quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011



Google

Aqui
No quando
Da poesia
É sob a pele
Que ela me espreita
E dentro ali
Da cratera do poro
Tudo começa a queimar
Desde aquele uivo lá fora
Em ereções lunares
Aos sonolentos
Passos do lobo
Depois da mutação...
Aqui
Nesse quando insaciável
É que bebo minhas noites
E ejaculo alguns versos
Na boca vermelha da manhã.

Adeilton Lima



sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Barco


O Barco

Alto mar
O tempo assobiando correntes
Águas batizando novos caminhos
Para o meu corpo que flutua
Dançando uma valsa à luz de uma vela
Com uma taça de vinho na mão.
Mas nada de tempestades
Horizontes há...
No mar ou no deserto (dentro ou fora da taça).
Porém, tudo é deserto e mar!
Navegar! Eis o verbo! 

Reverbero!
Ecos de mim...
Sou barco! Sou baco!
E o vento, fogo para a minha vela.

Adeilton Lima

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Poema

Quando olhei para o lado o poema estava ali, estendido, caído na calçada. Depois de reanimá-lo, trouxe-o para casa. Coloquei-o em um livro e percebo agora que ele está melhor apesar de um certo estranhamento ao novo habitat... No entanto, a notícia é apenas para tranquilizá-los. Logo, logo, ele retornará ao mundo, que é o seu lugar. Ou melhor, ao mundo que ele preferir. Cada vez mais poema!


Adeilton Lima

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Leão



O tempo que afunila
no olho do sol
É o mesmo
Que crepita
Na juba do leão.
Ritual do fogo!

Adeilton Lima

quarta-feira, 27 de julho de 2011



Google

A tarde é uma puta sem clichês
Toda aberta de nuvens pubianas
Com suas línguas répteis
Como se fossem enguias
Penetrando um oceano seco,
Engolindo o sol um tanto sonolento
Porém faminto dessas tetas tesas
Findo o tempo
Arrebol!


Adeilton Lima

sábado, 23 de julho de 2011

Avencas

Goolge

Toda relação
É uma miragem 
Grãos de tempo
Desfolhando
Em barcos ancorados no deserto 
Toda relação
É uma miragem 
As que ficaram
Pela estrada
As que aconteceram às escondidas
Como se fossem para sempre
As que sucumbiram
inesperadamente
As que (nos) enlouqueceram...
As que (nos) arrebataram. 
A miragem do
Do olhar apenas trocado
Do desejo abortado
Do cio interrompido
Num escalpo do horizonte ao final da tarde 
As flores murchas
As malas desfeitas
A viagem que não aconteceu
Num inacreditável aceno de adeus...
 O grito dentro do copo
O porre no abismo
E o abismo do porre
O silêncio marcado no corpo
O poema não escrito 
Toda relação
É uma miragem 
O mamilo e a saliva
A pele e o sêmen
A palavra e a língua 
O aprendizado da dor 
Tão longe
Tão perto 
Toda relação
É uma miragem 
Num cruzamento de esquina
Ou na borda de uma xícara
Sobre o ringue das manhãs
Manchado de sangue, lágrimas e suor 
Toda relação
É uma miragem 
E mesmo que duvides
Protestes e renegues
Haverás
De encontrá-la no instante infinito
Da corda bamba dos dias
Sorrindo... Sorrindo... Sorrindo...
Com o olhar arrebatador.

Adeilton Lima

domingo, 17 de julho de 2011

Ciranda



Vai à missa
Acende vela
Reza pro santo
Pede benção
Marido
Filhos
Vida feliz
No terreiro
Despacho
Encomenda
Limpeza
Da alma
Tudo é fé
À noite, 
Batom...
Beira de copo
Fumaça
Carne
Cama
Carma
Dia seguinte
Vai à missa.

