quinta-feira, 17 de março de 2011

quinta-feira, 10 de março de 2011

Heróis – O Caminho dos Pássaros

Em recente participação no programa Roda Viva, da TV Cultura, o poeta Ferreira Gullar, que há pouco completou 80 anos, ao ser indagado por um jornalista sobre o que é ter 80 anos, deu a seguinte resposta. “Eu não tenho 80 anos, dizem que tenho, mas eu não sei o que é ter 80 anos, não me sinto com 80 anos...”. Compreensível tal resposta se considerarmos o fato de que a poesia não envelhece, nem tampouco se deixa gretar pelo tempo. O poeta está em constante viagem, migrando como pássaro, buscando nascentes e solos férteis onde alimentar a alma (ou as almas). O poeta está sempre de passagem, jamais em fuga.
Heróis, em cartaz no Espaço Cena (205 Norte) é um belo poema cênico, do dramaturgo francês Gerald Sibleyras, a nos cutucar e provocar como um garoto traquina com a seguinte questão: Do que fugimos, por que fugimos? Onde estão nossos moinhos de vento? Enfrentemo-los!
Tudo cabe no espaço de uma caixinha de música...
Em cena, três ex-combatentes de guerra (deliciosas interpretações de Chico Sant’Anna, João Antonio e William Ferreira). A guerra exterior e cruel com suas marcas e seqüelas, e também a guerra interior, sem trincheiras, com nossos medos, angústias, desejos e solidão. No entanto, nada de lamentação, nada de penitências, nada de sofrimento. O que temos em cena é um delicioso saborear da vida. E o que poderia ser um muro de lamentações a reclamar da sorte, transforma-se num jogo lúdico com três zombeteiros garotos a rir de tudo, inclusive de si mesmos. Nada de questionamentos banais do tipo “de onde viemos?”, “Por que estamos aqui” ou “Por que conosco?”. Nada de culpa, nada de perdão, nada de caminhos cristãos. A questão é mais profunda,  ao mesmo tempo que sutil: Por que fugir? Do que fugir?
O labirinto chama-se existência.
O asilo é metáfora dessa ilusão. E diante do aparente calabouço, esconde-se nosso mais profundo desejo de continuar sonhando, inventando mundos, brincando de Quixotes a vencer batalhas, a saltar e pular os muros da vida como aprendemos a fazer na infância. Pobre do homem que cresceu sem conhecer a dor de uma queda e de um joelho ralado... E de uma ponta a outra desse labirinto, não temos nem a criança nem o velho, mas o ser, puro, completo, numa espécie de não-idade, não-data, não-aniversário, aquela mesma que encontramos na poesia de Mario Quintana e Manoel de Barros, e também nas palavras acima de Ferreira Gullar.
A infância é a idade poética do ser.
Não podemos fugir do tempo, ele é nosso amigo mais íntimo, às vezes até perverso, e gosta de demonstrar isso quando gargalha de nós diante do espelho. Não podemos fugir de nós mesmos, das nossas masmorras secretas que represam nossos sonhos. E às vezes é tão simples libertá-los... Basta fecharmos os olhos...
Guilherme Reis mais uma vez apresenta uma direção discreta, no entanto mais atenta à dramaturgia que à cena propriamente, sem deméritos, diga-se, alcançando um resultado poético cujo lirismo transborda do palco à platéia, transformando três dinossauros da guerra em três heróis mosqueteiros... Os objetos cenográficos simbolizam a trajetória de cada um dos heróis, tão à vista quanto as copas imaginárias das árvores embaladas pelo vento.
Nem patos nem gansos nem homens... Apenas pássaros!
Touché!
Adeilton Lima

segunda-feira, 7 de março de 2011

Conto de Carnaval


Conto de Carnaval
Para Aníbal Machado

Diante do espelho fazia os últimos retoques na maquiagem.
Já se ouvia ao longe o som de um tamborim, um pandeiro e uma cuíca. A fantasia resultou de algumas economias ao longo do ano. Teve que engolir muita coisa a seco para estar ali se preparando para o grande momento. Poderia ter visitado a família ou aproveitado aquele dinheirinho para comprar um colchão novo e alguma peça de roupa, ou mesmo para uma pequena reforma no barraco. Isso tudo, sem contar o coração já tão baqueado pelo gingado da vida e que precisava com urgência de um tratamento. A voz do médico ainda ecoava na memória. Mas, não. Nada poderia ser mais importante que sua fantasia, o sorriso efêmero das pessoas, a letra gloriosa do seu samba favorito.
O tamborim renovava o convite a cada instante. As pessoas já se reuniam na concentração. O enredo da escola naquele ano tinha tudo para ser campeão. Mais um pouco e veria sua própria vida escorrendo pela avenida. O pandeiro dava o ar de sua graça, ao que seus pés não resistiam. Ali, diante do espelho, tudo era devaneio sob o telhado puído do quarto. Reforçou a maquiagem sob os olhos para esconder as olheiras, um pouco mais de talco para endurecer as lágrimas também puídas. O coração em descompasso era como o badalo de um sino chamando para a missa. Talvez sua alma já estivesse em cinzas antes mesmo de qualquer quarta-feira.
Sobre o salto, a sua fantasia; sobre o seu corpo, um enredo ou arremedo de vida, tanto faz. Tal fronteira limitava a voz na garganta, e desafinou na primeira tentativa. Cambaleou como se estivesse bêbada, uma embriaguez de serpentinas, uma chuva imaginária de confetes sufocando-lhe a respiração. Caiu no chão do quarto vendo no teto o estandarte de sua própria história.
A escola iniciava mais um desfile sob o choro disfarçado de uma cuíca.

Adeilton Lima