quinta-feira, 2 de abril de 2009

O Réptil

Sob a relva o réptil
Rumina
O dia anterior
(ato sub-reptício)
Preparando o seu veneno.
Cio.
Aquece agora a língua
Em amplidões calorosas de horizontes suspensos
Em meio aos odores das folhas úmidas.
Há calcanhares de aquiles à deriva
Tragando a seiva hedionda do dia.
No corpo da terra lambida e parida
Jaz o movimento horizontal e oblíquo. Jazz!
Sobre o réptil pairam vôos espectrais
Migrando para o berço ou para o túmulo
(tanto faz) de poetas
Envenenados pela vida,
Com as presas ainda cravadas no peito
Escorrendo sentimentos débeis.
Mas o réptil a tudo ignora.
Na nódoa cambaleante das horas,
Ignora o desejo dos pássaros
Ignora a delicadeza da flor
Ignora o salto do anfíbio
Ignora também a força do leão
E o olhar mais profundo da coruja.
Nas escamas de sua fortaleza
Sob o corpo enrugado do orvalho
O réptil produz seu veneno
(gotas que se misturam)
Pois há um dia a cumprir
Uma vida a ceifar
No seu linguajar lascivo
E fatal.
A soberbia sinuosa do movimento
Que se eleva como ondas sobre o mar seco do matagal
Guelras no campo de batalha
Onde tubarões famintos também tentam saciar a fome.
O réptil em seu sono febril
Tem pesadelos de nuvens no colo cru da areia quente
Na relva amarga dessas folhas mortas e
No sangue frio dessa tinta que agora escorre
Pelo canino imperdoável
De minha caneta.

Adeilton Lima

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