quinta-feira, 8 de abril de 2010

Avatar e o Imperialismo em 3D.

Avatar, a moda da vez, é mais um blefe bem bolado da indústria cinematográfica norte-americana para continuar disseminando o velho discurso imperialista com seus heróis bonzinhos e mocinhos preocupados com as injustiças humanas, em grande parte praticadas por eles mesmos, os norte-americanos. Lá estão as recorrentes piadinhas sem graça que vemos nos enlatados, o general linha-dura sem um poro de sensibilidade, a pesquisadora (aliás, a especialista em aliens Sigourney Weaver) que quer apenas desenvolver suas coletas sem qualquer intenção usurpadora... E soldados generosos que diante das injustiças se rebelam etc. Clichês condenados a alguma “tela quente” da vida para somente alimentar a alienação de nossos jovens cujo senso crítico, infelizmente, é cada vez mais amortecido pelo paradoxo tecnológico. De que adianta ter um iphone com vários dispositivos e recursos para se usar apenas o Twitter? Tudo é casca... Como esse filme ‘pseudo-eco-tecnológico’. Afinal, o imperialismo nada mais é que uma visão em ‘multiperspectiva’ do mundo que se quer dominar, no caso, o planeta Pandora (ou a Amazônia, ou o Iraque, ou o Afeganistão etc). Tudo para o bem... E observar isso em um plano unidimensional é coisa para amadores, ora bolas! As guerras hoje são mesmo em 3D, como os próprios equipamentos e armas que o exército invasor usa para invadir Pandora e explorar um precioso minério. Em 3D tudo salta da tela!
Porém, o que mais desrespeita a inteligência e indigna o espectador é o discurso disfarçado de bonzinho tão explícito na política norte-americana. Jake Sully (Sam Worthington) é um ex-marine que terá a missão de se infiltrar na comunidade Na’Vi, habitantes de Pandora. Sua missão é mapear o terreno, desde os hábitos, costumes, cultura à geografia do lugar.
Tudo para que em breve se possa fazer um ataque indefensável. Como manda o figurino do herói, ele, na pele, ou mente, de um avatar, agora um guerreiro Na’Vi, se apaixona pela mocinha, ou melhor, pela princesa, filha do soberano e já prometida a outro. O quadro está formado e os conflitos resultantes disso são óbvios. Vários serão os desentendimentos até que o forasteiro/herói seja finalmente aceito pela comunidade. No interior dessa fórmula “sydfieldiana” (ou aristotélica, na verdade) não poderia faltar o item “traição”. Nosso herói revela a seus superiores o mapa e as fragilidades do povo Na’Vi. Sua amada, ao saber, revolta-se e o expulsa da comunidade. Peripécia esperada no esquema “amor impossível”. Óbvio que haverá uma reviravolta a seguir e nosso herói salvador da pátria (alheia) imporá sua condição de bom mocinho arrependido e disposto a lutar ao lado dos explorados. Esse enredo é velho... Só o 3D que é novidade nas salas... Mas não na história do cinema. Ah, e em breve, as novelas também serão em 3D. Enfim... Óbvio que o cinema só tem a ganhar com a alta tecnologia.
O revoltante mesmo é o fato de o mocinho ser o único a unir as forças da natureza contra os invasores. Avatar, na definição, é a encarnação de uma divindade sob a forma de homem ou animal. Ora, nosso herói não “reencarna” na forma de um Na’Vi? Portanto, nosso herói é uma espécie de divindade que reencarna em um ser inferior... É ele quem se conectará com as forças naturais e liderará a resistência. E conseqüentemente reconquistará a confiança de sua amada.
É muita pretensão que justamente o enviado dos invasores, agora travestido de avatar, seja a única figura com possibilidades de salvar os Na’Vi’s. Blefe, não? E tudo isso sob a máscara da tecnologia em 3D. Ofuscados pelos excelentes efeitos, deixamos de ver a mão que nos apunhala as costas! Ou não somos os próprios Na’Vi’s?
Avatar é daqueles filmes cuja embalagem é bem acabada, mas com um conteúdo tão destruidor quanto todo o arsenal atômico dos EUA, e para o qual não querem concorrentes (alguém aí no Irã, Coréia do Norte ou China me ouve?).
Ao olhar atento e crítico, porém, é possível perceber que Avatar expõe suas contradições narrativo-discursivas e revela os princípios político-ideológicos de sua produção.
Não passa de uma espécie de jogador que dá um xeque-mate em si mesmo!

Adeilton Lima

2 comentários:

ADRIANO FACIOLI disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
db disse...

discordo plenamente.