terça-feira, 30 de março de 2010

Labirintos

Tomou minha mão
Tateou sobre suas linhas
Becos e abismos
Mediu cada ponto, cada poro
Buracos de agulha sem costura
Eternos labirintos
Pingando o suor dos dias
Tocando tetas imaginárias
Em tesas gotas de orvalho

Adeilton Lima

O menino e a árvore

Agora tudo é imagem
Nas águas do rio
correndo na memória.
Matinê de domingo
Ruas, ruelas e becos
das cidades do interior
Aqui dentro, lá fora...
A imagem da infância
A imagem da velhice
A imagem-Ser
O tempo ágil das formigas
dos sapos, das lagartixas
e dos caramujos
O som de um gramofone
no alto de uma árvore
esculpindo pássaros
Pedras e flores
O avô-árvore da floresta
O homem no sonho das águas
reencontrando o menino
Terceira margem
Trapézios sobre o entardecer
Talvez no dorso de um jabuti
mergulho e vôo
No imaginário
Agora tudo é alma!

Adeilton Lima

Cigarro

Caninos amarelados
À espera do pigarro amante
Por entre os dedos
O odor vulgar do falo
Bolinando uma respiração repleta de varizes
Agora um trago, uma baforada
As horas infinitamente quentes
Rasgando o peito
Preparando a tosse
Como um vulcão em êxtase
Pronto a jorrar penitências
Desejos, taras, dependências
Diante de uma boca voraz
A consumir somente cinzas

Adeilton Lima

segunda-feira, 29 de março de 2010

Pedalando na Lua

Pedalando numa noite de lua cheia!
Não sei quantas voltas dei na lua
Muito menos quantas voltas a lua deu em mim...

