sábado, 17 de novembro de 2012

O Lagarto




O rabo do lagarto deslizava sobre a pele do rosto. A ponta do rabo 
perfurando o olho cru do dia como uma ressaca. Uma ruga enviesada a caminho 
dos lábios dos quais um leve odor de dias passados saía aos poucos represado 
pelos dentes. Das narinas, algo gelatinoso escorria como lavas de um vulcão 
a ponto de explodir. Restos de pó e tabaco, um negrume de vida a cada 
tentativa de entender as invasões do ar. A boca aberta esperando noites e 
orgias, cavalos alados e mulheres nuas. Uma dose para além desse momento, 
para além desse quarto cujas paredes vigiam as frestas do mundo lá fora. Na 
testa, uma gota sonâmbula de suor espreitando as pálpebras agora 
arregaladas. Arregaladas, sim, pela visão terrível do lagarto. Um parto 
medonho com um choro surdo, uma banda talvez lá fora tocasse alguma coisa, 
rumores de uma marcha fúnebre anunciando a sua partida. Os nós dos dedos, os 
pulsos fechados, a contração sem fim. Não nasceria aquela noite sem 
experimentar a crueldade do dia, do dia algoz e impiedoso, com seus veículos 
barulhentos, com a sua luz medonha a trucidar a retina como uma britadeira 
perfurando o crânio cego e frio da pedra.

Adeilton Lima

Nenhum comentário: