sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Brasília

Brasília: Onde alguns enxergam o desenho de um avião, vejo um arco e uma flecha florindo no chão dos meus ancestrais.


Adeilton Lima

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Cru – A Frio e a Seco

Nunca fui um admirador do teatro de Alexandre Ribondi, porém, respeito-o. Nada contra, muito menos pessoal, nem teria motivos para isso, apenas navego noutras águas e habito outras ilhas, nem melhores, nem piores, mas diferentes. Meu olhar é puramente estético. Digo abertamente, numa boa, pois não sou hipócrita, nem tão pouco me dou ao trabalho das rasgações de seda beirutianas tão comuns no metier brasiliense.  
Teatro se faz mesmo é sem tapinhas nas costas.
Interessa-me a cena, o palco, e mais ainda, o que de humano possa existir registrado numa peça teatral, seja ela de quem for, afetados (as), pesquisadores (as), diletantes, gente séria, ou nem tão séria assim, veteranos (as), iniciantes etc. Interessa-me muito mais o debate estético, discursivo e lingüístico para além de umbigos empinados na ponta de narinas que se abrem tal e qual as asas de um pavão nas portas dos teatros ou nas mesas de bares. Mas uma coisa é uma obra de arte, outra, as pessoas. E essa relação nem sempre é tão direta assim.
Cru é uma peça necessária.
Nada de novo, ninguém tem a pretensão de estar inventando a roda.
Porém, espectador nenhum sairá incólume do teatro depois dessa boa porrada na boca do estômago. Não me refiro evidentemente a possíveis cenas de violência gratuitas tão comuns no cineminha comercial dos nossos tempos televisivos. Não é por aí. Refiro-me exatamente ao que não se vê, mas se sente, ou seja, a um grau de tensão que é trabalhado ponto a ponto, vírgula a vírgula, frase a frase, gesto a gesto, cena a cena. Cru está no campo semântico que se realiza no tempo fronteiriço dos diálogos, dando ao espectador a sensação de estar numa montanha russa, condicionado indubitavelmente às leis da física ou dos embates de valores morais. Assim, acuado, e sem saída, o público acomodado em sua confortável poltrona, vê-se sacudido e expulso de seu mundinho cor-de-rosa. Cabe bem para Brasília. Do drama familiar e social que regurgita com boa dose de sarcasmo e crítica, na desossa das relações humanas, no espaço de um “pé sujo” qualquer de esquina de uma cidadezinha alhures que mistura boteco e açougue, ou em qualquer restaurante fino freqüentado pela elite podre que grassa e desgraça nas grandes cidades, Cru promove nas subidas e descidas da montanha, um escalpo que deixa a nu as doenças morais mais escrotas da nossa sociedade. Aquela mesma que de forma hipócrita faz campanha contra as drogas ao mesmo tempo em que sai para comprá-las. A mesma que diz não ter preconceitos ao mesmo tempo em que lava as mãos sobre os mesmos. Crimes políticos sob encomenda, jogadas de bastidores, matadores de aluguel, tudo tão atual e tão perto de todos nós. Vivemos numa sociedade que lentamente pratica o suicídio coletivo, seja cultural ou moral. Cabe um parêntese... A classe artística brasiliense atua no mesmo caminho como uma espécie de recorte metonímico dessa temática suicida.
Chico Santana, Sérgio Sartório e Marcos Vinícius estão excelentes em cena, bem entrosados no jogo desnudo do tabuleiro! Cada um no tempo do outro, quase formando uma única figura através da solidão, rudeza e crueldade que explodem no universo de cada personagem em particular. E tais vísceras são consumidas canibalescamente como um simples tira-gosto para a cachaça, assim como nos acostumamos a fazer com a miséria e violência que nos rodeiam.
Um tiro existencial a cru, a frio e a seco! Cru é tensão!
Paradoxalmente, um trabalho que pode ajudar a humanizar as pessoas, quiçá, a educá-las melhor...

Adeilton Lima

domingo, 19 de dezembro de 2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Órbitas

Estrelas cadentes
Nas órbitas dos olhos
Faíscas...no abrir e fechar
das pálpebras do céu!

Adeilton Lima

sábado, 11 de dezembro de 2010

Neve

Sobre as copas das árvores
Nevavam teias de aranha
tarde de verão
Quente, longa e
Preguiçosa...

A tarde na teia
A teia na tarde
Um desenho suspenso no ar.

Adeilton Lima

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Como se Faz um Secretário de Cultura?

É bem curiosa a movimentação recente em torno do futuro nome que ocupará a cadeira número um da Secretaria de Cultura do DF, em 2011. De repente, cabos eleitorais se mobilizam em telefonemas, reuniões, propostas etc para alavancar seu respectivo candidato.
Ocorre que as pessoas não se apercebem de um detalhe importante. Tal cargo não é eletivo! Será nomeado, óbvio, pelo governador Agnelo Queiroz.  Porém, o argumento é que, como se tratará de uma lista tríplice ou quádrupla, é necessário conquistar o apoio amplo dos vários segmentos culturais para que um determinado nome receba Del-Rei seu poderoso aval.
Todo político que chega ao poder sempre o faz defendendo mudanças de posturas, conceitos e políticas, os de esquerda, evidentemente, não fogem à regra. Costumam ser até mais contundentes, não necessariamente mais verdadeiros, infelizmente essa não é a regra. Porém, o que acho mais preocupante quando vejo campanhas para cargos não eletivos é a repetição de uma prática política tacanha, retrógrada e desprezível que é a barganha, o fisiologismo ou o favoritismo baixo de balcão que ainda impera nas políticas coronelescas deste tão combalido cerrado. Pelo menos é o que indica tal modelo de “campanha”.  Determinado “candidato” certamente dará preferência ao seu grupo de correligionários em detrimento daqueles que não o apoiaram, e assim por diante, gerando um ciclo vicioso. Determinados indivíduos ou grupos que apoiaram determinado “candidato” partirão para a pressão diante de suas demandas pessoais e particulares cobrando o troco por seu apoio, etc. No mínimo, corre-se esse risco! No mínimo, expõe-se a desconfiança.
Esquecem-se ambos os lados que o que se deve fazer numa democracia é partirmos para o debate, sociedade organizada e governo seja ele quem for juntamente com seus representantes. Deve a sociedade em seus vários setores e segmentos debater idéias, diretrizes e projetos sem bajular ou pedir favor a político algum, mas exigir que se cumpram suas demandas em prol do coletivo. Devemos, sim, nos organizar como indivíduos e/ ou entidades verdadeiramente representativas com respaldo legal e encaminhar nossas demandas preferencialmente através do diálogo, e se necessário, de mobilizações. O fundamental é a efetivação de políticas duradouras.
As velhas práticas espúrias do puxa-saquismo, do peleguismo ou de outras expressões do mesmo campo semântico devem ser devidamente colocadas nas latas de lixo da história.
Não dá pra continuar tomando o mesmo cafezinho requentado das políticas do passado nos corredores da Secretaria de Cultura do DF a partir de janeiro de 2011.
Adeilton Lima
Ator - DRT- 1642-DF

