terça-feira, 7 de setembro de 2010

Cena Contemporânea X Virada Cultural

“Palavras! Palavras! Palavras!”
A edição de 2010 do Festival Internacional de Teatro Cena Contemporânea terminou em alto estilo com a presença do Sérvio Goran Bregovic e sua Orquestra para Casamentos e Funerais. Muito legal! Além da programação musical de primeira, bons espetáculos como Till, do Galpão; In on It, de Enrique Diaz; Kabul, da Cia Amok; Abracadabra, de Luiz Päetow; A Carta do Anjo Louco, de Willian Lopes; Memória da Cana, da Cia Os Fofos; Entrepartidas, do Teatro do Concreto e Neva, dos chilenos do Teatro En El Blanco, só para citar os melhores de minha lista particular. É impossível ver tudo!
Essa edição fica marcada pela virada de página de Willian Lopes e seu Anjo Louco que literalmente colocou o teatro brasiliense nas alturas, sugerindo um maior cuidado e atenção da curadoria para a próxima edição em relação aos artistas locais. Merecemos mais espaço, melhores condições, melhores cachês etc. Não devemos nada a quem vem de fora, com todo o respeito! Mas creio que Guilherme Reis e sua equipe saberão rever alguns conceitos e fazer a próxima edição melhor ainda. Acredito que a crítica construtiva possa ser bem recebida e o intuito aqui é apenas contribuir, até porque os movimentos crescem e se solidificam é através do diálogo e não com o que apenas queremos ouvir.
Por outro lado, essa mesma edição acaba nos proporcionando algumas reflexões sobre a qualidade da cultura que queremos para nossa cidade, considerando a inoperância da máquina administrativa governamental, seja com eventos de grande porte, seja com projetos de formação técnica e também de público tão necessários e escassos nesse cerrado que é o nosso mundo!
Em mais um ato de desrespeito, o incompetente Secretário de Cultura, Silvestre Gorgulho, cuja lembrança já vai tarde mesmo que ele continue colado à cadeira, promoveu paralelamente ao Cena a pseudo Virada Cultural de Brasília, imitando a Virada paulista. Chamemos isso de “coincidência”, mas não percamos a oportunidade do aprendizado.
Qual seria a explicação para o fato de que no apagar das luzes de um governo pífio-tampão (no qual para se receber alguma merreca do FAC ou qualquer outro tipo de apoio da Secretaria de Cultura os artistas enfrentam um tremendo calvário) essa mesma Secretaria, via emendas parlamentares ou sei lá o quê, de repente apareça com três milhões de reais para encher os bolsos da indústria cultural do conhecido “jabá” nacional. E ainda tentando atropelar a excelente programação musical do Cena Contemporânea e as apresentações do teatro espanhol (Kabia) na sala Martins Pena. Deram um tiro no próprio pé... O Curioso é que nunca aparece dinheiro para reformar a parte interna das salas do teatro nacional, muito menos para as tão esperadas reformas do Cine Brasília e do Pólo de Cinema e Vídeo, mas para a formação de um verdadeiro curral ou virada do curral, de repente tem grana. 
O que nós queremos para a nossa cidade? Eventos como o Cena ou um curral em que a palavra cultura chafurda na lama da politicagem e do oportunismo?
Já passou da hora de fazermos essa reflexão. Já passou da hora dos artistas dessa cidade, das mais variadas vertentes e linguagens, se unirem no debate sobre a política cultural que desejamos e queremos ver implementada, seja lá quem for que venha a assumir o governo local, em 2011. Já passou da hora de nos organizarmos, aprendermos com os erros do passado, ouvirmos uns aos outros e crescermos juntos porque a arte quando dialoga é uma força bem maior! Já passou da hora de irmos além do cafezinho, da cervejinha e dos ‘tapinhas’ nas costas, às vezes repetindo ações questionáveis muito comuns àquelas políticas tacanhas que dizemos combater.

Adeilton Lima

2 comentários:

Geraldo Lima disse...

Eu não escreveria melhor. Parabéns pelo texto.

Bruna Seixas disse...

excelentes textos e críticas muito apropriadas, adeilton! que brasília possa em breve ter cenas contemporâneas durante o ano inteiro e uma virada cultural de qualidade!