terça-feira, 12 de julho de 2011

Diário de um Louco - Crítica

Foto: Pardal
Correio Braziliense – 16/10/1999
Fernando Marques

Comédia Amarga é Ótimo Teatro
                  
Bertold Brecht disse uma vez que gostaria de ver suas obras envelhecerem. Se isso ocorresse, talvez a sociedade é que tivesse mudado – para melhor. A citação vem a propósito da atualidade cruel do conto Diário de um Louco, do russo Nicolai Gogol (1809 – 1852). Adaptado para o palco pelo pernambucano Rubem Rocha Filho nos anos 60, o texto dá base ao espetáculo de mesmo nome com o ator Adeilton Lima, dirigido por Cesário Augusto.
Gogol praticou o realismo, misturando-o freqüentemente a elementos fantásticos. Na comédia O Inspetor Geral, faz sátira da burocracia, mantendo-se dentro dos limites realistas. Em Diário de um Louco, realidade e fantasia se misturam novamente, mas dessa vez as fronteiras de certo modo se mantêm, já que se trata de um homem para quem tudo parece possível.
O próprio personagem, funcionário subalterno sem chances de ascensão, narra sua história. Quanto mais ele se percebe distante de seus desejos e objetivos – o respeito de chefes e colegas, o amor da filha do diretor –, mais mergulha na fantasia desatinada, que o compensa dos tropeços. O autor recorre, como noutros textos, a situações patéticas, capazes de produzir o “riso entre lágrimas”.
O monólogo correria o risco de desabar em mãos menos talentosas. Adeilton Lima possui e emprega os recursos necessários a enfrentar o personagem sem que o interesse caia. O fato de representar um louco pede certas inflexões vocais e corporais insólitas: dos passos circulares, no início, ao corpo atirado ao chão, sob pancadas, no final, sem falar nos interlúdios cômicos. Justamente nos momentos de maior sofrimento, de maior cisão, o personagem imagina-se rei da Espanha, coroado no Brasil dos anos 60 – ou 90. Lá fora, o fascismo, de fato, reina.
Há passagens engraçadas, como aquela em que o personagem supõe ler cartas que teriam sido escritas por uma cachorrinha grã-fina, pertencente à moça de quem ele gosta. Cachorros não escrevem cartas? Para ele, esse dado não tem a menor importância. Adeilton e o diretor Casário conseguem fazer o público enxergar, por trás da máscara cômica do maluco, o sofrimento do homem sem saída, prensado entre os próprios limites e o mundo absurdo. As leis formais ou informais parecem existir com o intuito específico de torná-lo infeliz. Por outro lado, a criatura de Gogol não reconhece derrotas, nega obstinadamente a realidade adversa, ilude-se todo o tempo sobre si e sobre os outros.
A comédia amarga projeta-se da Rússia de meados do século XIX para o Brasil de hoje. Ator e diretor vêm pesquisando os recursos da interpretação. Nada de acadêmico ou experimental, porém: o que se vê em cena é teatro, bom teatro. Adeilton pode prosseguir, talvez, indefinidamente, na elaboração interior dessa e de outras criaturas, sem perder a possibilidade de vê-las de fora e rir delas – ou com elas. Como, aliás, acontece em Diário de um Louco. Vale a ênfase: o ator pode se tornar um Olivier, um Autran, quem sabe maior que Olivier e maior que Autran.

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