sexta-feira, 30 de julho de 2010

Glu! Glub!

foto: nir elias, reuters
Sabe o que um peixinho ao avistar um outro disse? "Glub! Glub!" Ao que o outro de pronto respondeu: "Glub! Glub!". E o mar continuou sereno...


Adeilton Lima

quinta-feira, 29 de julho de 2010

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Um Tango

A flecha atingira-lhe o peito,
enquanto um resto débil de palavras
misturava-se ao vermelho das rosas
que segurava entre os dedos trêmulos...
O dia transformara-se em um tango,
porém sem desfecho dramático,
mas que escorreria pela noite adentro
talvez esperando que aquele encontro pudesse
"pelos Deuses! Pelos Deuses!" Se repetir!!!
Todavia, sem qualquer romantismo...
Que isso é coisa de quem uiva para a lua cheia
e ouve tangos em eletrolas antigas pelas madrugadas..

Adeilton Lima
 
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terça-feira, 27 de julho de 2010

O Lagarto

Armando F. de Souza (Blog Olhares)

Um rabo de lagarto deslizava sobre a pele do rosto. A ponta do rabo
perfurando o olho cru do dia como uma ressaca. Uma ruga enviesada a caminho
dos lábios dos quais um leve odor de dias passados saía aos poucos represado
pelos dentes. Das narinas, algo gelatinoso escorria como lavas de um vulcão
a ponto de explodir. Restos de pó e tabaco, um negrume de vida a cada
tentativa de entender as invasões do ar. A boca aberta esperando noites e
orgias, cavalos alados e mulheres nuas. Uma dose para além desse momento,
para além desse quarto cujas paredes vigiam as frestas do mundo lá fora. Na
testa, uma gota sonâmbula de suor espreitando as pálpebras agora
arregaladas. Arregaladas, sim, pela visão terrível do lagarto. Um parto
medonho com um choro surdo, uma banda talvez lá fora tocasse alguma coisa,
rumores de uma marcha fúnebre anunciando a sua partida. Os nós dos dedos, os
pulsos fechados, a contração sem fim. Não nasceria aquela noite sem
experimentar a crueldade do dia, do dia algoz e impiedoso, com seus veículos
barulhentos, com a sua luz medonha a trucidar a retina como uma britadeira
perfurando o crânio cego e frio da pedra.

Adeilton Lima

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Dádiva!

Doe-se! mas sem querer esperar nada em troca, troféu, choro, sorriso ou qualquer recompensa! Doe-se! A vida por si e um mundo um pouquinho melhor já serão grandes dádivas. Um simples gesto pode ser um grande poema!
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terça-feira, 20 de julho de 2010

Eróticos

O copo lambe
A boca da moça
Pelas bordas quentes
Um traço doce
E vermelho
Desnudado pelo vidro
Reflexo de tetas duras
Quando tocam o líquido.
Ouve-se um jazz!

Adeilton Lima

Eróticos

Espalhei-me sobre teu corpo
Como o fogo num matagal
Ajudado pelo vento
Suguei teus seios
Teus poros
Teu sangue
Tua saliva
Cada gota
Beijo
Boca
Nuca
Língua
e
Alma

Adeilton Lima

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Do Silêncio

O silêncio da concha
Que revela o mar é ninho
de pássaro dentro da alma
É a voz da água
Que brinca
E grita bem alto
Tirando fagulhas
Do silêncio da pedra

Adeilton Lima
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terça-feira, 13 de julho de 2010

Viagem à Lua

Fui à lua mergulhar no oceano das crateras
Vi Hera lapidando a face com sorrisos
Penteando a longa cabeleira
Tal qual uma pantera
(Ou seria uma sereia?)
Hipnotizando a noite
Com seu cântico suave.
Já tomado pelo sono dos prazeres
Vi que hidra há tempos me queria
E de repente me envolvia
Com suas línguas e desejos
Por sete noites ali eu ficaria
Por sete dias ali em amaria.
Já tão farto do cálice da lua
Parti ao romper do oitavo dia

Adeilton Lima
Foto: Vânia Maia

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Minerações

Há que se afinar o corpo até o último
sempre. Exercer-se como
instrumento capaz de receber a
poesia do mundo. Poesia suspensa
em rotação e translação. Movimentos
moderados alinhavando dias e
luares, estações e colheitas, minutos
e milênios, provisoriamente.

Há que se ter ouvido incapaz de
olvidar ruídos de asa e bússola que
arranham o silêncio com viagens. Ler
no vento notícia de aroma e sumo.
Pisar a terra sem sufocar a semente
grávida de árvore e fruto.

