sábado, 5 de dezembro de 2015

Até que um dia a rima
rompeu com o poema
e se assumiu verso livre...
foi fonema pra todo lado!


Adeilton Lima

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A Língua




Ainda havia um resto de sarcasmo naqueles lábios...
Porém, a morte não aliviara qualquer gota de embriaguez. Mordeu-lhe secamente o crânio como quem apenas contasse um segredo ou proferisse uma sentença irremediável. Ouviram-se os sorrisos das lâminas já distantes. Agora, ali, sobre uma mesa e rodeado por quatro grandes velas, o corpo aguardava o momento em que daria início a um novo ciclo, o da putrefação. Mal sabiam todas aquelas pessoas que nem tudo ceifara... E que por trás daqueles lábios, ali dentro, um fiasco de vida ainda resistia: A língua. Como uma enguia, contorcia-se febril no que restava de boca, de lábios, de gengivas, de dentes, vislumbrando apenas a escuridão profunda que dava para a garganta. E aqui se via o horror. Palavras talvez esquecidas, fissuras de maldições, de murmúrios e de desejos, quiçá alguma dose de orgasmo e felicidade deslizando em restos de saliva pelas paredes. Estava ali a língua no solo de uma prisão à beira do nada quase sendo tragada por um redemoinho que atravessava o esôfago. O tempo passava e era iminente o seu fim. O calor dos gases que jaziam no estômago ainda lhe permitia algum hálito, no entanto, sem absolvição, o que tornava tudo ainda mais doloroso. A hora avançava e o desespero também. Precisava decidir rápido, pois sabia que o desfecho estava próximo. Revelaria o segredo? Trairia o cadáver? Romperia o pacto de toda uma vida?
O padre, uma missa, as exéquias. Um grito, um alarido, um choro. Alguns passos, umas breves palavras e a ordem. Que fosse colocada a tampa do caixão.
Uma cena terrível foi o que se testemunhou em seguida. A língua, como se vomitasse a si própria saltou das garras da morte e pronunciando palavras indecifráveis beijou a face do morto, tombando em seguida como um corpo náufrago trazido pela maré.

Adeilton Lima

domingo, 9 de agosto de 2015

Sobre o mar da noite voou o pássaro... O vento tão algoz quanto parceiro semeava o caminho entre uivos e silvos ancestrais. Estrelas cadentes acenavam dos seus ninhos celestes rodopiando galáxias nas pontas dos dedos das crianças. "Aqui tudo é", disse o senhor dos sonhos, que com sua flauta conduzia o movimento preciso das serpentes pelos pontos iluminados do céu a flertar infinitudes... Havia auroras boreais nas gargantas dos tenores saudando o novo ciclo que se anunciava. Lá no fundo do oceano uma estrela do mar aguardava seu príncipe encantado que viria um dia dos espaços siderais. E o oceano era todo lágrimas entre o que veio e o que já foi no turbilhão das correntezas e no olhar daquele pássaro.

Adeilton Lima

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A palavra
tal qual o suor
na pele
mistura-se à saliva
na penetração da língua...
transformada ora em uivos
ora silvos, ora em ecos,
ora em ais...
A boca jaz em ebulição
no ranger dos dentes
como pedra a lapidar...
e para além do corpo
busca a alma
deixa-se ir
ora evaporando-se,
ora molhando o chão
migra, singra, salta
na loucura
para acolher
outros sentidos
delírios, libidos
na fertilização dos ventos
e das novas semeaduras.


Adeilton Lima
O solo de um blues
na corda bamba dos dedos...
a tarde solta um agudo rasgado
ouço Janis... Em seu trapézio
jogando-se, imortal, sem redes
nos mistérios do abismo
de sua própria voz!


Adeilton Lima
O tempo empoeira
os horizontes da tarde
e os girassóis sopram
(des) encarnados arrebóis
um pássaro sonha
tempestades noturnas
na garganta do fogo
enquanto uma criança brinca
marejando alquimias!


