terça-feira, 28 de setembro de 2010

Poesia

Quero teu olhar se derramando pela rua
Nessa festa
Que seja barulhenta a madrugada 
cheia de luas
Quero a tarde de vermelho
O mesmo verde dessas árvores virgens
O joão-de-barro que partiu
A Juriti saudosa
No raiar do dia
E quando novamente a noite chegar
Quero ficar aqui quietinho
Ouvindo a tua poesia


Adeilton Lima

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Minotauro



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Nesta milésima volta
Dentro do labirinto
Eu, minotauro,
Vou juntando minhas partes
Agora serenamente
Num ajuste de contas com o tempo
Amputado de frases óbvias e
Declarações dramáticas
Como um fio que me conduzisse
À minha própria forca
Sem a ajuda do carrasco...
Algo animalesco e humano
Bailará pendurado sob uma chuva de pétalas
Ele, o mais doce e cruel sentimento!

Adeilton Lima

sábado, 18 de setembro de 2010

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um Cão Andaluz


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A lâmina perfura o olho!
O cão lambe o líquido
Na cegueira da cratera
Do vulcão...
Agora um grande formigueiro
Na palma da mão aberta
Degolada sobre o gelo.
Luzes que tateiam
Em meio ao que restou dos cílios...
Erupção!

Adeilton Lima

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

OS IPÊS ESTÃO FLORIDOS – RUBEM ALVES

Thoureau, que amava muito a natureza, escreveu que se um homem resolver viver nas matas para gozar o mistério da vida selvagem será considerado pessoa estranha ou talvez louca. Se, ao contrário, se puser a cortar as árvores para transformá-las em dinheiro (muito embora vá deixando a desolação por onde passe), será tido como homem trabalhador e responsável. Lembro-me disso todas as manhãs, pois na minha caminhada para o trabalho passo por um ipê rosa florido. A beleza é tão grande que fico ali parado, olhando sua copa contra o céu azul. E imagino que os outros, encerrados em suas pequenas bolhas metálicas rodantes, em busca de um destino, devem imaginar que não funciono bem.
Gosto dos ipês de forma especial. Questão de afinidade. Alegram-se em fazer as coisas ao contrário. As outras árvores fazem o que é normal - abrem-se para o amor na primavera, quando o clima é ameno e o verão está prá chegar, com seu calor e chuvas. O ipê faz amor justo quando o inverno chega, e a sua copa florida é uma despudorada e triunfante exaltação do cio.
Conheci os ipês na minha infância, em Minas, os pastos queimados pela geada, a poeira subindo das estradas secas e, no meio dos campos, os ipês solitários, colorindo o inverno de alegria. O tempo era diferente, moroso como as vacas que voltam em fim de tarde. As coisas andavam ao ritmo da própria vida, nos seus giros naturais. Mas agora, de repente, esta árvore de outros espaços irrompe no meio do asfalto, interrompe o tempo urbano de semáforos, buzinas e ultrapassagens, e eu tenho de parar ante esta aparição do outro mundo. Como aconteceu com Moisés, que pastoreava os rebanhos do sogro, e viu um arbusto pegando fogo, sem se consumir. Ao se aproximar para ver melhor, ouviu uma voz que dizia: “Tira as sandálias dos teus pés, pois a terra em que pisas é santa”. Acho que não foi sarça ardente. Deve ter sido um ipê florido. De fato, algo arde, sem queimar, não na árvore, mas na alma. E concluo que o escritor sagrado estava certo. Também eu acho sacrilégio chegar perto e pisar as milhares de flores caídas, tão lindas, agonizantes, tendo já cumprido sua vocação de amor.
Mas sei que o espaço urbano pensa diferente. O que é milagre para alguns é canseira para a vassoura de outros. Melhor o cimento limpo que a copa colorida. Lembro-me de um pé de ipê, indefeso, com sua casca cortada a toda volta. Meses depois, estava morto, seco. Mas não importa. O ritual de amor no inverno espalhará sementes pela terra e a vida triunfará sobre a morte, o verde arrebentará o asfalto. A despeito de toda a nossa loucura, os ipês continuam fiéis à sua vocação de beleza, e nos esperarão tranqüilos. Ainda haverá de vir um tempo em que os homens e a natureza conviverão em harmonia.
Agora são os ipês rosa. Depois virão os amarelos. Por fim, os brancos.
Cada um dizendo uma coisa diferente. Três partes de uma brincadeira musical, que certamente teria sido composta por Vivaldi ou Mozart, se tivessem vivido aqui.
Primeiro movimento, “Ipê Rosa”, andante tranqüilo, como o coral de Bach que descreve as ovelhas pastando. Ouve-se o som rural do órgão.
Segundo movimento, “Ipê Amarelo”, rondo vivace, em que os metais, cores parecidas com as do ipê, fazem soar a exuberância da vida.
Terceiro movimento, “Ipê Branco”, moderato, em que os violoncelos falam de paz e esperança. Penso que os ipês são uma metáfora do que poderíamos ser. Seria bom se pudéssemos nos abrir para o amor no inverno...
Corra o risco de ser considerado louco: vá visitar os ipês. E diga-lhes que eles tornam o seu mundo mais belo. Eles nem o ouvirão e não responderão. Estão muito ocupados com o tempo de amar, que é tão curto. Quem sabe acontecerá com você o que aconteceu com Moisés, e sentirá que ali resplandece a glória divina... (Tempus Fugit, pág. 12).