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

domingo, 14 de novembro de 2010

O Pato

P                               N
   A                        A  
       T                 D
           O         A
           Desenha
                O
              Voo
               Na
             Água

Adeilton Lima

sábado, 13 de novembro de 2010

A Despedida – Outra Face da Princesa

O espetáculo A Despedida, que recentemente fez temporada no Espaço Cena, dirigido por Iuri Saraiva, é uma das mais felizes experiências do teatro brasiliense de 2010, sem nenhuma dúvida! Pesquisa é a palavra que estrutura a montagem (às vezes parece até estranho dizer isso para apontar qualidades numa peça de teatro quando o correto seria esperar que normalmente se caminhasse nesse sentido por aí.  Mas é que pesquisa, infelizmente, nem sempre é a regra, mas a exceção n’alguns teatros...), mostrando que se pode sim fazer bom teatro aliando, com rigor, corpo e texto, em função da narrativa e na medida certa. O bom trabalho de interpretação é a espinha dorsal dessa proposta cênica, sem, contudo, ficar apenas a impressão de que o elenco tem um trabalho de expressão corporal que se destaca. Não, tudo ali funciona em favor e a favor da narrativa em cada detalhe. O corpo narra através das boas e simples sacadas coreográficas, sem redundâncias, enriquecendo o texto.
Em cena, o lado humano, para além do personagem histórico, da princesa Isabel, acorrentada pelos embates existenciais de uma maternidade trágica e pelas questões políticas e sociais acerca da liberdade, da representação da mulher na sociedade machista, na história e na política, e o fim da escravidão. Temas que transcendem o tempo meramente histórico e chegam a nós em ondas tempestuosas que saltam dos livros de história para a atualidade. Uma cenografia, cujos elementos sugerem o arcabouço/calabouço simbólico da personagem central, está ali sob medida para o que o espectador verá se desenrolar num intervalo de tempo que parece curto, pois fica um gostinho de “quero mais” diante do efeito poético dessa montagem. A partir do eixo dramático citado, acompanhamos o reencontro de Isabel com a irmã, Leopoldina, não necessariamente no plano real, talvez onírico, numa espécie de ajuste de contas de seus afetos. O único senão, é a opção por a peça começar do lado de fora do teatro, o que pode até ser compreensível dada a intenção de colocar o público como coadjuvante, como povo, no entanto, perde-se, enquanto prólogo, o diálogo entre as duas irmãs. Quanto mais intimista, mais teria a ganhar essa montagem, que tem ainda um excelente acompanhamento de efeitos e trilha sonora ao vivo.
Hanna Reitsch e Poliana Pieratti, respectivamente nos papéis de Isabel e Leopoldina, constroem bem seus personagens, Hanna, contudo, apesar de jovem, demonstrando a maturidade de uma veterana. Espera-se apenas que o sucesso não lhes dê uma rasteira no ego, pois como jovens atrizes que são (e isso vale para o diretor e os colegas de elenco também) iniciam e/ou dão sequência, em alto nível, a carreiras que têm tudo para ir bem longe. Aliás, esse trabalho certamente será bem recebido nos grandes festivais do Brasil e quem sabe do exterior, mostrando a boa safra do teatro brasiliense.
Que bom seria se todas as aulas de história fossem assim...

Adeilton Lima

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Transforme seu dia num belo poema de 24h e seu tempo livre em um novelo de versos!
Adeilton Lima

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A Carne do Mundo – Teatro em Preto e Branco

Há espetáculos que chamam a atenção pelo fato de um ou outro elemento da encenação se destacar para além dos outros, seja a interpretação, seja a cenografia, seja a luz. A Carne do Mundo consegue a proeza de dosar, equilibrar e orquestrar bem todos esses elementos, livrando-se do excesso, armadilha comum nesse arriscado caminho para lidar com a temática da perversão. Optar pela contenção foi o grande acerto dessa montagem rigorosamente minimalista. Numa estrutura espiralada em que os elementos vão adquirindo recorrência, mas não exatamente se repetindo, o que favorece a geração de densidade e leveza, o público é colocado na condição de voyeur, adentrando o espaço de um apartamento que nada mais é do que um recorte do mundo interior de nossas perversões, taras, carências, desejos etc. A narrativa caminha aberta, deixando para o espectador o desfecho, se estamos diante de um fato real ou se tudo não passa de uma criação delirante da mente de um homem... Tudo filtrado pelo olhar diáfano das persianas. Um clima “noir” que se casaria bem com as transições de espaço e tempo de um musical dirigido por Coppola, “Do Fundo do Coração”. E se o sentimento do outro é sempre alheio, as buscas e os desencontros são mesmo infindáveis no teatro, no cinema ou na vida.
Neste mundo das relações virtuais no qual vivemos, o toque, o contato, a pele na pele, é coisa cada vez mais rara; não, não estou dizendo nenhum absurdo. E às vezes, tentamos realizar nossos desejos à distância, como se envolvêssemos o corpo do outro na pele seca de nossa memória ou num plástico qualquer, como que empacotando as mercadorias expostas nos supermercados midiáticos ou dos classificados de jornal ou de sites da internet. Nosso imaginário está corroído pelos padrões comportamentais que nos são impostos e aquilo que ainda podemos chamar de humano delira por aí mundo afora por trás das persianas dos nossos próprios infernos.