Adeilton Lima
Estrelas
pétalas da noite
pálpebras das madrugadas
entre
sons luzindo
espaços e silêncios
na canção das espirais celestes
singrando rotas
onde os espasmos da aurora
banham os oceanos...
os astros são tesouros
inalcançáveis e inatingíveis
na arca do universo!


Adeilton Lima
Sobre a mesa
as frutas
consomem o tempo
na autofagia de suas crateras
rugas que escorrem
pelas cascas frias
na agudez do quando
(outrora) árvore
mas que agora
jazem alimento.


Adeilton Lima
Nuvens kamikazes saltavam
para dentro de si mesmas
com vermelhidão de sangue
rasgando em carne viva
os abismos celestiais.


Adeilton Lima
Nuvens kamikazes saltavam
para dentro de si mesmas
com vermelhidão de sangue
rasgando em carne viva
os abismos celestiais.


Adeilton Lima
Aguardo as noites de lua cheia apenas para admirar a tua luz. Sou náufrago na madrugada quase tocando as estrelas. Teu sorriso largo é o barco da aurora que me resgata na companhia dos pássaros que agora celebram o sol e a terra firme! A água na tua pele e eu nas tuas águas.

Adeilton Lima
 
E eu que já carregava tantas tralhas nas costas, tantos sonhos mumificados, inúmeras bifurcações dentro do próprio peito... Porém, cada pegada na estrada é uma semente que o vento sopra e espalha, e a sombra a me seguir é a minha própria alma travestida de desejos, sem abandonos, constantemente a me dizer, siga e livre-se das tralhas! Adiante encontrarás velhos e novos companheiros de jornada banhados pelo suor das labutas de tantos sóis. A colheita dos sorrisos e dos afetos na ciranda das amizades. A meditação e o mergulho interior seguro para a experiência tão somente do dia seguinte como quem inventasse o agora e multiplicasse eternidades.

Adeilton Lima
O Deputado

Era apenas mais um discurso, um dia importante para os holofotes. Aquela pauta, aquele projeto e aquela plataforma haveriam de vingar, muitos deputados pastores votariam a seu favor. Nenhuma chance para essas tais minorias constantemente a ameaçar a pátria, a fé e a família! Gays, lésbicas, negros, artistas, mulheres, índios, etc, grupos inoportunos sempre a dar dores de cabeça em meio a tantos projetos e trabalhos para o país.
Casa cheia e jornalistas a postos. Ao fundo do plenário, a flácida e tímida oposição.
Dedo em riste, cabeça erguida e histórico político e moral na ponta da língua quando sentiu a pontada no peito... Tombou! Morte instantânea!
No IML, a causa “mortis”. Infarto fulminante. Certamente já estava nos braços de Deus!
Hora de preparar o corpo para o funeral.
Despiram-no... A velha gravata importada, o terno caríssimo feito sob medida para os discursos políticos e orações na igreja, não exatamente nessa ordem, e a mais incrível das surpresas...
Uma calcinha lilás.


Adeilton Lima
Um gesto
de adeus
é tão abissal
quanto colossal
é o abraço no calor
dos afetos


A lona puída do circo era uma tela de cinema para o menino. Através daqueles trapos, sentado numa arquibancada de madeira, ele flertava as estrelas como se caminhasse pelo universo na corda bamba do horizonte. Aquele mesmo horizonte do tamanho da boca vermelha do palhaço sobre quem os trapezistas faziam piruetas quase em câmera lenta parecendo astronautas malucos que ali chegaram num foguete enferrujado. Mas o bom mesmo antes desse encantamento todo era a beleza das bailarinas cujas silhuetas, trocando de roupa no camarim antes de entrar em cena, provocavam a suspensão de sua respiração e também arrepios como se ele estivesse no epicentro do próprio globo da morte.

