quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Mensagem

            Venho de longe. Habito uma região labiríntica que só agora começo a desvendar. Falo-te através de uma fresta, talvez uma porta, quem sabe, a saída...           
            Meu cicerone sucumbiu. Apenas o instinto me move. Sobrevivo. Cambaleante, minha consciência mira os passos do tempo, enquanto as pernas afundam nas areias tempestuosas do deserto de uma ampulheta. A respiração, ofegante, captura ainda um pouco de oxigênio. Desespero-me. Atlas berra, grita, explode. Resisto à guerra...
            Súbito, vejo-me diante de minha própria imagem. Um espelho, talvez; no entanto não sei de que lado estou. Não sei se é realidade, miragem, pesadelo. A tempestade aumenta... Há um lago de água cristalina rodeado por fogo. Minha imagem faz-me um aceno, mas creio ter sido eu a acenar para ela. Flutuando sobre as águas, uma mulher envolta em véus diáfanos que se embriagam com o ritmo do vento. Seu corpo dança num ritual de magia e ancestralidade. Suas formas entregam-se ao encanto de uma música que parece vir do fundo do lago, como que produzida por alguma divindade. Grãos de areia deslizam pelo meu rosto. A dança evolui num frenesi de gestos enquanto a distância entre nós diminui. Já consigo ver seus cabelos longos, negros; seus olhos grandes, enigmáticos; sua boca e seu sorriso a ocultar segredos. Tento falar-lhe, mas ela se afasta. Aproximo-me um pouco mais e ela apenas sorri; tento tocar-lhe, mas já não está tão perto. Vai distanciando-se até transformar-se numa lembrança. Sobre as águas ficaram suas pegadas...
            Ergo-me. Começo assim a redigir esta mensagem. Dentro de uma garrafa será conduzida pelo vento e pelos grãos de areia deste deserto. Atravessará dimensões até cruzar novamente no tempo com o espectro radiante da dançarina que acompanha os carros do sol e se mostra ao delírio dos viajantes que exploram as profundezas da alma.

Adeilton Lima

Um comentário:

Karen Fontenele disse...

Sempre nos conduzindo ao êxtase das letras. Brilhante, sensacional. Mas o que há de novo? Não vejo, simplesmente me silencio diante do mestre.