Adeilton Lima

A Devolução Industrial e A Reciclagem do Olhar

No fim da narrativa de Macunaíma, obra máxima de Mário de Andrade, nosso (anti) herói tenta recuperar a muiraquitã, seu precioso amuleto, roubado que fora por Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã, “comedor de gente”. Metáfora do mundo moderno e das contradições de seu avanço, o “gigante comedor de gente” tenta enganar Macunaíma lançando-o a uma armadilha da qual ele próprio acaba vítima, despencando sobre um caldeirão fervente. A mesma metáfora ‘macunaímica’ pode ser encontrada no teatro do grupo Udi Grudi. Alguns elementos da cultura industrial são transformados em coisas úteis aos sonhos e às brincadeiras infantis, com muita criatividade, num imenso caldeirão lúdico sobre o palco.
O Udi Grudi chega aos 28 anos de existência com um dos seus mais sensíveis trabalhos, A Devolução Industrial. É possível um teatro ecológico? Sim, é possível, e sem cair num discurso piegas e/ou politicamente correto sobre os graves problemas ambientais que o nosso planeta enfrenta. A hora do planeta é aqui e agora, a toda hora, minuto a minuto.
A pesquisa rigorosa na construção do trabalho, que inclui a confecção de instrumentos musicais curiosos, inusitados e cativantes, aliada ao trabalho irreverente dos atores-palhaços (meninos-palhaços ou palhaços-meninos?) constrói um discurso cuja seriedade leva-nos a pensar sobre as relações da criança com a tecnologia em nossos dias. Talvez esse, entre outros aspectos, seja o mais importante a se ressaltar. Não, não temos que nos alienar diante do avanço técnico, muito menos deixar de reconhecer sua importância, mas podemos, sim, repensar essa relação, salvando nosso bem mais precioso: A experiência lúdica do jogo infantil, base da formação do nosso imaginário. Não há ali um discurso derrotista, bobo ou “vitimista”. Mas muito otimismo, direcionado ao Deus-criança que habita cada um de nós, a quem cabe reinventar e recriar o mundo.
O trabalho do Udi Grudi, que além de A Devolução Industrial traz no repertório O Cano e o Ovo, pra ficar só nos mais recentes, leva-nos a outra discussão necessária, que é sobre o teatro realizado em Brasília. Aqui se faz, sim, teatro de pesquisa. Há pessoas que se debruçam horas e horas durante meses a estudar, a pesquisar teatro, com o respeito e ética que o teatro merece. Nem tudo por aqui é só coisa de teatrinho polishop, preguiçoso e irresponsável, que da mesma forma como as igrejas exploradoras da fé, dizem lotar teatros com seu discurso vazio, ludibriando as pessoas apenas para descolar alguma grana (ou dízimo) para pagar algumas continhas e encher a cara no boteco mais próximo.
O Udi Grudi lota o teatro pela fé no verdadeiro teatro. Porque faz bom teatro. Infantil? Não somente, mas humano.
Todos nós passeamos na locomotiva e brincamos na “roda gigante” d’água montada sobre o palco, elemento de purificação que nos leva a ver com mais clareza, no reflexo do dia-a-dia, para além do teatro, o que é arte e o que é lixo na sociedade do consumo onde pipocam celebridades. Porém, há salvação, e tudo pode ser reciclado...
No espetáculo do Udi Grudi, o inusitado é o carro-chefe. A geometria não é uma mera coadjuvante com círculos, cubos ou retas. Aliada à composição musical os objetos cênicos transformam-se nos próprios instrumentos musicais cuja partitura cênica é cuidadosamente elaborada. A matemática vai ao teatro! Resultado? Magia e alegria!
Ao final, ainda somos brindados com um simpático banquete. Aquela celebração que cabe ao bom teatro. A sopa que é preparada ao longo da brincadeira é oferecida ao público, o que faz o espetáculo saltar do palco para a platéia, do teatro para a vida. Talvez, apenas, fosse interessante repensar o utensílio no qual é servida a sopa. Copos de isopor contradizem o discurso apresentado pelo espetáculo. De qualquer forma, com sua mágica criativa, proposital redundância, o Udi Grudi certamente encontrará a solução precisa para esse pequeno ruído.
No mais, A Devolução Industrial é espetáculo necessário pela visão ecológica e ética que nos oferece, através da leveza e poesia que todo sonho de criança deve ter.
Preciosa muiraquitã!

Adeilton Lima

quinta-feira, 25 de março de 2010

quarta-feira, 24 de março de 2010

Balanço

Um olho de mar
Nas tempestades do peito
No balanço das ondas
Ou das redes
Brincos bordados nas conchas
Brincando com os barcos
Ao canto de Iemanjá
À luz de Oxum
Na pele de areia doce
Na noite de chuva
No intervalo do tempo
Como num carrossel.
Agora o mergulho
No meio das nuvens
Por entre as cores dos ritos
Onde brinca a aurora
Onde dança tua alma.

Adeilton Lima

Noel

Coloquei aquela velha meia
não no pé
mas na janela
E pedi a Noel
Não uma bicicleta
Mas um samba
Que cantasse esse teu gingado
Essa tua alma e esse teu sorriso.

Noel, que tanto entendes de noites, garoas e chaminés!
Traz pra mim o nome dela gravado numa fita amarela
Lembrando sempre a vida, a vida, a vida!

Na infância, soube que Noel
É um ser encantado que vive no reino da poesia
E que se fizermos um pedido, ele prontamente nos atenderá
Até mesmo na noite de natal...

Que a minha meia vire um balão, Noel!
E nele voarei agora
E a trarei comigo pra brincar, cantar, viver!

Pois o que são os nossos sonhos,
Senão fagulhas de eternidade?

Eu sonho! Sonho com você!

Na minha meia puída de andanças
Ainda cabem tantos sambas, tantos sonhos e muita,
muita poesia!

Meu querido Noel!
Diz pra ela, diz pra ela!

