sábado, 13 de novembro de 2010

A Despedida – Outra Face da Princesa

O espetáculo A Despedida, que recentemente fez temporada no Espaço Cena, dirigido por Iuri Saraiva, é uma das mais felizes experiências do teatro brasiliense de 2010, sem nenhuma dúvida! Pesquisa é a palavra que estrutura a montagem (às vezes parece até estranho dizer isso para apontar qualidades numa peça de teatro quando o correto seria esperar que normalmente se caminhasse nesse sentido por aí.  Mas é que pesquisa, infelizmente, nem sempre é a regra, mas a exceção n’alguns teatros...), mostrando que se pode sim fazer bom teatro aliando, com rigor, corpo e texto, em função da narrativa e na medida certa. O bom trabalho de interpretação é a espinha dorsal dessa proposta cênica, sem, contudo, ficar apenas a impressão de que o elenco tem um trabalho de expressão corporal que se destaca. Não, tudo ali funciona em favor e a favor da narrativa em cada detalhe. O corpo narra através das boas e simples sacadas coreográficas, sem redundâncias, enriquecendo o texto.
Em cena, o lado humano, para além do personagem histórico, da princesa Isabel, acorrentada pelos embates existenciais de uma maternidade trágica e pelas questões políticas e sociais acerca da liberdade, da representação da mulher na sociedade machista, na história e na política, e o fim da escravidão. Temas que transcendem o tempo meramente histórico e chegam a nós em ondas tempestuosas que saltam dos livros de história para a atualidade. Uma cenografia, cujos elementos sugerem o arcabouço/calabouço simbólico da personagem central, está ali sob medida para o que o espectador verá se desenrolar num intervalo de tempo que parece curto, pois fica um gostinho de “quero mais” diante do efeito poético dessa montagem. A partir do eixo dramático citado, acompanhamos o reencontro de Isabel com a irmã, Leopoldina, não necessariamente no plano real, talvez onírico, numa espécie de ajuste de contas de seus afetos. O único senão, é a opção por a peça começar do lado de fora do teatro, o que pode até ser compreensível dada a intenção de colocar o público como coadjuvante, como povo, no entanto, perde-se, enquanto prólogo, o diálogo entre as duas irmãs. Quanto mais intimista, mais teria a ganhar essa montagem, que tem ainda um excelente acompanhamento de efeitos e trilha sonora ao vivo.
Hanna Reitsch e Poliana Pieratti, respectivamente nos papéis de Isabel e Leopoldina, constroem bem seus personagens, Hanna, contudo, apesar de jovem, demonstrando a maturidade de uma veterana. Espera-se apenas que o sucesso não lhes dê uma rasteira no ego, pois como jovens atrizes que são (e isso vale para o diretor e os colegas de elenco também) iniciam e/ou dão sequência, em alto nível, a carreiras que têm tudo para ir bem longe. Aliás, esse trabalho certamente será bem recebido nos grandes festivais do Brasil e quem sabe do exterior, mostrando a boa safra do teatro brasiliense.
Que bom seria se todas as aulas de história fossem assim...

Adeilton Lima

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