domingo, 10 de janeiro de 2010

Entrevista - Correio Braziliense - 10/01/2010

Muito prazer - Adeilton Lima

Ano passado coube ao ator, diretor e poeta Adeilton Lima comandar três das principais manifestações contra a ausência de política cultural no DF. Ele se enjaulou em frente ao Conic como o “artista da fome”, explodiu acusações no papel de Homem-Bomba próximo ao Teatro Nacional e expôs a maquiagem do Cine Brasília. Conseguiu mobilizar artistas de diversos setores. Dono de postura política firme, põe a boca no trombone quando os processos culturais andam meio escusos. Às vezes, quer só uma explicação. Por conta disso, sente-se boicotado por parte dos fazedores de cultura do DF. Natural de Manaus e com 22 anos de profissão, Adeilton Lima é mesmo um apaixonado pelo teatro e pelo respeito e ética de pisar no palco.

Poeta bom de briga

Sérgio Maggio e José Carlos Vieira

Se você fosse o secretário de Cultura, quais seriam as três primeiras medidas do ano?

Faria uma reflexão sobre a palavra ética. Chamaria a comunidade artística para pensar o que é ética e como a gente aplicaria esse conceito, a fim de desenvolver um projeto de cultura para a cidade capaz de envolver todas as instituições, os níveis de produção, as linhas de trabalho. Depois, partiria para projetos concretos, um levantamento das nossas reais necessidades para estabelecer critérios e diretrizes de projetos. Claro que teria que ter competência política e administrativa para negociar, características que hoje não vejo na atual Secretaria de Cultura. Por fim, desenvolveria parcerias com outras secretarias, como Educação e Segurança. Por exemplo: acabei de ser assaltado e aquele garoto de 19 anos que me assaltou, no último dia do ano, em plena luz do dia na 107 Norte, poderia estar incluído num projeto de arte-educação. A gente tem a mania maniqueísta de pensar que essas coisas são estanques, cada um cuida do seu umbigo. Isso gera o vício da corrupção.

Às vésperas de completar 50 anos, Brasília tem uma classe artística?

Não. Acredito que a gente esteja nesse processo de amadurecimento. Acho que a gente precisará de mais 50 anos para chegar e dizer: “Somos uma classe”. O principal problema é a falta de união. A gente não fecha num pensamento. É claro que as diferenças constroem, mas temos grupos pequenos barganhando, em função do próprio umbigo. Talvez eu fique isolado por não concordar com essa prática. Por pensar diferente. Um exemplo é o Fórum de Cultura do DF, que não representa quem faz cultura. É um pequeno grupo que está fechado com determinados setores. Se tivéssemos uma classe mais unida, não teríamos essa bagunça que é hoje a Secretaria de Cultura, marcada por essa falta de seriedade, compromisso e ausência total de projetos culturais. Há três anos, essas pessoas que estão na secretaria nos embromam.

O teatro precisa ser sempre engajado? Não fica chato, enfadonho?

Pior ainda quando é teatro político-partidário. Eu faço uma arte engajada no sentido de pensar o teatro no rigor de trabalho de ator, na necessidade de pesquisa, na ética profissional. Não acredito em política partidária. Faço uma arte para pensar sobre a nossa realidade, nossa existência no planeta, nas questões ecológicas e humanas em suas várias dimensões. Não no meu próprio umbigo. Mas há teatros e teatros. O que sigo é uma tendência ritualística e sagrada, no qual encontro a ideia de Deus. Aceito outra forma de fazer, mas comercial, que tem espaço e público e merece respeito. Já fui mais radical.

O que você acha desses grupos de comédia que lotam salas de espetáculo? É teatro?

É teatro! Recentemente, no mesmo dia, eu vi Udigrudi, pela quinta vez O cano, que é poesia pura, e depois assisti a Dingou béus (Cia de Comédia Os Melhores do Mundo) e dei gargalhadas deliciosas. Não é o teatro que faço, mas o respeito. Eles fazem com competência. Trazem coisas do momento político, como cenas desse esquema do mensalão dos panetones. Isso para um público mais inserido num contexto televisivo. É importante que eles tragam essas pessoas para o teatro. Quando dava aula de literatura na escola pública, sem querer desmerecer, se alguém dizia que leu Paulo Coelho, eu falava bravo: “Um dia você chegará ao Dostoiévski”.

Você critica um teatro ao qual chama de Polishop. O que vem a ser isso?

Esse Teatro Polishop não tem nada a ver com o besteirol ou as comédias. O Polishop é o teatro de filhinho de papai metido a besta que faz teatro apenas para alimentar o ego, com preguiça de procurar um consultório de psicanálise. Textos superficiais, afetados e recheados de clichês que bem serviriam para um roteiro de Malhação. Polishop é esse teatro televisivo que rola por aí, cheio de preconceitos. Teatro elitista. Esse não merece meu respeito.