Adeilton Lima

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Oblíqua

A madrugada
é um poema
com a língua
para fora
ziguezagueando
teus desejos


Adeilton Lima

terça-feira, 12 de julho de 2011

Diário de um Louco - Crítica

Foto: Pardal
Correio Braziliense – 16/10/1999
Fernando Marques

Comédia Amarga é Ótimo Teatro
                  
Bertold Brecht disse uma vez que gostaria de ver suas obras envelhecerem. Se isso ocorresse, talvez a sociedade é que tivesse mudado – para melhor. A citação vem a propósito da atualidade cruel do conto Diário de um Louco, do russo Nicolai Gogol (1809 – 1852). Adaptado para o palco pelo pernambucano Rubem Rocha Filho nos anos 60, o texto dá base ao espetáculo de mesmo nome com o ator Adeilton Lima, dirigido por Cesário Augusto.
Gogol praticou o realismo, misturando-o freqüentemente a elementos fantásticos. Na comédia O Inspetor Geral, faz sátira da burocracia, mantendo-se dentro dos limites realistas. Em Diário de um Louco, realidade e fantasia se misturam novamente, mas dessa vez as fronteiras de certo modo se mantêm, já que se trata de um homem para quem tudo parece possível.
O próprio personagem, funcionário subalterno sem chances de ascensão, narra sua história. Quanto mais ele se percebe distante de seus desejos e objetivos – o respeito de chefes e colegas, o amor da filha do diretor –, mais mergulha na fantasia desatinada, que o compensa dos tropeços. O autor recorre, como noutros textos, a situações patéticas, capazes de produzir o “riso entre lágrimas”.
O monólogo correria o risco de desabar em mãos menos talentosas. Adeilton Lima possui e emprega os recursos necessários a enfrentar o personagem sem que o interesse caia. O fato de representar um louco pede certas inflexões vocais e corporais insólitas: dos passos circulares, no início, ao corpo atirado ao chão, sob pancadas, no final, sem falar nos interlúdios cômicos. Justamente nos momentos de maior sofrimento, de maior cisão, o personagem imagina-se rei da Espanha, coroado no Brasil dos anos 60 – ou 90. Lá fora, o fascismo, de fato, reina.
Há passagens engraçadas, como aquela em que o personagem supõe ler cartas que teriam sido escritas por uma cachorrinha grã-fina, pertencente à moça de quem ele gosta. Cachorros não escrevem cartas? Para ele, esse dado não tem a menor importância. Adeilton e o diretor Casário conseguem fazer o público enxergar, por trás da máscara cômica do maluco, o sofrimento do homem sem saída, prensado entre os próprios limites e o mundo absurdo. As leis formais ou informais parecem existir com o intuito específico de torná-lo infeliz. Por outro lado, a criatura de Gogol não reconhece derrotas, nega obstinadamente a realidade adversa, ilude-se todo o tempo sobre si e sobre os outros.
A comédia amarga projeta-se da Rússia de meados do século XIX para o Brasil de hoje. Ator e diretor vêm pesquisando os recursos da interpretação. Nada de acadêmico ou experimental, porém: o que se vê em cena é teatro, bom teatro. Adeilton pode prosseguir, talvez, indefinidamente, na elaboração interior dessa e de outras criaturas, sem perder a possibilidade de vê-las de fora e rir delas – ou com elas. Como, aliás, acontece em Diário de um Louco. Vale a ênfase: o ator pode se tornar um Olivier, um Autran, quem sabe maior que Olivier e maior que Autran.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Vestida com nuvens transparentes e usando as estrelas mais brilhantes do universo, por mais uma noite, em tantos séculos, a lua esperou pelo sol...


Adeilton lima

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Meu vício é o verso! E vice-versa!

Vício

Vício
Veia
Voa
Avesso
Versa
Vaza
Asa
Quebra
Precipício
Vinga
Veloz
Roleta
Russa
Carapuça
Fumaça
Pedra
Carreira
Ácido
E
Líquido
Outra vez

Mais
Um
Pouquinho...
Vício
Veia...
Adeilton Lima

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Lâmina


A lâmina líquida do suor
Corta a pele
Escorre um arrepio
Entre os lábios...
A noite tem sede!

