terça-feira, 31 de agosto de 2010

Festival Cena Contemporânea 2010. Abracadabra – Um Anjo Louco na Escuridão














Que sou um crítico pública e abertamente de alguns critérios (ou da ausência de) da curadoria do Cena Contemporânea não é nenhuma novidade. Porém, a edição de 2010, nesta primeira semana e já início da segunda, supera em muito as edições anteriores no quesito qualidade. Espetáculos como Neva, da Cia Teatro en el Blanco (Chile); dos espanhóis do Kabia, com Dizer Chuva e que Chova; Kabul, do Amok (RJ) e Till, do sempre competente Galpão (BH) são exemplos que renderiam boas análises e reflexões sobre o teatro que se faz hoje em alguns lugares. Já a discussão sobre o que é ou não contemporâneo é sempre relativa. Afinal, teatro não se faz com rótulos ou código de barras...  Ou, pelo menos, não deveria...
Além dos citados espetáculos, outros dois, Abracadabra (SP) e A Carta de um Anjo Louco (DF), são ótimos exemplos de propostas ousadas. A Carta... Por sinal, dilacera de vez o status do teatro brasiliense como ‘primo pobre’ no festival ou como mero coadjuvante (sempre questionei o processo seletivo nessa categoria local, enfim), que tem também nesta edição os competentes Teatro do Concreto, Esquadrão da Vida e Michelly Scanzi e Paulo Russo (estes últimos com Ilhar). 
Não há assunto nas rodinhas teatrais mundo afora para dominar mais as discussões sobre teatro atualmente do que o clichê em que se transformou o conceito de “pós-dramático” proposto pelo teórico Hans-Thies-Leman (daqui a alguns dias, a UnB se transformará numa espécie de Meca do teatro onde Leman fará uma palestra, serão muitos os peregrinos ávidos de “pós-dramaticidade”...). E ele não apresenta tal conceito como mais um rótulo, afinal as fronteiras estéticas contemporâneas são bastante tênues, apenas chama a atenção para um fenômeno histórico e estético. Mas como já testemunhamos com o Teatro Pobre, de Jerzy Grotowski ou com a Antropologia Teatral, de Eugenio Barba, só para ficarmos em tendências mais recentes, tudo vira moda e se transforma numa espécie de “shopping de pesquisa teatral”, onde, na verdade, o que menos interessa é a pesquisa propriamente dita, mas tão somente o rótulo: “Eu faço teatro antropológico”, ou, “eu faço teatro pós-dramático”, etc, e blá-blá-blá.
Abracadabra, de Luiz Päetow, de São Paulo, a princípio, pode parecer pretensioso com sua proposta radical de uma espécie de anti-teatro, porém, ao nos aquietarmos na confortável poltrona do teatro, essa impressão logo se dissipa, principalmente, se nos permitirmos a sair do nosso mundinho racional, lógico, matemático e tão recheado de preconceitos. Esse mundo que não suporta uma experiência que tão somente sugere/aconselha outra percepção da vida e também do teatro. Algo similar ao que A Carta de Um Anjo Louco, de William Lopes, de Brasília, também propõe: Mudemos nossa perspectiva! Procuremos outros ângulos de análise, de visão, nada precisa ser necessariamente aristotélico, linear, cartesiano, global ou hollywoodiano, desafiemos as leis da gravidade e da mídia... E saiamos dos modismos e dos clichês sem ter a pretensão de estar “inventando a roda”. Há um mundo lá fora que precisa ser repensado... O grande barato desses dois trabalhos é que os mesmos simplesmente se apresentam como experiências de linguagem sem a pretensão de adotar, se filiar ou inventar nada. Aliás, pertencem eles ao grupo dos inquietos e não acomodados que a história do teatro e da arte de forma geral conhece bem... Talvez por isso mesmo resultem suas propostas tão interessantes. Uma poética cênica feita às avessas no ar ou na escuridão...
Abracadabra é uma grande jogada, um belo drible no público que procura o velho teatro digestivo, com sua luzinha no lugar, com seus atores interpretando personagens seguindo as velhas cartilhas, com uma historinha com início, meio e fim, e uma cortina ao final descendo ou se fechando para aplausos e gritinhos esfuziantes da platéia. Abracadabra tira um grande sarro de nós, espectadores, do início ao fim (?) do espetáculo.
Ao entrar na sala, cada espectador recebe uma lanterna (tive a sorte em não receber, pois pude ficar de olhos fechados) para, digamos, acompanhar o espetáculo. Em meio a uma “trilha sonora” composta de tosses, pigarros, conversas mal-educadas e batidas do assento das cadeiras, de pessoas saindo sem cuidado algum incomodadas com aquele “absurdo”, o ator narra um texto recheado de sonoridades, jogos de palavras, trocadilhos e desconstruções discursivas, numa crítica ácida aos valores políticos, sociais, existenciais e estéticos nos quais vivemos. Padrões vêm abaixo. Ora, o primeiro grande drible é que de imediato a pessoa acenderá aquela lanterna (da mesma forma como freqüentemente ligam e verificam num gesto ridículo seus celulares ao longo de uma peça). Torna-se inquietante não ver nada... Uma sensação claustrofóbica de prisão. No entanto, a proposta é exatamente essa: Ouvir... Que tal não ligar a lanterna? Ouvir e imaginar, se permitir a isso apenas. Ao invés da imagem, o imaginário! Da mesma forma como o burocrata que se despe (ou se joga, ou é jogado das alturas) na Carta de um Anjo Louco. Despir (se)! Essa é palavra na ponte entre esses dois espetáculos. Despir-se e transformar-se!
Esse tipo de espetáculo, Abracadabra, em que a luz dispersa a atenção, ela, a luz, é totalmente desnecessária, como uma coadjuvante sem qualquer importância na construção narrativa e não-narrativa. (Anti) Narrativa essa que se elabora nos níveis sinestésico, lingüístico, semântico e imagético de nossa percepção.
A única contradição da proposta talvez seja a de que em determinado momento o público é avisado pela produção que o espetáculo já terminou... Não seria melhor vencê-lo pelo cansaço com o ator dizendo o texto até que a última pessoa se levantasse e saísse? Ora, se nos lançamos a um desafio radical, temos que encarar as conseqüências, não? Avisar talvez seja um caminho mais fácil.
Nos momentos digamos finais, o texto indaga sobre se quem fez os primeiros teatros não pensou na possibilidade tão somente da audição... Por que a necessidade do “ser-vício” da luz? Talvez porque antes quando as pessoas iam a um teatro era para ouvir mesmo...
Estamos dentro de uma caverna platônica e, desesperadamente, esperamos pelo resgate da luz exterior, cuja razão palpável e palatável da vida social venha nos restituir a glória.
No entanto, numa espécie de escavação profunda, o diamante mais precioso pode ser a experiência de encontrarmos, suportarmos e compreendermos nossa própria escuridão.
Abracadabra! Diria, talvez, O Anjo Louco em sua carta!
O melhor é encarar sem medo essa espécie de ensaio sobre a escuridão num vôo sem asas ao encontro da luz! A palavra mágica passa a ser acordar!
Rica experiência!

