terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Na Veia

Dos meus olhos inchados de passeatas
Das cervejas rebeladas dentro dos copos
Da caminhada oblíqua sobre a calçada
Da vida que se desdobra sem esquinas
Numa reta nua para o abismo

Há um martelo degolado sobre a mesa
Há uma foice sangrando, dúbia, débil, pífia
Há uma prostituta sorrindo seus cachês
Por entre os seios fartos dos palácios
Capitais
Quintais
Quiçá
Cu do mundo

O garoto terrorista, malabarista dos semáforos
A cola não para trabalhos escolares
A viagem sem bailarinas, sem palhaços
O odor das fezes
Dos cães ou dos ratos tanto faz

Cuspo o fogo dessa veia inquieta
Desse circo de horrores das alcovas
Onde o asno banca o sábio
E todos dizem amém

Se teu olho não enxerga
Os calos do trabalho
Acorda!
Sai pra vida, vem pra briga
Não vacila, não cochila
Já curraram a tua moral!

Na tribuna ou nos altares
Na oração dos bolsos
Puída a roupa do demônio
Resiste ao exorcismo
Que te leva o último níquel

De líderes bastardos
Atolados em almofadas
Disfarçados em alfândegas
De subalternos, reles, teles
Das estatais

O escárnio sorriso
De uma máscara carnívora
Cujos dedos decepados
Rogam a Deus enquanto
Dão adeus ao suor das máquinas

Onde multidões acenaram
Nos portos da memória
Sobre as tumbas dos que lutaram

O oceano agora vazio
Da tua fala
Revela o náufrago sufrágio
De bandeiras que desbotam
De estrelas que enferrujam

Dessa enxada que roça a terra
Planto o trigo da infância
Desses calos doloridos
Faço bolhas de sabão

Nesta garganta doravante
Apenas a certeza do grito
E do pão que agora levo à boca

Adeilton Lima

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