Adeilton Lima

terça-feira, 26 de outubro de 2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sábia é a semente que transforma em vida um longo período de silêncio...


Adeilton Lima

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Eu estenderia a noite neste tão precioso intervalo de tempo. Mas me contento em esperar a aurora...


Adeilton Lima

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Poesia

Quero teu olhar se derramando pela rua
Nessa festa
Que seja barulhenta a madrugada 
cheia de luas
Quero a tarde de vermelho
O mesmo verde dessas árvores virgens
O joão-de-barro que partiu
A Juriti saudosa
No raiar do dia
E quando novamente a noite chegar
Quero ficar aqui quietinho
Ouvindo a tua poesia


Adeilton Lima

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Minotauro



Google

Nesta milésima volta
Dentro do labirinto
Eu, minotauro,
Vou juntando minhas partes
Agora serenamente
Num ajuste de contas com o tempo
Amputado de frases óbvias e
Declarações dramáticas
Como um fio que me conduzisse
À minha própria forca
Sem a ajuda do carrasco...
Algo animalesco e humano
Bailará pendurado sob uma chuva de pétalas
Ele, o mais doce e cruel sentimento!

Adeilton Lima

sábado, 18 de setembro de 2010

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um Cão Andaluz


Google

A lâmina perfura o olho!
O cão lambe o líquido
Na cegueira da cratera
Do vulcão...
Agora um grande formigueiro
Na palma da mão aberta
Degolada sobre o gelo.
Luzes que tateiam
Em meio ao que restou dos cílios...
Erupção!

Adeilton Lima

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

OS IPÊS ESTÃO FLORIDOS – RUBEM ALVES

Thoureau, que amava muito a natureza, escreveu que se um homem resolver viver nas matas para gozar o mistério da vida selvagem será considerado pessoa estranha ou talvez louca. Se, ao contrário, se puser a cortar as árvores para transformá-las em dinheiro (muito embora vá deixando a desolação por onde passe), será tido como homem trabalhador e responsável. Lembro-me disso todas as manhãs, pois na minha caminhada para o trabalho passo por um ipê rosa florido. A beleza é tão grande que fico ali parado, olhando sua copa contra o céu azul. E imagino que os outros, encerrados em suas pequenas bolhas metálicas rodantes, em busca de um destino, devem imaginar que não funciono bem.
Gosto dos ipês de forma especial. Questão de afinidade. Alegram-se em fazer as coisas ao contrário. As outras árvores fazem o que é normal - abrem-se para o amor na primavera, quando o clima é ameno e o verão está prá chegar, com seu calor e chuvas. O ipê faz amor justo quando o inverno chega, e a sua copa florida é uma despudorada e triunfante exaltação do cio.
Conheci os ipês na minha infância, em Minas, os pastos queimados pela geada, a poeira subindo das estradas secas e, no meio dos campos, os ipês solitários, colorindo o inverno de alegria. O tempo era diferente, moroso como as vacas que voltam em fim de tarde. As coisas andavam ao ritmo da própria vida, nos seus giros naturais. Mas agora, de repente, esta árvore de outros espaços irrompe no meio do asfalto, interrompe o tempo urbano de semáforos, buzinas e ultrapassagens, e eu tenho de parar ante esta aparição do outro mundo. Como aconteceu com Moisés, que pastoreava os rebanhos do sogro, e viu um arbusto pegando fogo, sem se consumir. Ao se aproximar para ver melhor, ouviu uma voz que dizia: “Tira as sandálias dos teus pés, pois a terra em que pisas é santa”. Acho que não foi sarça ardente. Deve ter sido um ipê florido. De fato, algo arde, sem queimar, não na árvore, mas na alma. E concluo que o escritor sagrado estava certo. Também eu acho sacrilégio chegar perto e pisar as milhares de flores caídas, tão lindas, agonizantes, tendo já cumprido sua vocação de amor.
Mas sei que o espaço urbano pensa diferente. O que é milagre para alguns é canseira para a vassoura de outros. Melhor o cimento limpo que a copa colorida. Lembro-me de um pé de ipê, indefeso, com sua casca cortada a toda volta. Meses depois, estava morto, seco. Mas não importa. O ritual de amor no inverno espalhará sementes pela terra e a vida triunfará sobre a morte, o verde arrebentará o asfalto. A despeito de toda a nossa loucura, os ipês continuam fiéis à sua vocação de beleza, e nos esperarão tranqüilos. Ainda haverá de vir um tempo em que os homens e a natureza conviverão em harmonia.
Agora são os ipês rosa. Depois virão os amarelos. Por fim, os brancos.
Cada um dizendo uma coisa diferente. Três partes de uma brincadeira musical, que certamente teria sido composta por Vivaldi ou Mozart, se tivessem vivido aqui.
Primeiro movimento, “Ipê Rosa”, andante tranqüilo, como o coral de Bach que descreve as ovelhas pastando. Ouve-se o som rural do órgão.
Segundo movimento, “Ipê Amarelo”, rondo vivace, em que os metais, cores parecidas com as do ipê, fazem soar a exuberância da vida.
Terceiro movimento, “Ipê Branco”, moderato, em que os violoncelos falam de paz e esperança. Penso que os ipês são uma metáfora do que poderíamos ser. Seria bom se pudéssemos nos abrir para o amor no inverno...
Corra o risco de ser considerado louco: vá visitar os ipês. E diga-lhes que eles tornam o seu mundo mais belo. Eles nem o ouvirão e não responderão. Estão muito ocupados com o tempo de amar, que é tão curto. Quem sabe acontecerá com você o que aconteceu com Moisés, e sentirá que ali resplandece a glória divina... (Tempus Fugit, pág. 12).






