quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Do Fogo


                                                                            Em agradecimento ao mano poeta Paulo Colina 
Mesmo que teus olhos queimem
Tua boca seque
E tua língua seja apenas uma lixa
A balbuciar palavras
Obesas
Porém vazias
No farelo das noites
Mesmo que teus ouvidos
Já esquálidos
Explodam o concreto do peito
Na surdez instantânea
De uma lágrima
E mesmo que teu chão seja o fio da navalha
Cortando a seco a ponta do mamilo
E tuas mãos em prece
Mais se pareçam com o aceno de um feto
A gargalhar como um demônio débil
Ame!
Ainda que jogado no abismo
Ou na calçada fria, ame!
Ame! Ame! Ame!
Até que tua garganta
se perca numa madrugada rouca!
E, por fim, mesmo que te encontrem
Moribundo no final do porre
A pronunciar seus últimos acordes
Um pouco antes do último suspiro.
Ame!
Pois é exatamente assim que se faz o parto de mais uma aurora!
Adeilton Lima