sábado, 11 de setembro de 2010

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Iniciação ao Teatro Através da Poesia

O Teatro Nu


Há teatros e teatros.
De volta a Brasília, um espetáculo de sublime importância, sucesso em 2007. Forte, sensível e belo. Um texto nu e com uma força poética arrasadora, e, sem qualquer exagero, expondo questões cuja profundidade não deixará ileso quem se aventure a ouvi-lo e assisti-lo. Maestria, humanismo, profissionalismo e competência é o que se testemunhará nesse trabalho que retorna em boa hora aos palcos brasilienses.  Dessa vez, no Festival Mulher em Cena, na sala Martins Pena.
Um espetáculo fundamental e necessário. Oportunidade rara!
Sim, você acertou...
Estou falando de A Alma Imoral, encenado por Clarice Niskier sob a supervisão do diretor Amir Hadad, com texto do rabino Nilton Bonder.
O ‘velho’ Grotowski falava dos atores santos e dos atores cortesãos (uma praga hoje em dia). De um teatro que se propõe à reflexão e à investigação do próprio trabalho do ator, do homem e dos mistérios da existência, por um lado, e de um teatro vazio, superficial, mercantilista e mascarado (no sentido negativo e pernicioso do termo), por outro, equivalente ao que hoje podemos definir como “teatro caça-níquel”. Da mesma forma, no entanto, há públicos e públicos para este ou para aquele teatro. Busque-se, portanto, o que cada um julgar merecer.
O fenômeno artístico/teatral se define mesmo é no mágico encontro entre ator e espectador, principalmente quando através dessa experiência se manifesta o sentido do sagrado. Talvez esteja aqui o grande mérito do trabalho de Clarice Niskier. Daí a grandeza e simplicidade de A Alma Imoral, daí sua importância e necessidade para o teatro, seus fazedores e seu público (ou pelo menos para uma parcela do público que vai ao teatro). A atriz ao pisar sobre o palco reverencia esse ofício milenar e deixa clara a consciência do contato com a dimensão do sagrado. Nesse caminho, optou pelo formato narrativo e também do diálogo com o público, o que, de certa forma, nos aproxima e familiariza com as parábolas e passagens bíblicas do texto. Não estamos necessariamente diante de personagens, mas de situações e conceitos constantemente repensados. Aliás, a fronteira entre a atriz e essas mesmas situações/personagens é muito tênue, e seu domínio é visível. Uma pequena aula de como bem dizer um texto em cena, um texto difícil, profundo, no entanto, tornado leve e saboroso pelo trabalho de Clarice. Vale procurar o livro!
 A Alma Imoral é mais uma prova de que teatro não se embala em isopor, em rótulos conceituais da pseudo-transgressão, que se apropria de temáticas da moda sob o disfarce discursivo da quebra de preconceitos e de padrões comportamentais, geralmente apelando ao velho clichê de corpos despidos na cena (grande novidade!). Um teatro no mínimo afetado e preguiçoso que pega carona em temas sérios, esvaziando-os, porém, só para encher o... “cofrinho”... Mas para usar uma expressão do mundo fashion, é apenas uma tendência, que vai e volta num movimento, digamos, masturbatório...
Não. Clarice Niskier não desnuda em vão o seu corpo. O sensacionalismo passa longe desse tablado. A triz não usa nenhum pretexto da moda para ficar nua no palco. A nudez aqui é apenas metáfora que se abre para o desnudamento da alma, cuja roupagem, assim consideremos, passa a ser a discussão em torno dos conceitos de tradição e traição, seja do ponto de vista filosófico, político, religioso ou mesmo artístico, sem qualquer sectarismo. Eis o sentido de um teatro verdadeiramente transgressor e revolucionário.
Em tempo, há espetáculos que podem até lotar maracanãs, porém, continuarão vazios. Porque “ausentes de si mesmos” como diz uma passagem do texto de Bonder numa reflexão sobre o conceito ou conceitos de solidão. Certas igrejas também lotam estádios, ludibriam a boa fé das pessoas e fazem um ‘teatro” de muito mau gosto. Só muda o palco... Dinheirinho fácil...
Clarice Niskier lota por outros méritos. Competência artística e postura ética.
Diante do teatro disfarçado de determinadas tendências religiosas e/ou do “teatrinho malhação” que frequentemente se vêem em cartaz em certos palcos, assistir uma ou várias vezes ao espetáculo A Alma Imoral, é ter a certeza de que você sairá do teatro bem mais leve... Fazer um mergulho na alma às vezes pode ser uma experiência dolorosa e/ou prazerosa, porém necessária, principalmente se estivermos diante de uma grandiosa obra de arte. A Alma Imoral é um espetáculo para ‘se ter à cabeceira’.
Que assim seja sob as bençãos verdadeiras dos deuses budistas, nagôs, muçulmanos, indígenas, protestantes, católicos, judaicos e, claro, teatrais! Evoé! 
Adeilton Lima