sábado, 11 de setembro de 2010

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Iniciação ao Teatro Através da Poesia

O Teatro Nu


Há teatros e teatros.
De volta a Brasília, um espetáculo de sublime importância, sucesso em 2007. Forte, sensível e belo. Um texto nu e com uma força poética arrasadora, e, sem qualquer exagero, expondo questões cuja profundidade não deixará ileso quem se aventure a ouvi-lo e assisti-lo. Maestria, humanismo, profissionalismo e competência é o que se testemunhará nesse trabalho que retorna em boa hora aos palcos brasilienses.  Dessa vez, no Festival Mulher em Cena, na sala Martins Pena.
Um espetáculo fundamental e necessário. Oportunidade rara!
Sim, você acertou...
Estou falando de A Alma Imoral, encenado por Clarice Niskier sob a supervisão do diretor Amir Hadad, com texto do rabino Nilton Bonder.
O ‘velho’ Grotowski falava dos atores santos e dos atores cortesãos (uma praga hoje em dia). De um teatro que se propõe à reflexão e à investigação do próprio trabalho do ator, do homem e dos mistérios da existência, por um lado, e de um teatro vazio, superficial, mercantilista e mascarado (no sentido negativo e pernicioso do termo), por outro, equivalente ao que hoje podemos definir como “teatro caça-níquel”. Da mesma forma, no entanto, há públicos e públicos para este ou para aquele teatro. Busque-se, portanto, o que cada um julgar merecer.
O fenômeno artístico/teatral se define mesmo é no mágico encontro entre ator e espectador, principalmente quando através dessa experiência se manifesta o sentido do sagrado. Talvez esteja aqui o grande mérito do trabalho de Clarice Niskier. Daí a grandeza e simplicidade de A Alma Imoral, daí sua importância e necessidade para o teatro, seus fazedores e seu público (ou pelo menos para uma parcela do público que vai ao teatro). A atriz ao pisar sobre o palco reverencia esse ofício milenar e deixa clara a consciência do contato com a dimensão do sagrado. Nesse caminho, optou pelo formato narrativo e também do diálogo com o público, o que, de certa forma, nos aproxima e familiariza com as parábolas e passagens bíblicas do texto. Não estamos necessariamente diante de personagens, mas de situações e conceitos constantemente repensados. Aliás, a fronteira entre a atriz e essas mesmas situações/personagens é muito tênue, e seu domínio é visível. Uma pequena aula de como bem dizer um texto em cena, um texto difícil, profundo, no entanto, tornado leve e saboroso pelo trabalho de Clarice. Vale procurar o livro!
 A Alma Imoral é mais uma prova de que teatro não se embala em isopor, em rótulos conceituais da pseudo-transgressão, que se apropria de temáticas da moda sob o disfarce discursivo da quebra de preconceitos e de padrões comportamentais, geralmente apelando ao velho clichê de corpos despidos na cena (grande novidade!). Um teatro no mínimo afetado e preguiçoso que pega carona em temas sérios, esvaziando-os, porém, só para encher o... “cofrinho”... Mas para usar uma expressão do mundo fashion, é apenas uma tendência, que vai e volta num movimento, digamos, masturbatório...
Não. Clarice Niskier não desnuda em vão o seu corpo. O sensacionalismo passa longe desse tablado. A triz não usa nenhum pretexto da moda para ficar nua no palco. A nudez aqui é apenas metáfora que se abre para o desnudamento da alma, cuja roupagem, assim consideremos, passa a ser a discussão em torno dos conceitos de tradição e traição, seja do ponto de vista filosófico, político, religioso ou mesmo artístico, sem qualquer sectarismo. Eis o sentido de um teatro verdadeiramente transgressor e revolucionário.
Em tempo, há espetáculos que podem até lotar maracanãs, porém, continuarão vazios. Porque “ausentes de si mesmos” como diz uma passagem do texto de Bonder numa reflexão sobre o conceito ou conceitos de solidão. Certas igrejas também lotam estádios, ludibriam a boa fé das pessoas e fazem um ‘teatro” de muito mau gosto. Só muda o palco... Dinheirinho fácil...
Clarice Niskier lota por outros méritos. Competência artística e postura ética.
Diante do teatro disfarçado de determinadas tendências religiosas e/ou do “teatrinho malhação” que frequentemente se vêem em cartaz em certos palcos, assistir uma ou várias vezes ao espetáculo A Alma Imoral, é ter a certeza de que você sairá do teatro bem mais leve... Fazer um mergulho na alma às vezes pode ser uma experiência dolorosa e/ou prazerosa, porém necessária, principalmente se estivermos diante de uma grandiosa obra de arte. A Alma Imoral é um espetáculo para ‘se ter à cabeceira’.
Que assim seja sob as bençãos verdadeiras dos deuses budistas, nagôs, muçulmanos, indígenas, protestantes, católicos, judaicos e, claro, teatrais! Evoé! 
Adeilton Lima


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Cena Contemporânea X Virada Cultural

