quarta-feira, 27 de julho de 2011



Google

A tarde é uma puta sem clichês
Toda aberta de nuvens pubianas
Com suas línguas répteis
Como se fossem enguias
Penetrando um oceano seco,
Engolindo o sol um tanto sonolento
Porém faminto dessas tetas tesas
Findo o tempo
Arrebol!


Adeilton Lima

sábado, 23 de julho de 2011

Avencas

Goolge

Toda relação
É uma miragem 
Grãos de tempo
Desfolhando
Em barcos ancorados no deserto 
Toda relação
É uma miragem 
As que ficaram
Pela estrada
As que aconteceram às escondidas
Como se fossem para sempre
As que sucumbiram
inesperadamente
As que (nos) enlouqueceram...
As que (nos) arrebataram. 
A miragem do
Do olhar apenas trocado
Do desejo abortado
Do cio interrompido
Num escalpo do horizonte ao final da tarde 
As flores murchas
As malas desfeitas
A viagem que não aconteceu
Num inacreditável aceno de adeus...
 O grito dentro do copo
O porre no abismo
E o abismo do porre
O silêncio marcado no corpo
O poema não escrito 
Toda relação
É uma miragem 
O mamilo e a saliva
A pele e o sêmen
A palavra e a língua 
O aprendizado da dor 
Tão longe
Tão perto 
Toda relação
É uma miragem 
Num cruzamento de esquina
Ou na borda de uma xícara
Sobre o ringue das manhãs
Manchado de sangue, lágrimas e suor 
Toda relação
É uma miragem 
E mesmo que duvides
Protestes e renegues
Haverás
De encontrá-la no instante infinito
Da corda bamba dos dias
Sorrindo... Sorrindo... Sorrindo...
Com o olhar arrebatador.

Adeilton Lima

domingo, 17 de julho de 2011

Ciranda



Vai à missa
Acende vela
Reza pro santo
Pede benção
Marido
Filhos
Vida feliz
No terreiro
Despacho
Encomenda
Limpeza
Da alma
Tudo é fé
À noite, 
Batom...
Beira de copo
Fumaça
Carne
Cama
Carma
Dia seguinte
Vai à missa.

Adeilton Lima

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Oblíqua

A madrugada
é um poema
com a língua
para fora
ziguezagueando
teus desejos


Adeilton Lima

terça-feira, 12 de julho de 2011

Diário de um Louco - Crítica

Foto: Pardal
Correio Braziliense – 16/10/1999
Fernando Marques

Comédia Amarga é Ótimo Teatro
                  
Bertold Brecht disse uma vez que gostaria de ver suas obras envelhecerem. Se isso ocorresse, talvez a sociedade é que tivesse mudado – para melhor. A citação vem a propósito da atualidade cruel do conto Diário de um Louco, do russo Nicolai Gogol (1809 – 1852). Adaptado para o palco pelo pernambucano Rubem Rocha Filho nos anos 60, o texto dá base ao espetáculo de mesmo nome com o ator Adeilton Lima, dirigido por Cesário Augusto.
Gogol praticou o realismo, misturando-o freqüentemente a elementos fantásticos. Na comédia O Inspetor Geral, faz sátira da burocracia, mantendo-se dentro dos limites realistas. Em Diário de um Louco, realidade e fantasia se misturam novamente, mas dessa vez as fronteiras de certo modo se mantêm, já que se trata de um homem para quem tudo parece possível.
O próprio personagem, funcionário subalterno sem chances de ascensão, narra sua história. Quanto mais ele se percebe distante de seus desejos e objetivos – o respeito de chefes e colegas, o amor da filha do diretor –, mais mergulha na fantasia desatinada, que o compensa dos tropeços. O autor recorre, como noutros textos, a situações patéticas, capazes de produzir o “riso entre lágrimas”.
O monólogo correria o risco de desabar em mãos menos talentosas. Adeilton Lima possui e emprega os recursos necessários a enfrentar o personagem sem que o interesse caia. O fato de representar um louco pede certas inflexões vocais e corporais insólitas: dos passos circulares, no início, ao corpo atirado ao chão, sob pancadas, no final, sem falar nos interlúdios cômicos. Justamente nos momentos de maior sofrimento, de maior cisão, o personagem imagina-se rei da Espanha, coroado no Brasil dos anos 60 – ou 90. Lá fora, o fascismo, de fato, reina.
Há passagens engraçadas, como aquela em que o personagem supõe ler cartas que teriam sido escritas por uma cachorrinha grã-fina, pertencente à moça de quem ele gosta. Cachorros não escrevem cartas? Para ele, esse dado não tem a menor importância. Adeilton e o diretor Casário conseguem fazer o público enxergar, por trás da máscara cômica do maluco, o sofrimento do homem sem saída, prensado entre os próprios limites e o mundo absurdo. As leis formais ou informais parecem existir com o intuito específico de torná-lo infeliz. Por outro lado, a criatura de Gogol não reconhece derrotas, nega obstinadamente a realidade adversa, ilude-se todo o tempo sobre si e sobre os outros.
A comédia amarga projeta-se da Rússia de meados do século XIX para o Brasil de hoje. Ator e diretor vêm pesquisando os recursos da interpretação. Nada de acadêmico ou experimental, porém: o que se vê em cena é teatro, bom teatro. Adeilton pode prosseguir, talvez, indefinidamente, na elaboração interior dessa e de outras criaturas, sem perder a possibilidade de vê-las de fora e rir delas – ou com elas. Como, aliás, acontece em Diário de um Louco. Vale a ênfase: o ator pode se tornar um Olivier, um Autran, quem sabe maior que Olivier e maior que Autran.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Vestida com nuvens transparentes e usando as estrelas mais brilhantes do universo, por mais uma noite, em tantos séculos, a lua esperou pelo sol...


Adeilton lima