quarta-feira, 24 de março de 2010

Sopro

Foi então que ouvi uma voz
E seria agora questão de horas
Um terço, um rosário
Um sol a pino
No avesso do dia

O casco seco no lombo da fome
Um desejo asco descascando
Embaixo das unhas
No abrir e fechar das pálpebras

Um cacto que espinha a ânsia
Um paquiderme que me atormenta
O outro lado do tempo feito sombra
Num relógio sem ponteiros na minha memória

Se nas asas
Ao sopro do vendaval
Cairia sem medo
Nas garras do passado
Arranhando
A pele desse segredo
Esculpindo varizes
Pra esconder a verdade

Um grito
Na garganta do dragão trazido pela nuvem
Enlaçado pela serpente
Disfarçada de arco-íris

Agora a mesma voz no interior do vulcão
Brotando da terra fumegante
Que jogaram sobre meu peito

O rio das veias

Um sopro sem ar
Nas ondas de uma gota

A palavra sentença
Escorrendo
No corpo

O eco de tudo
De tudo, de tudo...

Adeilton Lima

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