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Cena Contemporânea X Virada Cultural

“Palavras! Palavras! Palavras!”
A edição de 2010 do Festival Internacional de Teatro Cena Contemporânea terminou em alto estilo com a presença do Sérvio Goran Bregovic e sua Orquestra para Casamentos e Funerais. Muito legal! Além da programação musical de primeira, bons espetáculos como Till, do Galpão; In on It, de Enrique Diaz; Kabul, da Cia Amok; Abracadabra, de Luiz Päetow; A Carta do Anjo Louco, de Willian Lopes; Memória da Cana, da Cia Os Fofos; Entrepartidas, do Teatro do Concreto e Neva, dos chilenos do Teatro En El Blanco, só para citar os melhores de minha lista particular. É impossível ver tudo!
Essa edição fica marcada pela virada de página de Willian Lopes e seu Anjo Louco que literalmente colocou o teatro brasiliense nas alturas, sugerindo um maior cuidado e atenção da curadoria para a próxima edição em relação aos artistas locais. Merecemos mais espaço, melhores condições, melhores cachês etc. Não devemos nada a quem vem de fora, com todo o respeito! Mas creio que Guilherme Reis e sua equipe saberão rever alguns conceitos e fazer a próxima edição melhor ainda. Acredito que a crítica construtiva possa ser bem recebida e o intuito aqui é apenas contribuir, até porque os movimentos crescem e se solidificam é através do diálogo e não com o que apenas queremos ouvir.
Por outro lado, essa mesma edição acaba nos proporcionando algumas reflexões sobre a qualidade da cultura que queremos para nossa cidade, considerando a inoperância da máquina administrativa governamental, seja com eventos de grande porte, seja com projetos de formação técnica e também de público tão necessários e escassos nesse cerrado que é o nosso mundo!
Em mais um ato de desrespeito, o incompetente Secretário de Cultura, Silvestre Gorgulho, cuja lembrança já vai tarde mesmo que ele continue colado à cadeira, promoveu paralelamente ao Cena a pseudo Virada Cultural de Brasília, imitando a Virada paulista. Chamemos isso de “coincidência”, mas não percamos a oportunidade do aprendizado.
Qual seria a explicação para o fato de que no apagar das luzes de um governo pífio-tampão (no qual para se receber alguma merreca do FAC ou qualquer outro tipo de apoio da Secretaria de Cultura os artistas enfrentam um tremendo calvário) essa mesma Secretaria, via emendas parlamentares ou sei lá o quê, de repente apareça com três milhões de reais para encher os bolsos da indústria cultural do conhecido “jabá” nacional. E ainda tentando atropelar a excelente programação musical do Cena Contemporânea e as apresentações do teatro espanhol (Kabia) na sala Martins Pena. Deram um tiro no próprio pé... O Curioso é que nunca aparece dinheiro para reformar a parte interna das salas do teatro nacional, muito menos para as tão esperadas reformas do Cine Brasília e do Pólo de Cinema e Vídeo, mas para a formação de um verdadeiro curral ou virada do curral, de repente tem grana. 
O que nós queremos para a nossa cidade? Eventos como o Cena ou um curral em que a palavra cultura chafurda na lama da politicagem e do oportunismo?
Já passou da hora de fazermos essa reflexão. Já passou da hora dos artistas dessa cidade, das mais variadas vertentes e linguagens, se unirem no debate sobre a política cultural que desejamos e queremos ver implementada, seja lá quem for que venha a assumir o governo local, em 2011. Já passou da hora de nos organizarmos, aprendermos com os erros do passado, ouvirmos uns aos outros e crescermos juntos porque a arte quando dialoga é uma força bem maior! Já passou da hora de irmos além do cafezinho, da cervejinha e dos ‘tapinhas’ nas costas, às vezes repetindo ações questionáveis muito comuns àquelas políticas tacanhas que dizemos combater.