Adeilton Lima

domingo, 15 de maio de 2011

Das Existências

A existência da borboleta é em ziguezague.
A existência do cão é em diagonal.
A existência do beija-flor é a leveza.
A existência da cobra é o veneno.
A existência do tigre é o ímpeto.
A existência da rã é o salto.
A existência do vaga-lume é a escuridão.
A existência do cavalo é a força.
A existência do pássaro é o horizonte.
A existência do caramujo é a espiral.
A existência do verso é a lua!
A existência do poeta é o traço,
Linha reta ou oblíqua...
A existência do ator é o palco
Abismo...
Diante do qual se aprende a voar!

Adeilton Lima

sábado, 30 de abril de 2011

Das Travessias


Google

Eis o portal
Embainha tua espada
O círculo de fogo que
Anela a alma no interior do ventre
Protege e afaga teus caminhos
Há sombras na floresta para os teus sonhos
Agora, o leão descansa...
Depois de tantas batalhas
Suas asas recuperam o fôlego
Para novos vôos.
Vai! Sem medo faz tua travessia!
Não há barqueiro ou qualquer outro cicerone...
Esculpe na pedra o teu dia e deixa
Que a água lave teu rosto.
Do outro lado há um menino
O guardião do portal
Sorri para ele sem receio
E deixa-te levar pela correnteza.
Quando chegares à outra margem
Beija o chão dos teus ancestrais
Medita.
Terás cumprido o teu ritual...
Um raio te fortalecerá o peito e
Na voz de Deus cantará o trovão.
Será primavera!
Toma um lírio e guarda como lembrança.
Quando finalmente chegar o dia
Verás a beleza do sol que te espera!

Adeilton Lima

sexta-feira, 15 de abril de 2011

quinta-feira, 14 de abril de 2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Há Caminhos...

Quero a poesia possível!
Simples.
Aquela que me aborda de surpresa.
Que guarda meus passos
Como anjo da guarda.
Que me acena um bom dia
Com o sorriso aberto
Refletindo raios de sol.
A poesia latente da semeadura
No caminho das promessas,
No ciclo dos desejos...
Aquela da primeira noite de lua cheia
Quando inevitavelmente uivo aos céus
Celebrando a vida que corre
e a colheita das amizades fartas.
Quero a poesia possível
Encontrada nas rugas do tempo
Ou no tempo sem rugas
Quando a criança sorri...
A poesia possível
De um poema que nos pareça impossível realizar
E que de repente acontece
Como nuvem quando se abre
E não mostra apenas o céu
Mas o infinito
Que está para além do verso,
Universo!

Adeilton Lima

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Poesia ou violência?


