quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O Teatro Nu


Há teatros e teatros.
De volta a Brasília, um espetáculo de sublime importância, sucesso em 2007. Forte, sensível e belo. Um texto nu e com uma força poética arrasadora, e, sem qualquer exagero, expondo questões cuja profundidade não deixará ileso quem se aventure a ouvi-lo e assisti-lo. Maestria, humanismo, profissionalismo e competência é o que se testemunhará nesse trabalho que retorna em boa hora aos palcos brasilienses.  Dessa vez, no Festival Mulher em Cena, na sala Martins Pena.
Um espetáculo fundamental e necessário. Oportunidade rara!
Sim, você acertou...
Estou falando de A Alma Imoral, encenado por Clarice Niskier sob a supervisão do diretor Amir Hadad, com texto do rabino Nilton Bonder.
O ‘velho’ Grotowski falava dos atores santos e dos atores cortesãos (uma praga hoje em dia). De um teatro que se propõe à reflexão e à investigação do próprio trabalho do ator, do homem e dos mistérios da existência, por um lado, e de um teatro vazio, superficial, mercantilista e mascarado (no sentido negativo e pernicioso do termo), por outro, equivalente ao que hoje podemos definir como “teatro caça-níquel”. Da mesma forma, no entanto, há públicos e públicos para este ou para aquele teatro. Busque-se, portanto, o que cada um julgar merecer.
O fenômeno artístico/teatral se define mesmo é no mágico encontro entre ator e espectador, principalmente quando através dessa experiência se manifesta o sentido do sagrado. Talvez esteja aqui o grande mérito do trabalho de Clarice Niskier. Daí a grandeza e simplicidade de A Alma Imoral, daí sua importância e necessidade para o teatro, seus fazedores e seu público (ou pelo menos para uma parcela do público que vai ao teatro). A atriz ao pisar sobre o palco reverencia esse ofício milenar e deixa clara a consciência do contato com a dimensão do sagrado. Nesse caminho, optou pelo formato narrativo e também do diálogo com o público, o que, de certa forma, nos aproxima e familiariza com as parábolas e passagens bíblicas do texto. Não estamos necessariamente diante de personagens, mas de situações e conceitos constantemente repensados. Aliás, a fronteira entre a atriz e essas mesmas situações/personagens é muito tênue, e seu domínio é visível. Uma pequena aula de como bem dizer um texto em cena, um texto difícil, profundo, no entanto, tornado leve e saboroso pelo trabalho de Clarice. Vale procurar o livro!
 A Alma Imoral é mais uma prova de que teatro não se embala em isopor, em rótulos conceituais da pseudo-transgressão, que se apropria de temáticas da moda sob o disfarce discursivo da quebra de preconceitos e de padrões comportamentais, geralmente apelando ao velho clichê de corpos despidos na cena (grande novidade!). Um teatro no mínimo afetado e preguiçoso que pega carona em temas sérios, esvaziando-os, porém, só para encher o... “cofrinho”... Mas para usar uma expressão do mundo fashion, é apenas uma tendência, que vai e volta num movimento, digamos, masturbatório...
Não. Clarice Niskier não desnuda em vão o seu corpo. O sensacionalismo passa longe desse tablado. A triz não usa nenhum pretexto da moda para ficar nua no palco. A nudez aqui é apenas metáfora que se abre para o desnudamento da alma, cuja roupagem, assim consideremos, passa a ser a discussão em torno dos conceitos de tradição e traição, seja do ponto de vista filosófico, político, religioso ou mesmo artístico, sem qualquer sectarismo. Eis o sentido de um teatro verdadeiramente transgressor e revolucionário.
Em tempo, há espetáculos que podem até lotar maracanãs, porém, continuarão vazios. Porque “ausentes de si mesmos” como diz uma passagem do texto de Bonder numa reflexão sobre o conceito ou conceitos de solidão. Certas igrejas também lotam estádios, ludibriam a boa fé das pessoas e fazem um ‘teatro” de muito mau gosto. Só muda o palco... Dinheirinho fácil...
Clarice Niskier lota por outros méritos. Competência artística e postura ética.
Diante do teatro disfarçado de determinadas tendências religiosas e/ou do “teatrinho malhação” que frequentemente se vêem em cartaz em certos palcos, assistir uma ou várias vezes ao espetáculo A Alma Imoral, é ter a certeza de que você sairá do teatro bem mais leve... Fazer um mergulho na alma às vezes pode ser uma experiência dolorosa e/ou prazerosa, porém necessária, principalmente se estivermos diante de uma grandiosa obra de arte. A Alma Imoral é um espetáculo para ‘se ter à cabeceira’.
Que assim seja sob as bençãos verdadeiras dos deuses budistas, nagôs, muçulmanos, indígenas, protestantes, católicos, judaicos e, claro, teatrais! Evoé! 
Adeilton Lima


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