“Palavras! Palavras! Palavras!”
A edição de 2010 do Festival Internacional de Teatro Cena Contemporânea terminou em alto estilo com a presença do Sérvio Goran Bregovic e sua Orquestra para Casamentos e Funerais. Muito legal! Além da programação musical de primeira, bons espetáculos como Till, do Galpão; In on It, de Enrique Diaz; Kabul, da Cia Amok; Abracadabra, de Luiz Päetow; A Carta do Anjo Louco, de Willian Lopes; Memória da Cana, da Cia Os Fofos; Entrepartidas, do Teatro do Concreto e Neva, dos chilenos do Teatro En El Blanco, só para citar os melhores de minha lista particular. É impossível ver tudo!
Essa edição fica marcada pela virada de página de Willian Lopes e seu Anjo Louco que literalmente colocou o teatro brasiliense nas alturas, sugerindo um maior cuidado e atenção da curadoria para a próxima edição em relação aos artistas locais. Merecemos mais espaço, melhores condições, melhores cachês etc. Não devemos nada a quem vem de fora, com todo o respeito! Mas creio que Guilherme Reis e sua equipe saberão rever alguns conceitos e fazer a próxima edição melhor ainda. Acredito que a crítica construtiva possa ser bem recebida e o intuito aqui é apenas contribuir, até porque os movimentos crescem e se solidificam é através do diálogo e não com o que apenas queremos ouvir.
Por outro lado, essa mesma edição acaba nos proporcionando algumas reflexões sobre a qualidade da cultura que queremos para nossa cidade, considerando a inoperância da máquina administrativa governamental, seja com eventos de grande porte, seja com projetos de formação técnica e também de público tão necessários e escassos nesse cerrado que é o nosso mundo!
Em mais um ato de desrespeito, o incompetente Secretário de Cultura, Silvestre Gorgulho, cuja lembrança já vai tarde mesmo que ele continue colado à cadeira, promoveu paralelamente ao Cena a pseudo Virada Cultural de Brasília, imitando a Virada paulista. Chamemos isso de “coincidência”, mas não percamos a oportunidade do aprendizado.
Qual seria a explicação para o fato de que no apagar das luzes de um governo pífio-tampão (no qual para se receber alguma merreca do FAC ou qualquer outro tipo de apoio da Secretaria de Cultura os artistas enfrentam um tremendo calvário) essa mesma Secretaria, via emendas parlamentares ou sei lá o quê, de repente apareça com três milhões de reais para encher os bolsos da indústria cultural do conhecido “jabá” nacional. E ainda tentando atropelar a excelente programação musical do Cena Contemporânea e as apresentações do teatro espanhol (Kabia) na sala Martins Pena. Deram um tiro no próprio pé... O Curioso é que nunca aparece dinheiro para reformar a parte interna das salas do teatro nacional, muito menos para as tão esperadas reformas do Cine Brasília e do Pólo de Cinema e Vídeo, mas para a formação de um verdadeiro curral ou virada do curral, de repente tem grana. 
O que nós queremos para a nossa cidade? Eventos como o Cena ou um curral em que a palavra cultura chafurda na lama da politicagem e do oportunismo?
Já passou da hora de fazermos essa reflexão. Já passou da hora dos artistas dessa cidade, das mais variadas vertentes e linguagens, se unirem no debate sobre a política cultural que desejamos e queremos ver implementada, seja lá quem for que venha a assumir o governo local, em 2011. Já passou da hora de nos organizarmos, aprendermos com os erros do passado, ouvirmos uns aos outros e crescermos juntos porque a arte quando dialoga é uma força bem maior! Já passou da hora de irmos além do cafezinho, da cervejinha e dos ‘tapinhas’ nas costas, às vezes repetindo ações questionáveis muito comuns àquelas políticas tacanhas que dizemos combater.

Adeilton Lima

sábado, 4 de setembro de 2010

Cena Contemporânea 2010 - In on It – Teatro Caleidoscópico


Enrique Diaz é seguramente um dos melhores diretores da cena atual no Brasil. Digo atual porque usar a expressão “contemporânea” seria restringir demais seu trabalho a um conceito bastante questionável e limitador. Teatro é bom quando bom! Óbvio, não?! Aliás, ele próprio, através desse espetáculo, digo, peça de teatro, como se referem jocosamente seus atores/personagens/atores/autores/personagens, brinca com os tais conceitos e clichês do teatro atual. Metateatro da melhor!  A propósito, com essa montagem do excelente texto de Daniel Maclvor, Enrique Diaz coloca às avessas todas as dimensões do teatro, algo que também se pôde verificar nessa edição do Cena no maravilhoso espetáculo Neva, dos Chilenos da Cia Teatro En El Blanco e no inesquecível Abracadabra, de  Luiz Paëtow. Uma feliz coincidência. Aliás, apesar de algumas apostas inexplicáveis como o cubano Não precisa Chorar e o espanhol El Jardin Del Mundo, a curadoria do Festival acabou acertando involuntariamente nessa proposta de espetáculos que desembrulham o próprio teatro e expõem suas vísceras possibilitando-nos entrar no seu útero, como aquele personagem da peça Till, do Grupo Galpão, numa espécie de parto ao contrário.
Se você não viu as duas apresentações de In on It que aconteceram no Festival Cena Contemporânea 2010, não perca essa aula de teatro que voltará à cidade nos dias 1, 2 e 3 de outubro no Teatro da Caixa. Será um sacrilégio perder.
Teatro é jogo e aqui o tabuleiro é a luz. Sobre ele as duas peças, os próprios atores. Um jogo de espelhos fantástico nos coloca dentro das engrenagens da dramaturgia, da direção, da composição, da interpretação. É como se o dramaturgo escrevesse ao mesmo tempo em que faz, experimenta, ou na real vive as situações, cujas dimensões de tempo e espaço se confundem ou se interpenetram de forma proposital. Tudo parece bem encaixado nesse caleidoscópio de palavras perfeito, inclusive quando inventa um falso final só para que nós espectadores lamentemos, até voltarmos a respirar aliviados ao sabermos que a peça não terminou ainda e, que bom, a brincadeira continua. A espiral de espelhos dará mais algumas voltas...
In on It é teatro feito com rigor e simplicidade, e o que é melhor, sem afetação. O complexo se torna simples e vice-versa, aparentemente, é claro. É tão bom que os próprios atores devem se lamentar quando termina, ou melhor, quando pára... Como aquele papo ou aquela brincadeira que vivemos com nossos melhores amigos. O público entra de imediato nesse jogo em que Emílio Mello e Fernando Eiras se divertem e se deliciam interpretando, invertendo e dissecando seus papéis.
In on It é teatro pra se ver várias vezes. O teatro em mim, eu no teatro! 
Deliciosamente por dentro!

