segunda-feira, 29 de março de 2010

A Devolução Industrial e A Reciclagem do Olhar

No fim da narrativa de Macunaíma, obra máxima de Mário de Andrade, nosso (anti) herói tenta recuperar a muiraquitã, seu precioso amuleto, roubado que fora por Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã, “comedor de gente”. Metáfora do mundo moderno e das contradições de seu avanço, o “gigante comedor de gente” tenta enganar Macunaíma lançando-o a uma armadilha da qual ele próprio acaba vítima, despencando sobre um caldeirão fervente. A mesma metáfora ‘macunaímica’ pode ser encontrada no teatro do grupo Udi Grudi. Alguns elementos da cultura industrial são transformados em coisas úteis aos sonhos e às brincadeiras infantis, com muita criatividade, num imenso caldeirão lúdico sobre o palco.
O Udi Grudi chega aos 28 anos de existência com um dos seus mais sensíveis trabalhos, A Devolução Industrial. É possível um teatro ecológico? Sim, é possível, e sem cair num discurso piegas e/ou politicamente correto sobre os graves problemas ambientais que o nosso planeta enfrenta. A hora do planeta é aqui e agora, a toda hora, minuto a minuto.
A pesquisa rigorosa na construção do trabalho, que inclui a confecção de instrumentos musicais curiosos, inusitados e cativantes, aliada ao trabalho irreverente dos atores-palhaços (meninos-palhaços ou palhaços-meninos?) constrói um discurso cuja seriedade leva-nos a pensar sobre as relações da criança com a tecnologia em nossos dias. Talvez esse, entre outros aspectos, seja o mais importante a se ressaltar. Não, não temos que nos alienar diante do avanço técnico, muito menos deixar de reconhecer sua importância, mas podemos, sim, repensar essa relação, salvando nosso bem mais precioso: A experiência lúdica do jogo infantil, base da formação do nosso imaginário. Não há ali um discurso derrotista, bobo ou “vitimista”. Mas muito otimismo, direcionado ao Deus-criança que habita cada um de nós, a quem cabe reinventar e recriar o mundo.
O trabalho do Udi Grudi, que além de A Devolução Industrial traz no repertório O Cano e o Ovo, pra ficar só nos mais recentes, leva-nos a outra discussão necessária, que é sobre o teatro realizado em Brasília. Aqui se faz, sim, teatro de pesquisa. Há pessoas que se debruçam horas e horas durante meses a estudar, a pesquisar teatro, com o respeito e ética que o teatro merece. Nem tudo por aqui é só coisa de teatrinho polishop, preguiçoso e irresponsável, que da mesma forma como as igrejas exploradoras da fé, dizem lotar teatros com seu discurso vazio, ludibriando as pessoas apenas para descolar alguma grana (ou dízimo) para pagar algumas continhas e encher a cara no boteco mais próximo.
O Udi Grudi lota o teatro pela fé no verdadeiro teatro. Porque faz bom teatro. Infantil? Não somente, mas humano.
Todos nós passeamos na locomotiva e brincamos na “roda gigante” d’água montada sobre o palco, elemento de purificação que nos leva a ver com mais clareza, no reflexo do dia-a-dia, para além do teatro, o que é arte e o que é lixo na sociedade do consumo onde pipocam celebridades. Porém, há salvação, e tudo pode ser reciclado...
No espetáculo do Udi Grudi, o inusitado é o carro-chefe. A geometria não é uma mera coadjuvante com círculos, cubos ou retas. Aliada à composição musical os objetos cênicos transformam-se nos próprios instrumentos musicais cuja partitura cênica é cuidadosamente elaborada. A matemática vai ao teatro! Resultado? Magia e alegria!
Ao final, ainda somos brindados com um simpático banquete. Aquela celebração que cabe ao bom teatro. A sopa que é preparada ao longo da brincadeira é oferecida ao público, o que faz o espetáculo saltar do palco para a platéia, do teatro para a vida. Talvez, apenas, fosse interessante repensar o utensílio no qual é servida a sopa. Copos de isopor contradizem o discurso apresentado pelo espetáculo. De qualquer forma, com sua mágica criativa, proposital redundância, o Udi Grudi certamente encontrará a solução precisa para esse pequeno ruído.
No mais, A Devolução Industrial é espetáculo necessário pela visão ecológica e ética que nos oferece, através da leveza e poesia que todo sonho de criança deve ter.
Preciosa muiraquitã!

Adeilton Lima

Um comentário:

Marina Gregorutti disse...

"Descobrindo o teatro, o ser se descobre humano." (Augusto Boal)

Adorei a crítica!