Ano passado, você foi o autor das três principais manifestações contra a inexistência de política cultural na cidade. Não tem medo de se tornar um mártir ou um grande chato?

Quero simplesmente exercer meu direito de cidadão e artista. Vejo poucas articulações no meio cultural, então, tomo iniciativa. Não sei esperar por ninguém. É tácito, em Brasília, que o artista tenha a cultura como uma segunda opção de trabalho. É compreensível, mas precisamos ter um interesse comum para exercer mudança. Eu vou para as frentes de batalha para lutar pelo que acredito. Se mais pessoas concordarem comigo, ótimo. Isso fortalece. Mas tem um outro lado. Sou boicotado.

Você sente esse preconceito?

Sinto e o pior é que ele não vem de forma explícita. É covarde e vem do meu próprio meio. O que me causa repulsa. Alguns não têm coragem de me parar na rua e olhar na cara para dizer: “Adeilton, eu não concordo com você”. Ficam me burlando, engavetando os meus projetos, tentando me represar e me calar. Mas enquanto eu tiver um CD para vender num bar e me sustentar, ninguém vai me calar. Não acredito nesse teatro que precisa de um palco tradicional. Sou do teatro que rompe fronteiras de linguagem, que ocupa qualquer espaço.

O que fazer para que as pessoas mais pobres cheguem ao teatro?

Os grupos de comédia cumprem esse papel, só não podem aumentar o ingresso quando fazem sucesso, porque elitiza. Outra forma é visar o público escolar, ir à escola, fazer recitais associados ao incentivo à leitura. Quando vou aos bares e recito poesia, é uma forma de acostumar as pessoas sem acesso a essa linguagem. Vivi essa experiência quando várias pessoas se emocionaram durante um recital e relataram o interesse em ler mais poesia.

Mas há artistas que têm preconceito com a periferia…

Não os considero como artistas. Artista que pensa assim deve entrar para a política.

Mas há em Brasília quem pense assim…

Muitos deles me boicotam. São artistas com data e hora para acabar, têm prazo de validade, porque artista que vive na alma e na essência é imortal. Fica porque o trabalho vai marcar alguém. Se você consegue atingir uma pessoa, isso gera repercussão, um boca a boca sobre seu trabalho. Já o artista preconceituoso deve sentar com Boris Casoy para tomar um café.

Por que você saiu do Fórum de Cultura do DF?

Na mesma semana em que os estudantes e cidadãos ocuparam a Câmara Legislativa, e eu estava lá apoiando, uma comissão do fórum se formava para negociar o FAC 2009. Era um momento em que não havia mais espaço para esse diálogo vazio com a Secretaria de Cultura. Há pessoas do fórum que são amigas do subsecretário Beto Salles. Tem gente que até segue ele no Twitter. Não posso confiar nessa gente. Não faço discurso ambíguo. Ou você está de um lado ou de outro. Lá, há infiltrados da Secretaria de Cultura e eles vivem discutindo o FAC como se fosse uma política cultural. O fórum não tem iniciativa nem força para impor diretrizes ao governo. Também não representa a totalidade de quem trabalha no meio cultural do DF.

Você escreve poesia pra quê?

Como diria o Millôr Fernandes, é para extravasar o silêncio. É muito mais para pensar a minha relação com a minha própria existência, com o mundo que me cerca. Vou de uma reflexão crítica e social para uma existencial, porque me liga ao meio e ao universo que faço parte.

"Se teu olho não enxerga/Os calos do trabalho/ Acorda!/ Sai pra vida, vem pra briga/ Não vacila, não cochila/ Já curaram a tua moral!...” Há nesses versos seus o desencanto etílico de Charles Bukowski. Quais os poetas que você tem na estante e na cabeça?

Além de Bukowski, que é uma das grandes referências como poeta, tenho como pilares o teatrólogo Antonin Artaud e o cineasta Glauber Rocha, homens que pensaram poeticamente o mundo e a arte. Mas a gente vai de Mario Quintana, Fernando Pessoa, Drummond, Ferreira Gullar, Thomas Eliot...

E em Brasília?