Adeilton Lima

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Cena Contemporânea 2010 - Teatro do Concreto – Entrepartidas nas Asas do Desejo

Uma das memórias mais belas de Brasília que guardo é a de quando saí de casa para assistir a Asas do Desejo, de Wim Wenders, lá pelos idos de 87 ou 88, no Cine Brasília. Refiro-me evidentemente a uma outra cidade, já antiga, mesmo com seus cinqüenta anos. Sim, aquele cinema cujo valor sentimental é tão caro para muitos de nós que por lá tantas vezes passamos e que hoje está jogado às traças pela incompetência da politicagem que se instalou no Distrito Federal há alguns anos. Naquele filme, anjos descem dos céus e passam a acompanhar a vida, histórias e sonhos dos seres humanos, lêem seus pensamentos e tentam confortá-los de seus sofrimentos e adversidades. Lá pelas tantas, um deles se apaixona por uma mulher, não por acaso, uma artista, uma trapezista...
Neste trapézio da vida, embarco num início de noite na rodoviária do Plano Piloto, um dos maiores símbolos de apartheid social do mundo, em um micro-ônibus rumo ao desconhecido, numa excursão teatral e humana que não sei bem onde vai dar em meio a esse labirinto de cimento e ferro no qual vivemos. Entrepartidas, espetáculo itinerante da Cia Teatro do Concreto, me transforma, involuntariamente, em um anjo do bem e do mal, um passageiro nesse intervalo de tempo que se abre à minha frente. Saio do cinema para a vida e para o teatro. A partir dali, irei acompanhar os destinos de personagens anônimos tão próximos de nossa realidade nua e crua, como aqueles seres abandonados pela sorte que perambulam pela rodoviária, dormem no chão frio, ou que se drogam. Figuras que jamais tiveram a oportunidade de ver a 'cor' dos carpetes sujos e/ou das poltronas desbotadas das salas do Teatro Nacional logo ali ao lado; ou mesmo sequer sabem de sua existência numa espécie de relação recíproca de abandono.
O espetáculo não tem objetivamente nenhum propósito saudosista e especifico sobre a cidade, até porque é atemporal, mas confesso que logo de saída, ao ouvir uma música da Legião Urbana e depois passar em frente à Escola Parque e ao Espaço Cultural 508, foi para mim particularmente emocionante. De qualquer forma, cada um vai costurando sua colcha de retalhos com a bagagem de vida que traz nos ombros, como os vários personagens que vão surgindo pelo caminho. O que acontece em seguida é um diálogo quase silencioso nessa troca singela de experiências.
Ali, exatamente ali na Escola Parque onde um dia participei de minha primeira oficina de teatro. Do outro lado do rio da memória outras águas correram no que diz respeito aos sentimentos e às relações humanas propostas por essa peça. Qual mesmo o tamanho do palco? E de qual palco queremos falar? O palco é o mundo, a cidade ou tão somente o peito, cujas batidas os anjos ouvem e compreendem. O palco é a vida tão longa e tão curta das linhas de uma carta ou das linhas das palmas das mãos; destinos, desencontros, sonhos e afetos.
Esse olho da fechadura pelo qual passamos a observar o concreto da cidade à nossa volta aos poucos vai se transformando na boca de um vulcão a ponto de explodir a qualquer momento. O concreto se rompe e o humano reaparece. O cortejo segue, adentramos uma casa e a vida de seus personagens, agora, dor e separação. Somos testemunhas, somos os amigos mais próximos, somos cúmplices, talvez porque o grande espelho ali naquele espaço seja unicamente a porta de entrada. O chá de hortelã com alecrim vem em boa hora em meio a tantos desencontros nessa ladeira de melancolia, desejo e solidão. Quem sabe apenas estejamos procurando reencontrar o útero seguro da existência como a moça ansiosa que procura a mãe com uma mala recheada de cartas. A pele da alma são as nossas memórias...
De volta ao ônibus, envolvido por tantas sensações percebo que ao meu lado há um papel colado na janela com algo escrito. Aliás, há papéis colados por todo o interior do ônibus. Lá no início da jornada o motorista havia nos pedido para escrevermos num papel a resposta a uma pergunta: “O que levaríamos conosco se aquela fosse a nossa última viagem?”. Deparei-me, portanto, com a resposta de alguém, outro viajante, agora transformada em recado para mim: “Felicidade”.
Sigo o restante da viagem brindado por essa mensagem, e mais feliz ainda por ter a certeza de que não será a última.
Os anjos cantam! Saio do labirinto revigorado.
Levo para casa os versos de uma linda canção na alma, no coração e na vida.
Sim, ando vendo anjos ultimamente... Bom sinal!