Adeilton Lima

sábado, 4 de setembro de 2010

Cena Contemporânea 2010 - In on It – Teatro Caleidoscópico


Enrique Diaz é seguramente um dos melhores diretores da cena atual no Brasil. Digo atual porque usar a expressão “contemporânea” seria restringir demais seu trabalho a um conceito bastante questionável e limitador. Teatro é bom quando bom! Óbvio, não?! Aliás, ele próprio, através desse espetáculo, digo, peça de teatro, como se referem jocosamente seus atores/personagens/atores/autores/personagens, brinca com os tais conceitos e clichês do teatro atual. Metateatro da melhor!  A propósito, com essa montagem do excelente texto de Daniel Maclvor, Enrique Diaz coloca às avessas todas as dimensões do teatro, algo que também se pôde verificar nessa edição do Cena no maravilhoso espetáculo Neva, dos Chilenos da Cia Teatro En El Blanco e no inesquecível Abracadabra, de  Luiz Paëtow. Uma feliz coincidência. Aliás, apesar de algumas apostas inexplicáveis como o cubano Não precisa Chorar e o espanhol El Jardin Del Mundo, a curadoria do Festival acabou acertando involuntariamente nessa proposta de espetáculos que desembrulham o próprio teatro e expõem suas vísceras possibilitando-nos entrar no seu útero, como aquele personagem da peça Till, do Grupo Galpão, numa espécie de parto ao contrário.
Se você não viu as duas apresentações de In on It que aconteceram no Festival Cena Contemporânea 2010, não perca essa aula de teatro que voltará à cidade nos dias 1, 2 e 3 de outubro no Teatro da Caixa. Será um sacrilégio perder.
Teatro é jogo e aqui o tabuleiro é a luz. Sobre ele as duas peças, os próprios atores. Um jogo de espelhos fantástico nos coloca dentro das engrenagens da dramaturgia, da direção, da composição, da interpretação. É como se o dramaturgo escrevesse ao mesmo tempo em que faz, experimenta, ou na real vive as situações, cujas dimensões de tempo e espaço se confundem ou se interpenetram de forma proposital. Tudo parece bem encaixado nesse caleidoscópio de palavras perfeito, inclusive quando inventa um falso final só para que nós espectadores lamentemos, até voltarmos a respirar aliviados ao sabermos que a peça não terminou ainda e, que bom, a brincadeira continua. A espiral de espelhos dará mais algumas voltas...
In on It é teatro feito com rigor e simplicidade, e o que é melhor, sem afetação. O complexo se torna simples e vice-versa, aparentemente, é claro. É tão bom que os próprios atores devem se lamentar quando termina, ou melhor, quando pára... Como aquele papo ou aquela brincadeira que vivemos com nossos melhores amigos. O público entra de imediato nesse jogo em que Emílio Mello e Fernando Eiras se divertem e se deliciam interpretando, invertendo e dissecando seus papéis.
In on It é teatro pra se ver várias vezes. O teatro em mim, eu no teatro! 
Deliciosamente por dentro!