Há que se ter os carecimentos da terra
- sem luz e aquecida por estrela de
grandeza menor – onde eliminar
uma névoa é subtrair-se em aurora.

Há que se chorar com lágrimas
invisíveis como choram os peixes.
Nutrir-se de limo e lodo umedecidos
pelo próprio pranto. Nadar em
mágoas, repousar sob a sombra da
lua – cercar-se dessa fascinante farsa
do céu se mirando em espelho de
água e noite. Depois dormir, fechado
sobre si, como concha, sonhando
pérolas.

Há que se aprender do rio o ritmo.
Ao buscar o sal, seu curso não desfaz
paisagem, mas se refaz em paisagem.
Percorrendo o exato limite das
montanhas e planícies, o rio cumpre
a rota original esculpida pelo tempo,
pacientemente.

Há que se existir sem sede como a
chuva. Crina e cauda de nuvem em
relâmpago e galope, destilando
macios espinhos de cristais. Chicote
acariciando pétalas, pontuando
flores na superfície dos mares.
Desprender-se pautando o nada.
Enxaguar cansaços e entremear-se,
sem incômodo, nos poros da terra.
Regar raízes e outros mistérios
sigilosos do nascimento,
silenciosamente.

Há que se ser frágil o suficiente e
reconhecer-se inábil para inferir
emendas na lei que equilibra as
águas. Inábil para decretar outros
ministérios ao destino das
constelações. Inábil para escolher as
cores dos crepúsculos.

Há que se vicejar como fazem as
florestas. Unir-se em copas para
aniversariar com sombra o esforço
das raízes suportando tronco, galho,
fruto e flor, que tudo abraçam
desinteressadamente. Como as
árvores há que se receber a gota do
orvalho sem se molhar, preservando
o extrato da noite.

Há que se queimar em calor e luz
como faz o fogo. Chama
desenhando votivas sombras em
ouro e fumaça. Lume que arde
enquanto consome as causas.

Há que se escrever a vida em flauta e
vôo como cantam os pássaros.
Buscar na memória a lembrança e a
direção. Ocultar os rastros
percorridos para perder-se no
encontro e ninho. Decifrar o alfabeto
rabiscado nas linhas do vento,
gravado no fruto maduro,
embaraçado na pena trocada. Como
os pássaros, há que se escrever
enquanto é dia e para todos.

Há que se ter a discrição dos
minérios entretidos com os tons do
ar, da água, do fogo – e tão somente –
sem desconfiar fortunas. Ser na
terra o útero e o filho, sem sinais de
medo, nascimento, morte. E como
os minérios ignorar o até quando.

Há que se dormir como dormem as
noites. Aninhando, do poente ao
nascente, o mundo e seus pertences,
apenas para o repouso. Baixar as pálpebras –
asas que acordam sonhos. E sem se surpreender com
os enigmas da treva, dormir. Dormir
como dorme a noite: sem se assustar
com os pios inusitados que cortam
o escuro até aos fantasmas.

Há que se ter a paciência dos caramujos
visitando veredas e várzeas sem se
ferir. Vagar sem pressa, polindo com
prata e alma o percurso. Sem se
desviar do acaso, vestido de espiral
e compasso, passear desejos em fio
e luz, serenamente. Estar assim, sem
perdas e heranças. Ser sem volta.

Há que se morrer como morrem as
sempre-vivas. Escapar-se de si sem
furtar-se aos olhares alheios. Ser, a um
tempo, presença e ausência.

Sorvê-la como seiva que inaugura no
homem um destino vertical. Há que
se somar à natureza até o último
sempre.

Bartolomeu Campos Queirós (1992)

domingo, 4 de julho de 2010

A Poltrona

Era um casarão antigo, hoje abandonado. Vários os cômodos, que em tempos áureos, menos para os escravos, abrigaram os valores de uma época. O ouro secou nas mãos insanas dos senhores. A decadência apoderou-se do que restou, tornou a terra infértil, matou, expulsou os que sobreviveram.

Num canto qualquer daquele deserto, repousa a poltrona. Sem cor, sem paz, sem alma, a purgar o passado. Apenas o vento, que não respeita o pudor das frestas, vem tocar-lhe levemente a pele, repleta de úlceras incuráveis. Agora débil, senil, aguarda o juízo final.

Já fora trono. Sobre si repousaram mãos poderosas, com anéis brilhantes e lenços finos. Muitas, as ordens ouvidas. Vários foram os destinos traçados. Seus braços um dia embalaram o herdeiro, precocemente tragado pela morte. Ali, onde hoje vivem traças, o sorriso e a dor se encontraram. O prazer refletido em dor nos olhos de uma escrava. Noites e noites em meio à fumaça do cachimbo, seu corpo foi violentado. O filho bastardo fora jogado à margem do mundo dos homens.

