segunda-feira, 7 de março de 2011

Conto de Carnaval


Conto de Carnaval
Para Aníbal Machado

Diante do espelho fazia os últimos retoques na maquiagem.
Já se ouvia ao longe o som de um tamborim, um pandeiro e uma cuíca. A fantasia resultou de algumas economias ao longo do ano. Teve que engolir muita coisa a seco para estar ali se preparando para o grande momento. Poderia ter visitado a família ou aproveitado aquele dinheirinho para comprar um colchão novo e alguma peça de roupa, ou mesmo para uma pequena reforma no barraco. Isso tudo, sem contar o coração já tão baqueado pelo gingado da vida e que precisava com urgência de um tratamento. A voz do médico ainda ecoava na memória. Mas, não. Nada poderia ser mais importante que sua fantasia, o sorriso efêmero das pessoas, a letra gloriosa do seu samba favorito.
O tamborim renovava o convite a cada instante. As pessoas já se reuniam na concentração. O enredo da escola naquele ano tinha tudo para ser campeão. Mais um pouco e veria sua própria vida escorrendo pela avenida. O pandeiro dava o ar de sua graça, ao que seus pés não resistiam. Ali, diante do espelho, tudo era devaneio sob o telhado puído do quarto. Reforçou a maquiagem sob os olhos para esconder as olheiras, um pouco mais de talco para endurecer as lágrimas também puídas. O coração em descompasso era como o badalo de um sino chamando para a missa. Talvez sua alma já estivesse em cinzas antes mesmo de qualquer quarta-feira.
Sobre o salto, a sua fantasia; sobre o seu corpo, um enredo ou arremedo de vida, tanto faz. Tal fronteira limitava a voz na garganta, e desafinou na primeira tentativa. Cambaleou como se estivesse bêbada, uma embriaguez de serpentinas, uma chuva imaginária de confetes sufocando-lhe a respiração. Caiu no chão do quarto vendo no teto o estandarte de sua própria história.
A escola iniciava mais um desfile sob o choro disfarçado de uma cuíca.

Adeilton Lima

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