Por Adeilton Lima
Qual a sociedade que nós queremos construir?
Definitivamente, essa é a questão à qual todo cidadão brasileiro deveria tentar responder.
Qual a relação que há entre os inúmeros escândalos que frequentemente testemunhamos na política brasileira com a onda de violência que cresce cada vez mais e que não poupa inocentes como o caso assombroso de Realengo, no Rio? Quais as relações entre o comportamento dos meios de comunicação, jornais, revistas, TVs, etc, com a loucura das drogas, com a corrupção e com aquela mesma violência? Promiscuidade e hipocrisia, essa é a minha resposta!
A corrupção estupra investimentos que bem poderiam ser aplicados em bens sociais, educação e saúde, por exemplo, e também para o pagamento de salários dignos para os profissionais dessas áreas. Enquanto um ser em surto assassina crianças indefesas dentro de uma escola, debatem-se no Congresso Nacional medidas para ampliar o porte de arma em meio a discursos homofóbicos e racistas ou de processos por corrupção de deputados (as) tão desequilibrados (as) e mal intencionados (as) quanto o assassino de Realengo, este talvez mais uma vítima. Por outro lado, a televisão brasileira continua derramando sangue em seus telejornais, programas sensacionalistas e enlatados, sufocando a realidade com uma violência gratuita que expulsa toda e qualquer possibilidade de poesia do imaginário do nosso povo. De que adianta tanta lágrima de políticos, empresários e governantes se medidas práticas e imediatas não forem tomadas? É necessário que se mudem os valores e os padrões comportamentais quase sempre importados do decadentismo norte-americano cuja ditadura massacra nossa cultura e identidade! Isso quando não invade o território alheio de olho em suas riquezas com a desculpa estúpida de proteger cidadãos de determinados opressores.
Defendo o alimento da poesia! Arte na veia, na cabeça e nos pulmões! Arte sobretudo na alma das pessoas!!!
Já passou da hora da educação no Brasil receber a atenção que merece! Ou teremos agora que instalar detectores de metal nas portas das escolas ou importar algum Rambo maldito para nos defender de nós mesmos?
Chega!!!  Basta de hipocrisia!
Faz-se necessário um pacto! Precisamos de paz!
Mudem-se as programações das TVs! Cassem-se os bandidos e canalhas fascistas e corruptos que sugam e envergonham nossa sociedade e que ocupam assentos no Congresso Nacional! E que o povo se eduque e aprenda a votar e a cobrar trabalho dessas pessoas que são craques apenas em aumentar o próprio salário.
Precisamos fazer uma lavagem nas escadarias da nossa realidade! Defumar e ritualizar os caminhos por onde devem passar os nossos sonhos!
Só vejo um remédio: Cápsulas de poesia, todos os dias!

terça-feira, 5 de abril de 2011

A poesia é uma espécie de abalo sísmico da alma. As consequências são imensuráveis...


Adeilton Lima

Poema

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Um poema nascendo
É o ápice
De um orgasmo
Do arrepio ao grito
Da letra ao falo
Da vulva aos lábios
Numa manhã de vermelho
Tal qual uma bofetada...
Ou lilás talvez
Como líquido esquecido no fundo da taça
Gotas de saliva e suor
Misturadas, lambuzadas
Riscadas na pele
Marcadas no corpo...
Poros, dedos, unhas, línguas, garras!
Agora um feto no cio...
Ejaculando horizontes!
Gozando!


