terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Cru – A Frio e a Seco

Nunca fui um admirador do teatro de Alexandre Ribondi, porém, respeito-o. Nada contra, muito menos pessoal, nem teria motivos para isso, apenas navego noutras águas e habito outras ilhas, nem melhores, nem piores, mas diferentes. Meu olhar é puramente estético. Digo abertamente, numa boa, pois não sou hipócrita, nem tão pouco me dou ao trabalho das rasgações de seda beirutianas tão comuns no metier brasiliense.  
Teatro se faz mesmo é sem tapinhas nas costas.
Interessa-me a cena, o palco, e mais ainda, o que de humano possa existir registrado numa peça teatral, seja ela de quem for, afetados (as), pesquisadores (as), diletantes, gente séria, ou nem tão séria assim, veteranos (as), iniciantes etc. Interessa-me muito mais o debate estético, discursivo e lingüístico para além de umbigos empinados na ponta de narinas que se abrem tal e qual as asas de um pavão nas portas dos teatros ou nas mesas de bares. Mas uma coisa é uma obra de arte, outra, as pessoas. E essa relação nem sempre é tão direta assim.
Cru é uma peça necessária.
Nada de novo, ninguém tem a pretensão de estar inventando a roda.
Porém, espectador nenhum sairá incólume do teatro depois dessa boa porrada na boca do estômago. Não me refiro evidentemente a possíveis cenas de violência gratuitas tão comuns no cineminha comercial dos nossos tempos televisivos. Não é por aí. Refiro-me exatamente ao que não se vê, mas se sente, ou seja, a um grau de tensão que é trabalhado ponto a ponto, vírgula a vírgula, frase a frase, gesto a gesto, cena a cena. Cru está no campo semântico que se realiza no tempo fronteiriço dos diálogos, dando ao espectador a sensação de estar numa montanha russa, condicionado indubitavelmente às leis da física ou dos embates de valores morais. Assim, acuado, e sem saída, o público acomodado em sua confortável poltrona, vê-se sacudido e expulso de seu mundinho cor-de-rosa. Cabe bem para Brasília. Do drama familiar e social que regurgita com boa dose de sarcasmo e crítica, na desossa das relações humanas, no espaço de um “pé sujo” qualquer de esquina de uma cidadezinha alhures que mistura boteco e açougue, ou em qualquer restaurante fino freqüentado pela elite podre que grassa e desgraça nas grandes cidades, Cru promove nas subidas e descidas da montanha, um escalpo que deixa a nu as doenças morais mais escrotas da nossa sociedade. Aquela mesma que de forma hipócrita faz campanha contra as drogas ao mesmo tempo em que sai para comprá-las. A mesma que diz não ter preconceitos ao mesmo tempo em que lava as mãos sobre os mesmos. Crimes políticos sob encomenda, jogadas de bastidores, matadores de aluguel, tudo tão atual e tão perto de todos nós. Vivemos numa sociedade que lentamente pratica o suicídio coletivo, seja cultural ou moral. Cabe um parêntese... A classe artística brasiliense atua no mesmo caminho como uma espécie de recorte metonímico dessa temática suicida.
Chico Santana, Sérgio Sartório e Marcos Vinícius estão excelentes em cena, bem entrosados no jogo desnudo do tabuleiro! Cada um no tempo do outro, quase formando uma única figura através da solidão, rudeza e crueldade que explodem no universo de cada personagem em particular. E tais vísceras são consumidas canibalescamente como um simples tira-gosto para a cachaça, assim como nos acostumamos a fazer com a miséria e violência que nos rodeiam.
Um tiro existencial a cru, a frio e a seco! Cru é tensão!
Paradoxalmente, um trabalho que pode ajudar a humanizar as pessoas, quiçá, a educá-las melhor...

Adeilton Lima

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