Adeilton Lima

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Cena Contemporânea 2010 - Teatro do Concreto – Entrepartidas nas Asas do Desejo

Uma das memórias mais belas de Brasília que guardo é a de quando saí de casa para assistir a Asas do Desejo, de Wim Wenders, lá pelos idos de 87 ou 88, no Cine Brasília. Refiro-me evidentemente a uma outra cidade, já antiga, mesmo com seus cinqüenta anos. Sim, aquele cinema cujo valor sentimental é tão caro para muitos de nós que por lá tantas vezes passamos e que hoje está jogado às traças pela incompetência da politicagem que se instalou no Distrito Federal há alguns anos. Naquele filme, anjos descem dos céus e passam a acompanhar a vida, histórias e sonhos dos seres humanos, lêem seus pensamentos e tentam confortá-los de seus sofrimentos e adversidades. Lá pelas tantas, um deles se apaixona por uma mulher, não por acaso, uma artista, uma trapezista...
Neste trapézio da vida, embarco num início de noite na rodoviária do Plano Piloto, um dos maiores símbolos de apartheid social do mundo, em um micro-ônibus rumo ao desconhecido, numa excursão teatral e humana que não sei bem onde vai dar em meio a esse labirinto de cimento e ferro no qual vivemos. Entrepartidas, espetáculo itinerante da Cia Teatro do Concreto, me transforma, involuntariamente, em um anjo do bem e do mal, um passageiro nesse intervalo de tempo que se abre à minha frente. Saio do cinema para a vida e para o teatro. A partir dali, irei acompanhar os destinos de personagens anônimos tão próximos de nossa realidade nua e crua, como aqueles seres abandonados pela sorte que perambulam pela rodoviária, dormem no chão frio, ou que se drogam. Figuras que jamais tiveram a oportunidade de ver a 'cor' dos carpetes sujos e/ou das poltronas desbotadas das salas do Teatro Nacional logo ali ao lado; ou mesmo sequer sabem de sua existência numa espécie de relação recíproca de abandono.
O espetáculo não tem objetivamente nenhum propósito saudosista e especifico sobre a cidade, até porque é atemporal, mas confesso que logo de saída, ao ouvir uma música da Legião Urbana e depois passar em frente à Escola Parque e ao Espaço Cultural 508, foi para mim particularmente emocionante. De qualquer forma, cada um vai costurando sua colcha de retalhos com a bagagem de vida que traz nos ombros, como os vários personagens que vão surgindo pelo caminho. O que acontece em seguida é um diálogo quase silencioso nessa troca singela de experiências.
Ali, exatamente ali na Escola Parque onde um dia participei de minha primeira oficina de teatro. Do outro lado do rio da memória outras águas correram no que diz respeito aos sentimentos e às relações humanas propostas por essa peça. Qual mesmo o tamanho do palco? E de qual palco queremos falar? O palco é o mundo, a cidade ou tão somente o peito, cujas batidas os anjos ouvem e compreendem. O palco é a vida tão longa e tão curta das linhas de uma carta ou das linhas das palmas das mãos; destinos, desencontros, sonhos e afetos.
Esse olho da fechadura pelo qual passamos a observar o concreto da cidade à nossa volta aos poucos vai se transformando na boca de um vulcão a ponto de explodir a qualquer momento. O concreto se rompe e o humano reaparece. O cortejo segue, adentramos uma casa e a vida de seus personagens, agora, dor e separação. Somos testemunhas, somos os amigos mais próximos, somos cúmplices, talvez porque o grande espelho ali naquele espaço seja unicamente a porta de entrada. O chá de hortelã com alecrim vem em boa hora em meio a tantos desencontros nessa ladeira de melancolia, desejo e solidão. Quem sabe apenas estejamos procurando reencontrar o útero seguro da existência como a moça ansiosa que procura a mãe com uma mala recheada de cartas. A pele da alma são as nossas memórias...
De volta ao ônibus, envolvido por tantas sensações percebo que ao meu lado há um papel colado na janela com algo escrito. Aliás, há papéis colados por todo o interior do ônibus. Lá no início da jornada o motorista havia nos pedido para escrevermos num papel a resposta a uma pergunta: “O que levaríamos conosco se aquela fosse a nossa última viagem?”. Deparei-me, portanto, com a resposta de alguém, outro viajante, agora transformada em recado para mim: “Felicidade”.
Sigo o restante da viagem brindado por essa mensagem, e mais feliz ainda por ter a certeza de que não será a última.
Os anjos cantam! Saio do labirinto revigorado.
Levo para casa os versos de uma linda canção na alma, no coração e na vida.
Sim, ando vendo anjos ultimamente... Bom sinal!

Adeilton Lima
PS: Agora, ouça: http://www.youtube.com/watch?v=y-QZg_VUeSg