sábado, 4 de setembro de 2010

Cena Contemporânea 2010 - In on It – Teatro Caleidoscópico


Enrique Diaz é seguramente um dos melhores diretores da cena atual no Brasil. Digo atual porque usar a expressão “contemporânea” seria restringir demais seu trabalho a um conceito bastante questionável e limitador. Teatro é bom quando bom! Óbvio, não?! Aliás, ele próprio, através desse espetáculo, digo, peça de teatro, como se referem jocosamente seus atores/personagens/atores/autores/personagens, brinca com os tais conceitos e clichês do teatro atual. Metateatro da melhor!  A propósito, com essa montagem do excelente texto de Daniel Maclvor, Enrique Diaz coloca às avessas todas as dimensões do teatro, algo que também se pôde verificar nessa edição do Cena no maravilhoso espetáculo Neva, dos Chilenos da Cia Teatro En El Blanco e no inesquecível Abracadabra, de  Luiz Paëtow. Uma feliz coincidência. Aliás, apesar de algumas apostas inexplicáveis como o cubano Não precisa Chorar e o espanhol El Jardin Del Mundo, a curadoria do Festival acabou acertando involuntariamente nessa proposta de espetáculos que desembrulham o próprio teatro e expõem suas vísceras possibilitando-nos entrar no seu útero, como aquele personagem da peça Till, do Grupo Galpão, numa espécie de parto ao contrário.
Se você não viu as duas apresentações de In on It que aconteceram no Festival Cena Contemporânea 2010, não perca essa aula de teatro que voltará à cidade nos dias 1, 2 e 3 de outubro no Teatro da Caixa. Será um sacrilégio perder.
Teatro é jogo e aqui o tabuleiro é a luz. Sobre ele as duas peças, os próprios atores. Um jogo de espelhos fantástico nos coloca dentro das engrenagens da dramaturgia, da direção, da composição, da interpretação. É como se o dramaturgo escrevesse ao mesmo tempo em que faz, experimenta, ou na real vive as situações, cujas dimensões de tempo e espaço se confundem ou se interpenetram de forma proposital. Tudo parece bem encaixado nesse caleidoscópio de palavras perfeito, inclusive quando inventa um falso final só para que nós espectadores lamentemos, até voltarmos a respirar aliviados ao sabermos que a peça não terminou ainda e, que bom, a brincadeira continua. A espiral de espelhos dará mais algumas voltas...
In on It é teatro feito com rigor e simplicidade, e o que é melhor, sem afetação. O complexo se torna simples e vice-versa, aparentemente, é claro. É tão bom que os próprios atores devem se lamentar quando termina, ou melhor, quando pára... Como aquele papo ou aquela brincadeira que vivemos com nossos melhores amigos. O público entra de imediato nesse jogo em que Emílio Mello e Fernando Eiras se divertem e se deliciam interpretando, invertendo e dissecando seus papéis.
In on It é teatro pra se ver várias vezes. O teatro em mim, eu no teatro! 
Deliciosamente por dentro!

Adeilton Lima

Um comentário:

Nirton Venancio disse...

Adeilton, não vi toda a programação do Cena, como gostaria. Do que vi, "In on it" foi o melhor, justamente pelas considerações que você faz. Teatro! E verei novamente. Gostei muito de "Neva". Ontem saí chateado com o sofrível "Galinha cega", por mais que as soluções cênicas sejam admiraveis - se são - e o texto bem resolvido - se é -, a peça afunda poço a dentro do palco na fraquissima da atriz colombiana.