Adeilton Lima


Como febre para além da boca

Como dente para além do siso

Como riso para além do lábio

Como grito na garganta rouca



O dia cinza no teu olho esquálido

O samba negro com batom vernmelho

Os pés gingando, calos sem rima

Um bêbado pálido em zigue-zague

Sobre a calçada deserta de lombadas

Tuas coxas roxas brincando de lilases

Um cão verde no corpo da pessoa certa

Zás a mão atrás da mosca

Aquela voz sem cor no horizonte vesgo

Escorregando com os dedos pela saia da mulata

Ouve-se um tiro talvez fogos de artifício

Pelos corredores sombras em disparada

O chicote lá do alto em estalo

Um bebê chora

Parece até que nasce

A mão agora em fuga na goela azul do galo

Quantas manhãs olhando o leite derramado

Tetas, teias, tendões, tudo findando

Um laço em volta do pescoço

Nem homem

Nem cão

Nem galo

Um réptil que ignora o rastejar do dia

Um lábio leporino a te tragar mil beijos.



Como oceano para além do sal

Como núpcias para além da cama

Como voz para além do verso

Como tez para além da pele

Como gozo

Para além

Do grito!



Adeilton Lima

terça-feira, 23 de junho de 2015

Não invento palavras, a poesia é o alfabeto que aprendi com os deuses, ainda na infância, enquanto conversava e brincava com fantoches desbotados, uma árvore parideira de sonhos e com os meus queridos amigos imaginários, sim, eles, os deuses.

Adeilton Lima
Era um dia qualquer para se viver ou para morrer... Posicionou-se na beira do precipício e lançou-se, sem medo! Mergulhou para dentro do próprio abismo sem paraquedas ou salva-vidas e renasceu! Já não caía, mas levitava! Já não era mais um corpo à deriva cercado por tubarões. Era a própria bússola de sua alma a conduzir a vida para outras nascentes e novas manhãs.

Adeilton Lima

domingo, 21 de junho de 2015

O segredo de Sísifo era apenas ficar mais perto da lua a cada subida na montanha, e para isso valia qualquer sacrifício, como carregar uma imensa pedra nas costas, rolá-la montanha abaixo e tornar a subir com a mesma, à sua maneira refazendo os ciclos. E assim, à guisa de cumprir uma condenação, ele superava o sofrimento e enganava os deuses.

Adeilton Lima

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Aguardo as noites de lua cheia apenas para admirar a tua luz. Sou náufrago na madrugada quase tocando as estrelas. Teu sorriso largo é o barco da aurora que me resgata na companhia dos pássaros que agora celebram o sol e a terra firme! A água na tua pele e eu nas tuas águas.

Adeilton Lima

domingo, 31 de maio de 2015

A cada passo
um traço
um rastro
um lastro
efêmero
volátil
sutil
contumaz
único
agudo
profundo
eterno!


Adeilton Lima

segunda-feira, 4 de maio de 2015

quarta-feira, 18 de março de 2015

O ritual é sempre uma oportunidade de voltarmos ao começo, não necessariamente de fazermos o mesmo caminho. Nada associado ao ego. A conexão é com a energia superior, seja lá qual for o nome, que nos habita, do macro ao micro universo. Se ritualizamos tudo o que fazemos, no sentido sublime da palavra, giramos na mesma frequência dessa ciranda universal. Assim é para a poesia de cada dia, nosso sagrado cordão umbilical. Que assim seja! Evoé, namastê, axé, amém!

Adeilton Lima
Quando o poema

fica inconcluso, 

o não escrito 

é  a poesia.

Adeilton Lima
Ser poeta
em cada gota
de sêmen, suor, saliva
e lágrima
em cada poro
encharcado
de vida
de andanças
de bailes e rodopios
de acenos e afagos
de chegadas e partidas
Ser poeta
como quem corta
as próprias veias
para alcançar
outras profundezas
com a mesma alegria
dos desapegos tão necessários
em meio ao delírio
de outras manhãs e delicadezas
ser poeta
porque esse é um caminho
sem volta
como quem salta
do fundo para
o alto do precipício
reinventando gravidades
e renascendo para outros
dias, outras infâncias
ou mesmo outras mortes
ser poeta
porque não há salvação
senão na fogueira dos versos
queimando lábios, vaginas
línguas, bocas e falos
ouvindo as vozes dos deuses
em orgias sublimes
e orgasmos vorazes.
Adeilton Lima