Adeilton Lima
PS: Agora, ouça: http://www.youtube.com/watch?v=y-QZg_VUeSg

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Festival Cena Contemporânea 2010. Abracadabra – Um Anjo Louco na Escuridão














Que sou um crítico pública e abertamente de alguns critérios (ou da ausência de) da curadoria do Cena Contemporânea não é nenhuma novidade. Porém, a edição de 2010, nesta primeira semana e já início da segunda, supera em muito as edições anteriores no quesito qualidade. Espetáculos como Neva, da Cia Teatro en el Blanco (Chile); dos espanhóis do Kabia, com Dizer Chuva e que Chova; Kabul, do Amok (RJ) e Till, do sempre competente Galpão (BH) são exemplos que renderiam boas análises e reflexões sobre o teatro que se faz hoje em alguns lugares. Já a discussão sobre o que é ou não contemporâneo é sempre relativa. Afinal, teatro não se faz com rótulos ou código de barras...  Ou, pelo menos, não deveria...
Além dos citados espetáculos, outros dois, Abracadabra (SP) e A Carta de um Anjo Louco (DF), são ótimos exemplos de propostas ousadas. A Carta... Por sinal, dilacera de vez o status do teatro brasiliense como ‘primo pobre’ no festival ou como mero coadjuvante (sempre questionei o processo seletivo nessa categoria local, enfim), que tem também nesta edição os competentes Teatro do Concreto, Esquadrão da Vida e Michelly Scanzi e Paulo Russo (estes últimos com Ilhar). 
Não há assunto nas rodinhas teatrais mundo afora para dominar mais as discussões sobre teatro atualmente do que o clichê em que se transformou o conceito de “pós-dramático” proposto pelo teórico Hans-Thies-Leman (daqui a alguns dias, a UnB se transformará numa espécie de Meca do teatro onde Leman fará uma palestra, serão muitos os peregrinos ávidos de “pós-dramaticidade”...). E ele não apresenta tal conceito como mais um rótulo, afinal as fronteiras estéticas contemporâneas são bastante tênues, apenas chama a atenção para um fenômeno histórico e estético. Mas como já testemunhamos com o Teatro Pobre, de Jerzy Grotowski ou com a Antropologia Teatral, de Eugenio Barba, só para ficarmos em tendências mais recentes, tudo vira moda e se transforma numa espécie de “shopping de pesquisa teatral”, onde, na verdade, o que menos interessa é a pesquisa propriamente dita, mas tão somente o rótulo: “Eu faço teatro antropológico”, ou, “eu faço teatro pós-dramático”, etc, e blá-blá-blá.
Abracadabra, de Luiz Päetow, de São Paulo, a princípio, pode parecer pretensioso com sua proposta radical de uma espécie de anti-teatro, porém, ao nos aquietarmos na confortável poltrona do teatro, essa impressão logo se dissipa, principalmente, se nos permitirmos a sair do nosso mundinho racional, lógico, matemático e tão recheado de preconceitos. Esse mundo que não suporta uma experiência que tão somente sugere/aconselha outra percepção da vida e também do teatro. Algo similar ao que A Carta de Um Anjo Louco, de William Lopes, de Brasília, também propõe: Mudemos nossa perspectiva! Procuremos outros ângulos de análise, de visão, nada precisa ser necessariamente aristotélico, linear, cartesiano, global ou hollywoodiano, desafiemos as leis da gravidade e da mídia... E saiamos dos modismos e dos clichês sem ter a pretensão de estar “inventando a roda”. Há um mundo lá fora que precisa ser repensado... O grande barato desses dois trabalhos é que os mesmos simplesmente se apresentam como experiências de linguagem sem a pretensão de adotar, se filiar ou inventar nada. Aliás, pertencem eles ao grupo dos inquietos e não acomodados que a história do teatro e da arte de forma geral conhece bem... Talvez por isso mesmo resultem suas propostas tão interessantes. Uma poética cênica feita às avessas no ar ou na escuridão...
Abracadabra é uma grande jogada, um belo drible no público que procura o velho teatro digestivo, com sua luzinha no lugar, com seus atores interpretando personagens seguindo as velhas cartilhas, com uma historinha com início, meio e fim, e uma cortina ao final descendo ou se fechando para aplausos e gritinhos esfuziantes da platéia. Abracadabra tira um grande sarro de nós, espectadores, do início ao fim (?) do espetáculo.
Ao entrar na sala, cada espectador recebe uma lanterna (tive a sorte em não receber, pois pude ficar de olhos fechados) para, digamos, acompanhar o espetáculo. Em meio a uma “trilha sonora” composta de tosses, pigarros, conversas mal-educadas e batidas do assento das cadeiras, de pessoas saindo sem cuidado algum incomodadas com aquele “absurdo”, o ator narra um texto recheado de sonoridades, jogos de palavras, trocadilhos e desconstruções discursivas, numa crítica ácida aos valores políticos, sociais, existenciais e estéticos nos quais vivemos. Padrões vêm abaixo. Ora, o primeiro grande drible é que de imediato a pessoa acenderá aquela lanterna (da mesma forma como freqüentemente ligam e verificam num gesto ridículo seus celulares ao longo de uma peça). Torna-se inquietante não ver nada... Uma sensação claustrofóbica de prisão. No entanto, a proposta é exatamente essa: Ouvir... Que tal não ligar a lanterna? Ouvir e imaginar, se permitir a isso apenas. Ao invés da imagem, o imaginário! Da mesma forma como o burocrata que se despe (ou se joga, ou é jogado das alturas) na Carta de um Anjo Louco. Despir (se)! Essa é palavra na ponte entre esses dois espetáculos. Despir-se e transformar-se!
Esse tipo de espetáculo, Abracadabra, em que a luz dispersa a atenção, ela, a luz, é totalmente desnecessária, como uma coadjuvante sem qualquer importância na construção narrativa e não-narrativa. (Anti) Narrativa essa que se elabora nos níveis sinestésico, lingüístico, semântico e imagético de nossa percepção.
A única contradição da proposta talvez seja a de que em determinado momento o público é avisado pela produção que o espetáculo já terminou... Não seria melhor vencê-lo pelo cansaço com o ator dizendo o texto até que a última pessoa se levantasse e saísse? Ora, se nos lançamos a um desafio radical, temos que encarar as conseqüências, não? Avisar talvez seja um caminho mais fácil.
Nos momentos digamos finais, o texto indaga sobre se quem fez os primeiros teatros não pensou na possibilidade tão somente da audição... Por que a necessidade do “ser-vício” da luz? Talvez porque antes quando as pessoas iam a um teatro era para ouvir mesmo...
Estamos dentro de uma caverna platônica e, desesperadamente, esperamos pelo resgate da luz exterior, cuja razão palpável e palatável da vida social venha nos restituir a glória.
No entanto, numa espécie de escavação profunda, o diamante mais precioso pode ser a experiência de encontrarmos, suportarmos e compreendermos nossa própria escuridão.
Abracadabra! Diria, talvez, O Anjo Louco em sua carta!
O melhor é encarar sem medo essa espécie de ensaio sobre a escuridão num vôo sem asas ao encontro da luz! A palavra mágica passa a ser acordar!
Rica experiência!

