá do alto em estalo

Um bebê chora

Parece até que nasce

A mão agora em fuga na goela azul do galo

Quantas manhãs olhando o leite derramado

Tetas, teias, tendões, tudo findando

Um laço em volta do pescoço

Nem homem

Nem cão

Nem galo

Um réptil que ignora o rastejar do dia

Um lábio leporino a te tragar mil beijos.



Como oceano para além do sal

Como núpcias para além da cama

Como voz para além do verso

Como tez para além da pele

Como gozo

Para além

Do grito!



Adeilton Lima