segunda-feira, 22 de novembro de 2010

domingo, 14 de novembro de 2010

O Pato

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Adeilton Lima

sábado, 13 de novembro de 2010

A Despedida – Outra Face da Princesa

O espetáculo A Despedida, que recentemente fez temporada no Espaço Cena, dirigido por Iuri Saraiva, é uma das mais felizes experiências do teatro brasiliense de 2010, sem nenhuma dúvida! Pesquisa é a palavra que estrutura a montagem (às vezes parece até estranho dizer isso para apontar qualidades numa peça de teatro quando o correto seria esperar que normalmente se caminhasse nesse sentido por aí.  Mas é que pesquisa, infelizmente, nem sempre é a regra, mas a exceção n’alguns teatros...), mostrando que se pode sim fazer bom teatro aliando, com rigor, corpo e texto, em função da narrativa e na medida certa. O bom trabalho de interpretação é a espinha dorsal dessa proposta cênica, sem, contudo, ficar apenas a impressão de que o elenco tem um trabalho de expressão corporal que se destaca. Não, tudo ali funciona em favor e a favor da narrativa em cada detalhe. O corpo narra através das boas e simples sacadas coreográficas, sem redundâncias, enriquecendo o texto.
Em cena, o lado humano, para além do personagem histórico, da princesa Isabel, acorrentada pelos embates existenciais de uma maternidade trágica e pelas questões políticas e sociais acerca da liberdade, da representação da mulher na sociedade machista, na história e na política, e o fim da escravidão. Temas que transcendem o tempo meramente histórico e chegam a nós em ondas tempestuosas que saltam dos livros de história para a atualidade. Uma cenografia, cujos elementos sugerem o arcabouço/calabouço simbólico da personagem central, está ali sob medida para o que o espectador verá se desenrolar num intervalo de tempo que parece curto, pois fica um gostinho de “quero mais” diante do efeito poético dessa montagem. A partir do eixo dramático citado, acompanhamos o reencontro de Isabel com a irmã, Leopoldina, não necessariamente no plano real, talvez onírico, numa espécie de ajuste de contas de seus afetos. O único senão, é a opção por a peça começar do lado de fora do teatro, o que pode até ser compreensível dada a intenção de colocar o público como coadjuvante, como povo, no entanto, perde-se, enquanto prólogo, o diálogo entre as duas irmãs. Quanto mais intimista, mais teria a ganhar essa montagem, que tem ainda um excelente acompanhamento de efeitos e trilha sonora ao vivo.
Hanna Reitsch e Poliana Pieratti, respectivamente nos papéis de Isabel e Leopoldina, constroem bem seus personagens, Hanna, contudo, apesar de jovem, demonstrando a maturidade de uma veterana. Espera-se apenas que o sucesso não lhes dê uma rasteira no ego, pois como jovens atrizes que são (e isso vale para o diretor e os colegas de elenco também) iniciam e/ou dão sequência, em alto nível, a carreiras que têm tudo para ir bem longe. Aliás, esse trabalho certamente será bem recebido nos grandes festivais do Brasil e quem sabe do exterior, mostrando a boa safra do teatro brasiliense.
Que bom seria se todas as aulas de história fossem assim...

Adeilton Lima

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Transforme seu dia num belo poema de 24h e seu tempo livre em um novelo de versos!
Adeilton Lima

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A Carne do Mundo – Teatro em Preto e Branco

Há espetáculos que chamam a atenção pelo fato de um ou outro elemento da encenação se destacar para além dos outros, seja a interpretação, seja a cenografia, seja a luz. A Carne do Mundo consegue a proeza de dosar, equilibrar e orquestrar bem todos esses elementos, livrando-se do excesso, armadilha comum nesse arriscado caminho para lidar com a temática da perversão. Optar pela contenção foi o grande acerto dessa montagem rigorosamente minimalista. Numa estrutura espiralada em que os elementos vão adquirindo recorrência, mas não exatamente se repetindo, o que favorece a geração de densidade e leveza, o público é colocado na condição de voyeur, adentrando o espaço de um apartamento que nada mais é do que um recorte do mundo interior de nossas perversões, taras, carências, desejos etc. A narrativa caminha aberta, deixando para o espectador o desfecho, se estamos diante de um fato real ou se tudo não passa de uma criação delirante da mente de um homem... Tudo filtrado pelo olhar diáfano das persianas. Um clima “noir” que se casaria bem com as transições de espaço e tempo de um musical dirigido por Coppola, “Do Fundo do Coração”. E se o sentimento do outro é sempre alheio, as buscas e os desencontros são mesmo infindáveis no teatro, no cinema ou na vida.
Neste mundo das relações virtuais no qual vivemos, o toque, o contato, a pele na pele, é coisa cada vez mais rara; não, não estou dizendo nenhum absurdo. E às vezes, tentamos realizar nossos desejos à distância, como se envolvêssemos o corpo do outro na pele seca de nossa memória ou num plástico qualquer, como que empacotando as mercadorias expostas nos supermercados midiáticos ou dos classificados de jornal ou de sites da internet. Nosso imaginário está corroído pelos padrões comportamentais que nos são impostos e aquilo que ainda podemos chamar de humano delira por aí mundo afora por trás das persianas dos nossos próprios infernos.

Adeilton Lima