terça-feira, 23 de março de 2010

Ausência

Quanto a ele, ficou mesmo foi com a ausência. A ausência tinha um pouco de todas as mulheres que passaram, e que com ele deitaram e dormiram e amaram. As loucas por sexo, as pudicas, as fêmeas, as nem tão fêmeas assim, as putas, as piradas, as ciumentas, enfim... A ausência era como uma lembrança, porém tão presente, tão concreta, tão quente, tão fria. Humana essa ausência. Alma gêmea, bela, lúcida, real. Todas as manhãs, beijava seu rosto como um raio de sol. Depois, despia-se e banhava-se para que durante o dia seu perfume permanecesse no espaço lembrando-lhe de sua existência e de seu amor. A ausência era uma mulher como poucas. Amante, mãe, santa e puta. Livre e lúcida, sábia e companheira. Para ele, que sempre tivera um caso com a solidão, encontrar a ausência era a recompensa para a desilusão que sofrera. A solidão sempre o traíra, principalmente naquelas noites insones sem refúgio embaixo dos lençóis. Cruel, covarde e carpideira, a solidão abandonava-o à sorte de uma garrafa de vinho à deriva, no mar numa noite de lua.

Adeilton Lima

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