quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Cena Contemporânea 2010 - Teatro do Concreto – Entrepartidas nas Asas do Desejo

Uma das memórias mais belas de Brasília que guardo é a de quando saí de casa para assistir a Asas do Desejo, de Wim Wenders, lá pelos idos de 87 ou 88, no Cine Brasília. Refiro-me evidentemente a uma outra cidade, já antiga, mesmo com seus cinqüenta anos. Sim, aquele cinema cujo valor sentimental é tão caro para muitos de nós que por lá tantas vezes passamos e que hoje está jogado às traças pela incompetência da politicagem que se instalou no Distrito Federal há alguns anos. Naquele filme, anjos descem dos céus e passam a acompanhar a vida, histórias e sonhos dos seres humanos, lêem seus pensamentos e tentam confortá-los de seus sofrimentos e adversidades. Lá pelas tantas, um deles se apaixona por uma mulher, não por acaso, uma artista, uma trapezista...
Neste trapézio da vida, embarco num início de noite na rodoviária do Plano Piloto, um dos maiores símbolos de apartheid social do mundo, em um micro-ônibus rumo ao desconhecido, numa excursão teatral e humana que não sei bem onde vai dar em meio a esse labirinto de cimento e ferro no qual vivemos. Entrepartidas, espetáculo itinerante da Cia Teatro do Concreto, me transforma, involuntariamente, em um anjo do bem e do mal, um passageiro nesse intervalo de tempo que se abre à minha frente. Saio do cinema para a vida e para o teatro. A partir dali, irei acompanhar os destinos de personagens anônimos tão próximos de nossa realidade nua e crua, como aqueles seres abandonados pela sorte que perambulam pela rodoviária, dormem no chão frio, ou que se drogam. Figuras que jamais tiveram a oportunidade de ver a 'cor' dos carpetes sujos e/ou das poltronas desbotadas das salas do Teatro Nacional logo ali ao lado; ou mesmo sequer sabem de sua existência numa espécie de relação recíproca de abandono.
O espetáculo não tem objetivamente nenhum propósito saudosista e especifico sobre a cidade, até porque é atemporal, mas confesso que logo de saída, ao ouvir uma música da Legião Urbana e depois passar em frente à Escola Parque e ao Espaço Cultural 508, foi para mim particularmente emocionante. De qualquer forma, cada um vai costurando sua colcha de retalhos com a bagagem de vida que traz nos ombros, como os vários personagens que vão surgindo pelo caminho. O que acontece em seguida é um diálogo quase silencioso nessa troca singela de experiências.
Ali, exatamente ali na Escola Parque onde um dia participei de minha primeira oficina de teatro. Do outro lado do rio da memória outras águas correram no que diz respeito aos sentimentos e às relações humanas propostas por essa peça. Qual mesmo o tamanho do palco? E de qual palco queremos falar? O palco é o mundo, a cidade ou tão somente o peito, cujas batidas os anjos ouvem e compreendem. O palco é a vida tão longa e tão curta das linhas de uma carta ou das linhas das palmas das mãos; destinos, desencontros, sonhos e afetos.
Esse olho da fechadura pelo qual passamos a observar o concreto da cidade à nossa volta aos poucos vai se transformando na boca de um vulcão a ponto de explodir a qualquer momento. O concreto se rompe e o humano reaparece. O cortejo segue, adentramos uma casa e a vida de seus personagens, agora, dor e separação. Somos testemunhas, somos os amigos mais próximos, somos cúmplices, talvez porque o grande espelho ali naquele espaço seja unicamente a porta de entrada. O chá de hortelã com alecrim vem em boa hora em meio a tantos desencontros nessa ladeira de melancolia, desejo e solidão. Quem sabe apenas estejamos procurando reencontrar o útero seguro da existência como a moça ansiosa que procura a mãe com uma mala recheada de cartas. A pele da alma são as nossas memórias...
De volta ao ônibus, envolvido por tantas sensações percebo que ao meu lado há um papel colado na janela com algo escrito. Aliás, há papéis colados por todo o interior do ônibus. Lá no início da jornada o motorista havia nos pedido para escrevermos num papel a resposta a uma pergunta: “O que levaríamos conosco se aquela fosse a nossa última viagem?”. Deparei-me, portanto, com a resposta de alguém, outro viajante, agora transformada em recado para mim: “Felicidade”.
Sigo o restante da viagem brindado por essa mensagem, e mais feliz ainda por ter a certeza de que não será a última.
Os anjos cantam! Saio do labirinto revigorado.
Levo para casa os versos de uma linda canção na alma, no coração e na vida.
Sim, ando vendo anjos ultimamente... Bom sinal!

Adeilton Lima
PS: Agora, ouça: http://www.youtube.com/watch?v=y-QZg_VUeSg

5 comentários:

Maria Carolina Machado disse...

Adeilton!

Que seja doce, sempre!

Maria Carolina Machado
(Teatro do Concreto)

Nirton Venancio disse...

Adeilton, li e reli suas asas da memória. As imagens são tantas, os reflexos nos olhos de quem lê, a pulsação no coração de quem conhece essa cidade e seus anjos, sua alegoria de mutilados. Cheguei à Brasília no ano em que você se encontrou com Wim Wenders e sua trapezista. E de lá pra cá o futuro não é mais como antigamente. Resta a poesia, meu caro, resta a poesia.

paulo kauim disse...

Adeilton, fiquei comovido

com a pele de suas memórias


dionino é um deus que vem do entrangeiro

seu ditirambo já rodava por
paisagens distintas

desejo esse concreto
na medula


axé


o texto tá supimpa


axé

jorge amancio disse...

Andei nas asas desse ônibus do desejo.
Apaixonante
um axéBraço
jorge amancio

Silvia Paes disse...

Adeilton, como não misturar nossas memórias, fantasias num ônibus que nos leva a tantos lugares, aptos a ouvirmos tantas histórias que também são nossas?

Tem razão: o sentido das coisas e das pessoas é o que nos mantém vivos e queremos sempre, quanto atores do Concreto, fazer sentido em cada viagem que embarcamos.

Foi muito bom te ver naquele coreto.

Foi muito bom ler seu relato.

Te respeito e admiro muito.

Beijos memoráveis!

Silvia Paes
(Atriz do Teatro do Concreto).