Adeilton Lima

Sopro

Foi então que ouvi uma voz
E seria agora questão de horas
Um terço, um rosário
Um sol a pino
No avesso do dia

O casco seco no lombo da fome
Um desejo asco descascando
Embaixo das unhas
No abrir e fechar das pálpebras

Um cacto que espinha a ânsia
Um paquiderme que me atormenta
O outro lado do tempo feito sombra
Num relógio sem ponteiros na minha memória

Se nas asas
Ao sopro do vendaval
Cairia sem medo
Nas garras do passado
Arranhando
A pele desse segredo
Esculpindo varizes
Pra esconder a verdade

Um grito
Na garganta do dragão trazido pela nuvem
Enlaçado pela serpente
Disfarçada de arco-íris

Agora a mesma voz no interior do vulcão
Brotando da terra fumegante
Que jogaram sobre meu peito

O rio das veias

Um sopro sem ar
Nas ondas de uma gota

A palavra sentença
Escorrendo
No corpo

O eco de tudo
De tudo, de tudo...

Adeilton Lima

Falo

Falo palavra
A palavra FALO
Falo da palavra
No céu da tua boca

Adeilton Lima

Sangrando

Conceda-me a noite
Uma dança
Ao som da madrugada
Bêbada
Fogosa
Atirando-se sobre os cacos
De estrelas que salpicam
Sobre a janela farta de calores
Odores vorazes
E portas escancaradas
Um suspiro
Nas frestas
Um olhar que lambuza
Uma garra que corta
Feito navalha entre os dentes
Só pra arrepiar tua pele
Sobre a minha pele
Num só corpo
Num só gozo
Num só suspiro
Sangrando, migrando
Na fronteira dos lábios
Língua a dentro.

Adeilton Lima

terça-feira, 23 de março de 2010

Poema

Um cheiro de noite sobre a pele
Um sorriso de asas abertas

A aurora chegando
Num vôo suave pela alma
Me dizendo sim! Eis a vida!

As linhas da infância no desenho das mãos
O corpo de uma mulher na aura do fogo
A beleza dos olhos d’água
Disfarçando oceanos.

A cor do infinito

Crepúsculos

Tudo é poesia para além dos poros
E sobre a folha viva do teu corpo

A palavra que te busca
Os versos que te ouvem
Os versos que te tocam
Os versos que te respiram

O arrepio dos versos
Na língua das tempestades

A palavra sempre queimando
Dentro de uma ampulheta
No giro do dia
No gozo da noite

O poema que agora se abre
Para te sentir

Adeilton Lima

Ausência

Quanto a ele, ficou mesmo foi com a ausência. A ausência tinha um pouco de todas as mulheres que passaram, e que com ele deitaram e dormiram e amaram. As loucas por sexo, as pudicas, as fêmeas, as nem tão fêmeas assim, as putas, as piradas, as ciumentas, enfim... A ausência era como uma lembrança, porém tão presente, tão concreta, tão quente, tão fria. Humana essa ausência. Alma gêmea, bela, lúcida, real. Todas as manhãs, beijava seu rosto como um raio de sol. Depois, despia-se e banhava-se para que durante o dia seu perfume permanecesse no espaço lembrando-lhe de sua existência e de seu amor. A ausência era uma mulher como poucas. Amante, mãe, santa e puta. Livre e lúcida, sábia e companheira. Para ele, que sempre tivera um caso com a solidão, encontrar a ausência era a recompensa para a desilusão que sofrera. A solidão sempre o traíra, principalmente naquelas noites insones sem refúgio embaixo dos lençóis. Cruel, covarde e carpideira, a solidão abandonava-o à sorte de uma garrafa de vinho à deriva, no mar numa noite de lua.

Adeilton Lima

terça-feira, 16 de março de 2010

O Rio

Ser como o rio que deflui
silencioso dentro da noite
não temer as trevas da noite
se há estrelas refletí-las.
e se os céus se pejam de nuvens
como o rio as nuvens são água
refletí-las também sem mágoa
nas profundidades tranquilas.

(Manuel Bandeira)