domingo, 4 de julho de 2010

A Poltrona

Era um casarão antigo, hoje abandonado. Vários os cômodos, que em tempos áureos, menos para os escravos, abrigaram os valores de uma época. O ouro secou nas mãos insanas dos senhores. A decadência apoderou-se do que restou, tornou a terra infértil, matou, expulsou os que sobreviveram.

Num canto qualquer daquele deserto, repousa a poltrona. Sem cor, sem paz, sem alma, a purgar o passado. Apenas o vento, que não respeita o pudor das frestas, vem tocar-lhe levemente a pele, repleta de úlceras incuráveis. Agora débil, senil, aguarda o juízo final.

Já fora trono. Sobre si repousaram mãos poderosas, com anéis brilhantes e lenços finos. Muitas, as ordens ouvidas. Vários foram os destinos traçados. Seus braços um dia embalaram o herdeiro, precocemente tragado pela morte. Ali, onde hoje vivem traças, o sorriso e a dor se encontraram. O prazer refletido em dor nos olhos de uma escrava. Noites e noites em meio à fumaça do cachimbo, seu corpo foi violentado. O filho bastardo fora jogado à margem do mundo dos homens.

A poltrona está ali, esquálida. Seu corpo definha insepulto. Seu cetro apodreceu, seus dentes caíram, tudo ficou pálido. Quem poderia pensar que aquele móvel robusto fosse se transformar em algo tão monstruoso.

O último dia ainda estava nítido em sua memória. A porta abrira-se violentamente. Foi assim que chegou o aviso, num cavalo de patas imensas a açoitar o chão. As mãos trêmulas amassaram o papel, o peito explodia. Nunca aquela poltrona recebera um corpo tão pesado, apesar de familiar. Ali, exatamente ali, sentiu-se a respiração final. Porém, o começo de seu abandono. Sentia transformar-se em coisa, coisa velha pronta para ser jogada fora. Esqueceram-na, sozinha, despida, na escuridão. Não sobraram velas para o funeral, o que queimava vinha de dentro, uma febre forte estrangulando-lhe a alma.

Houve um dia em que quase sucumbira ao fogo. Paredes foram queimadas, telhas caíram. O ataque traquina dos moleques deixou-lhe algumas marcas. Apenas os fantasmas ouviram seus suplícios.

Certa vez presenciou algo terrível. Um escravo havia fugido. “Peguem-no!”, “açoitem-no!”. O chicote gritou a noite toda. O homem morreu no tronco. Naquele dia uma mão deslizou pelos seus braços num gesto de reafirmação de força e poder. Quem ousasse desafiar as esporas teria o mesmo destino. No entanto, o tempo não tem aliados. É um poço profundo para o qual todos migram. As botas que um dia pisaram forte, se arrastaram debilmente até cair. Aquela poltrona foi cúmplice e testemunha, berço e sepulcro.

Um dia o vinho manchou-lhe a pele. Foi uma grande festa, um belo casamento. O casamento da conveniência das terras, do poder. Mas morrera cedo a mulher no parto. Ouviram-se apenas os soluços dos grilos. No interior do casarão, agarrado numa parede, o cabresto permanecia impassível.

Aquela velha poltrona delira, esperando o golpe de misericórdia. As sombras que a rodeiam trazem ecos do passado. O tilintar das pratas e o luzir das jóias. Um tempo de glórias conquistadas sobre o suor e o sangue de negros. Não há mais o glamour das festas nem os perfumes refinados. Não há mais a voz das damas nem a cortesia dos senhores. Não há mais a corte, apenas a coceira infinita dos dias. Num canto qualquer daquele deserto, a poltrona jaz como um cadáver a repousar sobre si mesmo. De nada adiantaria esperar, tudo à sua volta respira escuridão. Vozes distantes eram ouvidas, vinham de um tempo que descascava, não como ferida que sara, mas como chaga crônica que não pára de sangrar.

A poltrona estava ali, condenada, depois de tantos anos de poder e glória. Nada mais lhe restava a não ser o abandono, a companhia dos ratos e a solidão dos séculos.

Adeilton Lima

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