Adeilton Lima

quinta-feira, 17 de março de 2011

quinta-feira, 10 de março de 2011

Heróis – O Caminho dos Pássaros

Em recente participação no programa Roda Viva, da TV Cultura, o poeta Ferreira Gullar, que há pouco completou 80 anos, ao ser indagado por um jornalista sobre o que é ter 80 anos, deu a seguinte resposta. “Eu não tenho 80 anos, dizem que tenho, mas eu não sei o que é ter 80 anos, não me sinto com 80 anos...”. Compreensível tal resposta se considerarmos o fato de que a poesia não envelhece, nem tampouco se deixa gretar pelo tempo. O poeta está em constante viagem, migrando como pássaro, buscando nascentes e solos férteis onde alimentar a alma (ou as almas). O poeta está sempre de passagem, jamais em fuga.
Heróis, em cartaz no Espaço Cena (205 Norte) é um belo poema cênico, do dramaturgo francês Gerald Sibleyras, a nos cutucar e provocar como um garoto traquina com a seguinte questão: Do que fugimos, por que fugimos? Onde estão nossos moinhos de vento? Enfrentemo-los!
Tudo cabe no espaço de uma caixinha de música...
Em cena, três ex-combatentes de guerra (deliciosas interpretações de Chico Sant’Anna, João Antonio e William Ferreira). A guerra exterior e cruel com suas marcas e seqüelas, e também a guerra interior, sem trincheiras, com nossos medos, angústias, desejos e solidão. No entanto, nada de lamentação, nada de penitências, nada de sofrimento. O que temos em cena é um delicioso saborear da vida. E o que poderia ser um muro de lamentações a reclamar da sorte, transforma-se num jogo lúdico com três zombeteiros garotos a rir de tudo, inclusive de si mesmos. Nada de questionamentos banais do tipo “de onde viemos?”, “Por que estamos aqui” ou “Por que conosco?”. Nada de culpa, nada de perdão, nada de caminhos cristãos. A questão é mais profunda,  ao mesmo tempo que sutil: Por que fugir? Do que fugir?
O labirinto chama-se existência.
O asilo é metáfora dessa ilusão. E diante do aparente calabouço, esconde-se nosso mais profundo desejo de continuar sonhando, inventando mundos, brincando de Quixotes a vencer batalhas, a saltar e pular os muros da vida como aprendemos a fazer na infância. Pobre do homem que cresceu sem conhecer a dor de uma queda e de um joelho ralado... E de uma ponta a outra desse labirinto, não temos nem a criança nem o velho, mas o ser, puro, completo, numa espécie de não-idade, não-data, não-aniversário, aquela mesma que encontramos na poesia de Mario Quintana e Manoel de Barros, e também nas palavras acima de Ferreira Gullar.
A infância é a idade poética do ser.
Não podemos fugir do tempo, ele é nosso amigo mais íntimo, às vezes até perverso, e gosta de demonstrar isso quando gargalha de nós diante do espelho. Não podemos fugir de nós mesmos, das nossas masmorras secretas que represam nossos sonhos. E às vezes é tão simples libertá-los... Basta fecharmos os olhos...
Guilherme Reis mais uma vez apresenta uma direção discreta, no entanto mais atenta à dramaturgia que à cena propriamente, sem deméritos, diga-se, alcançando um resultado poético cujo lirismo transborda do palco à platéia, transformando três dinossauros da guerra em três heróis mosqueteiros... Os objetos cenográficos simbolizam a trajetória de cada um dos heróis, tão à vista quanto as copas imaginárias das árvores embaladas pelo vento.
Nem patos nem gansos nem homens... Apenas pássaros!
Touché!
Adeilton Lima

segunda-feira, 7 de março de 2011

Conto de Carnaval


Conto de Carnaval
Para Aníbal Machado

Diante do espelho fazia os últimos retoques na maquiagem.
Já se ouvia ao longe o som de um tamborim, um pandeiro e uma cuíca. A fantasia resultou de algumas economias ao longo do ano. Teve que engolir muita coisa a seco para estar ali se preparando para o grande momento. Poderia ter visitado a família ou aproveitado aquele dinheirinho para comprar um colchão novo e alguma peça de roupa, ou mesmo para uma pequena reforma no barraco. Isso tudo, sem contar o coração já tão baqueado pelo gingado da vida e que precisava com urgência de um tratamento. A voz do médico ainda ecoava na memória. Mas, não. Nada poderia ser mais importante que sua fantasia, o sorriso efêmero das pessoas, a letra gloriosa do seu samba favorito.
O tamborim renovava o convite a cada instante. As pessoas já se reuniam na concentração. O enredo da escola naquele ano tinha tudo para ser campeão. Mais um pouco e veria sua própria vida escorrendo pela avenida. O pandeiro dava o ar de sua graça, ao que seus pés não resistiam. Ali, diante do espelho, tudo era devaneio sob o telhado puído do quarto. Reforçou a maquiagem sob os olhos para esconder as olheiras, um pouco mais de talco para endurecer as lágrimas também puídas. O coração em descompasso era como o badalo de um sino chamando para a missa. Talvez sua alma já estivesse em cinzas antes mesmo de qualquer quarta-feira.
Sobre o salto, a sua fantasia; sobre o seu corpo, um enredo ou arremedo de vida, tanto faz. Tal fronteira limitava a voz na garganta, e desafinou na primeira tentativa. Cambaleou como se estivesse bêbada, uma embriaguez de serpentinas, uma chuva imaginária de confetes sufocando-lhe a respiração. Caiu no chão do quarto vendo no teto o estandarte de sua própria história.
A escola iniciava mais um desfile sob o choro disfarçado de uma cuíca.