Ha três poetas que me encantam: Cassiano Nunes, Fernando Mendes Viana e Joanyr de Oliveira. Sempre manifestaram força e carinho pelo meu trabalho. Certa vez, Cassiano foi me ver fazendo Artaud na Oficina do Perdiz e escreveu um comentário sobre o espaço e o trabalho numa generosidade sem limites. Em atividade, destaco Paulo Kauim, Francisco Kac, Alexandre Marino, Lilia Diniz e Fernando Marques.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O encanto e o desencanto são irmãos gêmeos diferenciados apenas por uma pequena e quase imperceptível... Cicatriz.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Boris Casoy e o Apartheid social

Por Adeilton Lima - Ator

No último dia de 2009, em meio às felicitações de ano novo, um grave fato provocou uma avalanche de reflexões sobre o falso moralismo da elite brasileira e seus valores nos seus vários níveis. No entanto, ao invés de encobrir, revelou com profundidade o apartheid social brasileiro e os preconceitos que o mantêm. E antes que me acusem de ironia, não estou aqui fazendo pouco caso das tragédias naturais, único fenômeno que consegue unir ricos e pobres no Brasil. Não devolverei a agressão à classe trabalhadora na mesma moeda.

O jornalista Boris Casoy da Rede Bandeirantes de Televisão, após uma saudação de ano novo de dois garis, no Jornal da Band, na passagem da vinheta de abertura daquele noticiário, sem perceber que o áudio estava aberto, saiu-se com a seguinte frase: “Mas que merda, dois lixeiros desejando felicidades, do alto de suas vassouras, lixeiro, o mais baixo na escala do trabalho..”. Isso entre risos dos membros de sua bancada. (http://www.youtube.com/watch?v=U6SFqhYVmaE&feature=popular).

Boris Casoy é conhecido por geralmente aparecer questionando posturas do meio político e social brasileiro, finalizando seus comentários com a frase “isso é uma vergonha!”. Tal bordão utilizado por esse senhor cai-lhe bem sobre a própria cabeça, tirando-lhe a máscara, e o colocará numa situação delicada se vier a repeti-la. Ela não terá qualquer fundamento moral que a justifique. A ofensa causada a dois trabalhadores, e a uma categoria profissional por extensão, reflete a hipocrisia de nossa elite e de parte de setores da imprensa brasileira. Aqueles dois trabalhadores nada mais faziam do que do alto de sua humildade desejar a todos um feliz ano novo e dias melhores.

No entanto, a mesma TV que lhes dá tal espaço, apunhala-lhes pelas costas com tamanha discriminação e falta de respeito. Um caso para demissão imediata fosse outra a postura da direção da emissora e não essa que se mostra conivente com tamanho preconceito.

Ora, o “ato falho” de Boris Casoy, eufemismo usado para aliviar a gravidade de sua grosseria, apenas refletiu o que já vemos na programação televisiva brasileira: A baixaria, o incentivo à violência e o preconceito disfarçado no discurso politicamente correto, que encena uma falsa inclusão, onde ainda vemos as tradicionais diferenças, no sentido negativo, sociais, sexuais e raciais sendo reforçadas nas novelas, nos programas de auditório, nos programas pseudo infantis e nos telejornais. Uma TV que não educa, que não pensa e que não ajuda o país a crescer crítica e intelectualmente, preferindo varrer seu preconceito para debaixo do tapete com suas vassouras de cristal. Pedir desculpas apaga o tamanho de tal agressão como fez o jornalista no dia seguinte? Não, só reforça a hipocrisia desse setor da elite e não se difere em nada das desculpas lavadas da classe política que inventa mensalões, esquemas de panetones, desvia verbas públicas, burla painéis eletrônicos, pega criancinhas no colo, chora, pede desculpas etc. e depois lava as mãos tal qual um Pilatos estúpido.

Esse tipo de profissional envergonha toda a classe trabalhadora (e isentemos obviamente os bons jornalistas) e entristece toda uma sociedade, na medida em que revela o pensamento verdadeiro e discriminatório de alguns dos ditos “formadores de opinião”. No entanto, paradoxalmente, essa TV que aí está nada mais é que espelho da sociedade brasileira e seus valores mais mesquinhos. E se aceitamos esse tipo de televisão é porque somos isso mesmo, um bando de dissimulados, narcisistas, canalhas, hipócritas e/ou no mínimo coniventes com todo esse estado de coisas. Uma sociedade que alimenta o mundo das celebridades instantâneas, que incentiva a política do “jeitinho brasileiro”; que esconde dinheiro nas meias, cuecas ou nas bocetas (pequenas bolsas ou caixas, senhores (as) pudicos (as), porém, podendo ficar maiores dependendo da ganância). Que fura filas, que não respeita os mais velhos, que não aceita as diferenças, no sentido positivo, e que vive sonhando “em se dar bem” do dia para a noite, seja na Fórmula 1, no futebol ou num boteco. Seja também no poder executivo, no legislativo ou no judiciário.

As instituições no Brasil estão falidas e nossa principal crise é de valores.

Aqui só cabe uma palavra: Vergonha!