A poltrona está ali, esquálida. Seu corpo definha insepulto. Seu cetro apodreceu, seus dentes caíram, tudo ficou pálido. Quem poderia pensar que aquele móvel robusto fosse se transformar em algo tão monstruoso.

O último dia ainda estava nítido em sua memória. A porta abrira-se violentamente. Foi assim que chegou o aviso, num cavalo de patas imensas a açoitar o chão. As mãos trêmulas amassaram o papel, o peito explodia. Nunca aquela poltrona recebera um corpo tão pesado, apesar de familiar. Ali, exatamente ali, sentiu-se a respiração final. Porém, o começo de seu abandono. Sentia transformar-se em coisa, coisa velha pronta para ser jogada fora. Esqueceram-na, sozinha, despida, na escuridão. Não sobraram velas para o funeral, o que queimava vinha de dentro, uma febre forte estrangulando-lhe a alma.

Houve um dia em que quase sucumbira ao fogo. Paredes foram queimadas, telhas caíram. O ataque traquina dos moleques deixou-lhe algumas marcas. Apenas os fantasmas ouviram seus suplícios.

Certa vez presenciou algo terrível. Um escravo havia fugido. “Peguem-no!”, “açoitem-no!”. O chicote gritou a noite toda. O homem morreu no tronco. Naquele dia uma mão deslizou pelos seus braços num gesto de reafirmação de força e poder. Quem ousasse desafiar as esporas teria o mesmo destino. No entanto, o tempo não tem aliados. É um poço profundo para o qual todos migram. As botas que um dia pisaram forte, se arrastaram debilmente até cair. Aquela poltrona foi cúmplice e testemunha, berço e sepulcro.

Um dia o vinho manchou-lhe a pele. Foi uma grande festa, um belo casamento. O casamento da conveniência das terras, do poder. Mas morrera cedo a mulher no parto. Ouviram-se apenas os soluços dos grilos. No interior do casarão, agarrado numa parede, o cabresto permanecia impassível.

Aquela velha poltrona delira, esperando o golpe de misericórdia. As sombras que a rodeiam trazem ecos do passado. O tilintar das pratas e o luzir das jóias. Um tempo de glórias conquistadas sobre o suor e o sangue de negros. Não há mais o glamour das festas nem os perfumes refinados. Não há mais a voz das damas nem a cortesia dos senhores. Não há mais a corte, apenas a coceira infinita dos dias. Num canto qualquer daquele deserto, a poltrona jaz como um cadáver a repousar sobre si mesmo. De nada adiantaria esperar, tudo à sua volta respira escuridão. Vozes distantes eram ouvidas, vinham de um tempo que descascava, não como ferida que sara, mas como chaga crônica que não pára de sangrar.

A poltrona estava ali, condenada, depois de tantos anos de poder e glória. Nada mais lhe restava a não ser o abandono, a companhia dos ratos e a solidão dos séculos.

Adeilton Lima

Folhas ao Vento...

No reino da poesia tudo é possível, folhas ao vento transformam-se em asas
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João-de-barro!

O João-de-barro é fruto da árvore... Na 'amadurescência' não cai, voaaaaaaa!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Comentários de Pessoas Legais sobre a Temporada de Diário de um Louco - Gracias!

Grata por nos proporcionar o espetáculo que vimos ontem. Na cena teatral de Brasília, poucas ou raras são as vezes em que podemos dividir com o artista essa espécie de gozo, essa mistura de transe e profunda inquietação que vivemos na platéia do Mosaico noite passada. Nada de goles de água com açúcar, nada de reinventar a roda anunciando a maior das novidades, não. Vimos teatro de carne e osso, cheio de alma nas entrelinhas. Não consigo deixar de pensar que o místico Gogol esteja extasiado, feliz, em algum lugar/não-lugar fantástico. Pudera: seu louco renasceu; belo, feroz, gigante e arrebatador...
Paulliny Gualberto

Parabéns pelo Diário de um Louco. Foi a melhor atuação indivudual que vi em Brasília desde A Poltrona Escura, com Cacá Carvalho, no distante ano de 2004.
Heitor Granafei

Estou extasiada com sua apresentação, muito profunda..
eu e minha mãe fomos assistir hoje O diário de um Louco, no Teatro Mosaico,
e estamos sensibilizadas por esse seu trabalho.
Parabens!
Luisa Caetano

Diário de um louco. Adeilton se multiplica em sombras num mosaico de voz num labirinto de luz liberto enlouquecido. Assisti e gostei demais. Um Axé Teatral
jorge amancio
 Foto: Pardal