Adeilton Lima

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Girassóis


(Os verdadeiros poemas são incêndios - Vicente Huidobro)

Num vasto campo
Semeio a minha loucura
A terra salta dos olhos
Como um pássaro em fuga
Mas levando algumas sementes.
Um espantalho gargalha
Com abutres entre os dentes
Pousados numa mesa farta
Para os lobos, as hienas e as serpentes.
Um uivo, um assobio, um arrepio tolo
Percorrendo o canto da boca
Uma baba, uma lágrima seca
Que tenta alcançar a lua vadia
No rasgo bêbado da noite.
Sim.
Num vasto campo
Rodeado por sombras ancestrais
Inicio o grande ritual
Acendo as velas no círculo do meu chapéu
E percorro o cheiro da madrugada
Minha amante fugidia,
Sempre disfarçada.
Meu pincel é um arrebol em relâmpagos
Centelhas de vida no ventre daquelas sementes
Girassóis na minh’alma
Girassóis, girassóis, girassóis!
Pelos quatro cantos do mundo
Uma pétala do meu delírio
E agora sou asas
Nos tons do amarelo
Sem medo mergulho bem fundo
Porque sei que as camisas-de-força
São meus pára-quedas...
E vou
E voo
Voo!

Adeilton Lima

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Navalha


Conceda-me a noite
Uma dança
Ao som da madrugada
Bêbada
Fogosa
Atirando-se sobre os cacos
De estrelas que salpicam
Sobre a janela farta de calores
Odores vorazes
E portas escancaradas
Um suspiro
Nas frestas
Um olhar que lambuza
Uma garra que corta
Feito navalha entre os dentes
Só pra arrepiar tua pele
Sobre a minha pele
Num só corpo
Num só orgasmo
Num só suspiro
Sangrando, migrando
Na fronteira dos lábios
Língua a dentro.

Adeilton Lima

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Galo


Gargalo
de garrafa
na garganta
do galo...
Um brinde!
Um bater de asas!
Um canto!
Um gole de vida
Ecoando...
Adeilton Lima

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Vulva

Pompoarismo: A vulva viu a uva!
Adeilton Lima

Madrugada

Mergulho no útero da madrugada, minha amante infiel... 
Daqui a pouco ela me trairá com os olhos brilhantes e sedutores do dia!
Adeilton Lima

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Do Fogo


                                                                            Em agradecimento ao mano poeta Paulo Colina 
Mesmo que teus olhos queimem
Tua boca seque
E tua língua seja apenas uma lixa
A balbuciar palavras
Obesas
Porém vazias
No farelo das noites
Mesmo que teus ouvidos
Já esquálidos
Explodam o concreto do peito
Na surdez instantânea
De uma lágrima
E mesmo que teu chão seja o fio da navalha
Cortando a seco a ponta do mamilo
E tuas mãos em prece
Mais se pareçam com o aceno de um feto
A gargalhar como um demônio débil
Ame!
Ainda que jogado no abismo
Ou na calçada fria, ame!
Ame! Ame! Ame!
Até que tua garganta
se perca numa madrugada rouca!
E, por fim, mesmo que te encontrem
Moribundo no final do porre
A pronunciar seus últimos acordes
Um pouco antes do último suspiro.
Ame!
Pois é exatamente assim que se faz o parto de mais uma aurora!
Adeilton Lima

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Libido

Os tais sãos vêem a água apagando o fogo... Já o poeta vê o fogo atiçando a libido da água, até a última gota... Até a última centelha... Dois elementos, num só corpo, invisíveis...
Adeilton Lima