segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Vanusa é o Cazuza da Vez!

Na velha arena romana ao virar o polegar para baixo o imperador e a sociedade liquidavam o gladiador que perdia a luta; ou ele era morto pelo adversário, ou era jogado às feras.
O meio artístico é uma arena cruel! E às vezes a punhalada vem pelas costas mesmo.
Já há algum tempo, desde que esqueceu a letra do hino nacional brasileiro, numa luta dolorosa para não sair de cena, a cantora Vanusa, que já esteve em evidência nos anos 70, e agora abandonada pelos próprios pares como um Simonal acusado de traição, vem sendo alvo de chacotas, reportagens maldosas e de uma execração pública que nos lembra a capa da revista Veja de 1989, quando Cazuza era exposto como um desgraçado que agonizava em praça pública por ser portador do vírus da Aids.
Recentemente, Vanusa voltou a esquecer e a confundir letras de músicas que muitas vezes interpretou ao longo de sua carreira. Virou piada na internet. Não estaria ela com problemas de saúde e/ou passando por dificuldades? Não estaria essa artista precisando de ajuda? É ética essa postura de uma parcela da imprensa, setores da mídia e até mesmo do meio artístico tirando o escalpo dessa mulher que, independente de gostos ou tendências musicais, teve lá o seu momento e deu sua contribuição a uma vertente da MPB? Por que esse escárnio em torno de Vanusa?
Claro. Vanusa é alvo daquela visão estúpida do “quanto pior, melhor”, “antes ela do que eu!”, etc. O mesmo escárnio que desafia o suicida a se jogar de um prédio. Um traço da nossa sociedade que “unida” canta o hino nacional tropeçando na letra antes dos jogos da seleção brasileira e depois esquece de novo... Voltando à violência cotidiana. Vanusa nada mais é que uma imagem no mesmo espelho dos que a execram. Ora, o desgraçado é sempre o outro... Ou seja, reflexo do preconceito e da hipocrisia, aquele que inevitavelmente une agora Vanusa e Cazuza na arena pública da crueldade e da falta de respeito, onde a desgraça do outro resulta em prazer como um espetáculo bisonho de um circo medieval.

Adeilton Lima

5 comentários:

SheilaCampos disse...

Nossa, Adeilton, amei seu texto!
Concordo inteiramente com sua opinião! Qual a razão de tantas pessoas sentirem um "prazer tão intenso" com os erros e tropeços de outrem?! Tamanha satisfação só pode convergir com uma mentalidade patologicamente competitiva, que se empenha em fazer crer que, para que um vença, outro necessariamente precisará cair!... Triste de nós que vivemos em um mundo assim - sem muitas vezes, sequer nos darmos conta disso.

João Antonio disse...

De pleno acordo!!! É triste quando um país esquece seu passado. Não por nós, os velhinhos, mas pelos que virão!!!! Conheci Vanusa em Uberaba (MG) onde me criei. Não interessa qual o problema que vive hoje, não merece essa atitude!!!

Nirton Venancio disse...

Caro, desde o episódio do Hino Nacional que acho uma grande sacanagem o que estão fazendo com a Vanusa. Vejo aí dois grandes "culpados" desse apedrejamento em praça pública por ela adulterar a letra do cântico sacro do País: a mídia, que como abutre precisa da desgraça alheia para sobreviver e jogar a podridão à platéia, e esta que é o outro lado que entra em êxtase quando o Imperador baixa o dedo autorizando jogar os perdedores às feras, como você bem comparou. Não compactuo com as risadinhas no Youtube com os videos da Vanusa nem de nenhum outro episódio que explore as fraquezas do próximo ou distante, a agonia dos mais fracos, a solidão de quem foi esquecido. Nem de pegadinha me delicio. Esse comportamento de explorar tais situações, em vez de compreendê-las, demonstra uma equivocada, arrogante, pretenciosa postura de perfeição - o que nenhum ser humano tem. Todos estamos vunelráveis a deslizes e fraquezas, e precisamos em tais momentos de companhia, apoio, e não de chacotas.

Nirton Venancio disse...

errei! olha como somos "vuLneráveis"...

marcio disse...

Parabéns, Adê, pela iniciativa. Eu te confesso que não consegui conter o meu riso constrangido quando vi a cena, mas imediatamente eu me coloquei no lugar dela e não gostei da sensação.
Esquecer letra é uma coisa que acontece o tempo todo, eu cansei de estar em eventos importantes e esquecer a letra, mas, se não veio a primeira estrofe você manda a segunda, e a coisa passa quase despercebida.
Tomara que o show business não tenha privado a Vanusa de colecionar amigos sinceros que a ajudem a segurar essa barra e seguir em frente, sem cicatrizes desse mico.
Abração, meu querido.