Adeilton Lima

5 comentários:

hetera disse...

fui ver Abracadabra e, também de olhos fechados, testemunhei a falta de educação da platéia (a brasiliense só?).
era domingo e flagrei a produção avisando sobre o fim do espetáculo, não sem antes reclamar que só foram liberados pelo último espectador à meia-noite do sábado anterior.
pra algumas coisas é preciso ter coragem e desejo de experimentação, coisas raras num mundo onde as pessoas acham que controlam o que consomem... e tem o sono pesado dos drogados...
bom mesmo é cruzar na rua com aqueles que estão acordados!

beijos, querido.

Jane Malaquias disse...

Mais que um ensaio sobre a escuridão é sobre o reservatório de imagens que carregamos dentro da gente e podemos evocar com a linguagem. Os sons vibram como a luz vibra, ainda não se sabe se a luz é matéria ou onda e somente uma mínima parte das radiações luminosas são visiveis ao olho humano, o som pode ser entendido poeticamente como luz negra.

Janaina disse...

Pena não ter conseguido entrar ontem, foram 2 tentativas frustadas numa só noite, mas fico feliz do público estar lotando os teatros da cidade. Que fosse assim o ano todo! Mas queria fazer um adicional para o Louco pois concordo que devemos mudar nossos ângulos e colocar as cartas na mesa. Temos que nos apropriar de espaços não tradicionais, propor narrativas outras que aproximem da cidade e do público. Não vejo isso como modismo mas como novas maneiras de se fazer teatro. a arte sente a si mesma , assim como a vida o faz. Viva as novas linguagens!

Luiz Päetow disse...

Adeilton Lima

muitíssimo obrigado pela sua pressência na segundafeira e por esta poderosa reflexão sobre o carvão betuminosso sem anatomia nem antinomia da (suposta) vida contemporânea

aleluia
aleluta

graças aos encontros assim conseguimos unir forças e resistir
suportar nosso caminho no aumentativo é caminhão de abracadabras
não desaparecer
mas sim desapare-ser

felizmente no sábado o fluxo-fonema seguiu naturalmente

mas no domingo a máquina-ccbb decidiu imprimir um ponto final e aí gerou ainda mais irritação na plateia que enxergou nessa luta-de-braços a possível ação dramática que aliviasse -feito catarse-

no entanto não há catarse
haja o que houver
no máximo há um arremate

pois a questão não é testar o limite de permanência
a questão é a mesma que você desvendou sobre a luz
é tudo desnecessário
pois ao sair do teatro na verdade estaremos voltando ao teatro

somente ao iluminarmos nosso teatro interno -descortinando a nossa cuca- o externo será escurecido e assim transformado

pôxa espero ter a oportunidade de também conhecer o trabalho do William Lopes nesse fantástico cruzamento de lucidez

Hetera
olá
sim
vamos batalhar para acordar tudo&todos

Jane Malaquias
olá
perfeita essa sua tradução
a própria fonte

desejo uma maratona de abracadabras a (desfazer) todos nós

)*(

Margaridas/Laura disse...

gentem fiquei lá e mais lá já lá no fundo da escuridão quando uma voz disse o espetáculo acabou. Como assim?
Minha filha insistiu para irmos e não consegui ficar até o fim, o que aconteceu? Fui na segunda.. estou até hoje com aquelas sensações anti-teatrísticas, me senti numa semana de 22, com muitos protestos e reclamações e essa provocação - que coragem, fico pensando também no que virá desse artista porque chegar até aí e continuar um desafio!!