segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A Carne do Mundo – Teatro em Preto e Branco

Há espetáculos que chamam a atenção pelo fato de um ou outro elemento da encenação se destacar para além dos outros, seja a interpretação, seja a cenografia, seja a luz. A Carne do Mundo consegue a proeza de dosar, equilibrar e orquestrar bem todos esses elementos, livrando-se do excesso, armadilha comum nesse arriscado caminho para lidar com a temática da perversão. Optar pela contenção foi o grande acerto dessa montagem rigorosamente minimalista. Numa estrutura espiralada em que os elementos vão adquirindo recorrência, mas não exatamente se repetindo, o que favorece a geração de densidade e leveza, o público é colocado na condição de voyeur, adentrando o espaço de um apartamento que nada mais é do que um recorte do mundo interior de nossas perversões, taras, carências, desejos etc. A narrativa caminha aberta, deixando para o espectador o desfecho, se estamos diante de um fato real ou se tudo não passa de uma criação delirante da mente de um homem... Tudo filtrado pelo olhar diáfano das persianas. Um clima “noir” que se casaria bem com as transições de espaço e tempo de um musical dirigido por Coppola, “Do Fundo do Coração”. E se o sentimento do outro é sempre alheio, as buscas e os desencontros são mesmo infindáveis no teatro, no cinema ou na vida.
Neste mundo das relações virtuais no qual vivemos, o toque, o contato, a pele na pele, é coisa cada vez mais rara; não, não estou dizendo nenhum absurdo. E às vezes, tentamos realizar nossos desejos à distância, como se envolvêssemos o corpo do outro na pele seca de nossa memória ou num plástico qualquer, como que empacotando as mercadorias expostas nos supermercados midiáticos ou dos classificados de jornal ou de sites da internet. Nosso imaginário está corroído pelos padrões comportamentais que nos são impostos e aquilo que ainda podemos chamar de humano delira por aí mundo afora por trás das persianas dos nossos próprios infernos.

Adeilton Lima

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