Adeilton Lima

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Liberdade

A necessidade do discurso excessivo e repetitivo que muitas pessoas têm de fazer sobre a liberdade, a meu ver, embaça a prática da mesma, tornando a pessoa prisioneira desse mesmo discurso, e a liberdade propriamente dita, acabando como algo inalcançável. No fundo, há aí um medo terrível de ser livre!

Adeilton Lima

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Mensagem

            Venho de longe. Habito uma região labiríntica que só agora começo a desvendar. Falo-te através de uma fresta, talvez uma porta, quem sabe, a saída...           
            Meu cicerone sucumbiu. Apenas o instinto me move. Sobrevivo. Cambaleante, minha consciência mira os passos do tempo, enquanto as pernas afundam nas areias tempestuosas do deserto de uma ampulheta. A respiração, ofegante, captura ainda um pouco de oxigênio. Desespero-me. Atlas berra, grita, explode. Resisto à guerra...
            Súbito, vejo-me diante de minha própria imagem. Um espelho, talvez; no entanto não sei de que lado estou. Não sei se é realidade, miragem, pesadelo. A tempestade aumenta... Há um lago de água cristalina rodeado por fogo. Minha imagem faz-me um aceno, mas creio ter sido eu a acenar para ela. Flutuando sobre as águas, uma mulher envolta em véus diáfanos que se embriagam com o ritmo do vento. Seu corpo dança num ritual de magia e ancestralidade. Suas formas entregam-se ao encanto de uma música que parece vir do fundo do lago, como que produzida por alguma divindade. Grãos de areia deslizam pelo meu rosto. A dança evolui num frenesi de gestos enquanto a distância entre nós diminui. Já consigo ver seus cabelos longos, negros; seus olhos grandes, enigmáticos; sua boca e seu sorriso a ocultar segredos. Tento falar-lhe, mas ela se afasta. Aproximo-me um pouco mais e ela apenas sorri; tento tocar-lhe, mas já não está tão perto. Vai distanciando-se até transformar-se numa lembrança. Sobre as águas ficaram suas pegadas...
            Ergo-me. Começo assim a redigir esta mensagem. Dentro de uma garrafa será conduzida pelo vento e pelos grãos de areia deste deserto. Atravessará dimensões até cruzar novamente no tempo com o espectro radiante da dançarina que acompanha os carros do sol e se mostra ao delírio dos viajantes que exploram as profundezas da alma.

Adeilton Lima

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Vício

O ócio da pele
No vício da carne
A saliva escorrendo
No bico do seio...
A língua pousando
No umbigo da deusa.
Dedos trêmulos
Nervos tesos
E a labareda atrás do pescoço
Descendo pelo veio da espinha
Como se houvesse um lá fora...

Adeilton Lima

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Vanusa é o Cazuza da Vez!

Na velha arena romana ao virar o polegar para baixo o imperador e a sociedade liquidavam o gladiador que perdia a luta; ou ele era morto pelo adversário, ou era jogado às feras.
O meio artístico é uma arena cruel! E às vezes a punhalada vem pelas costas mesmo.
Já há algum tempo, desde que esqueceu a letra do hino nacional brasileiro, numa luta dolorosa para não sair de cena, a cantora Vanusa, que já esteve em evidência nos anos 70, e agora abandonada pelos próprios pares como um Simonal acusado de traição, vem sendo alvo de chacotas, reportagens maldosas e de uma execração pública que nos lembra a capa da revista Veja de 1989, quando Cazuza era exposto como um desgraçado que agonizava em praça pública por ser portador do vírus da Aids.
Recentemente, Vanusa voltou a esquecer e a confundir letras de músicas que muitas vezes interpretou ao longo de sua carreira. Virou piada na internet. Não estaria ela com problemas de saúde e/ou passando por dificuldades? Não estaria essa artista precisando de ajuda? É ética essa postura de uma parcela da imprensa, setores da mídia e até mesmo do meio artístico tirando o escalpo dessa mulher que, independente de gostos ou tendências musicais, teve lá o seu momento e deu sua contribuição a uma vertente da MPB? Por que esse escárnio em torno de Vanusa?
Claro. Vanusa é alvo daquela visão estúpida do “quanto pior, melhor”, “antes ela do que eu!”, etc. O mesmo escárnio que desafia o suicida a se jogar de um prédio. Um traço da nossa sociedade que “unida” canta o hino nacional tropeçando na letra antes dos jogos da seleção brasileira e depois esquece de novo... Voltando à violência cotidiana. Vanusa nada mais é que uma imagem no mesmo espelho dos que a execram. Ora, o desgraçado é sempre o outro... Ou seja, reflexo do preconceito e da hipocrisia, aquele que inevitavelmente une agora Vanusa e Cazuza na arena pública da crueldade e da falta de respeito, onde a desgraça do outro resulta em prazer como um espetáculo bisonho de um circo medieval.

Adeilton Lima