sábado, 26 de dezembro de 2009

Eu prefiro a pele fina das palavras
onde as veias dos sentidos
conduzem o sangue azul do sacrifício
para o profundo oceano do que não foi revelado
Eu prefiro a lâmina da sinceridade
ao dissimulado murmúrio dos esconderijos
do ponto mais alto a águia mira a presa
enquanto nos espaços o ar brota renovado
Eu prefiro a beira de um precipício
a navegar passivo entre olhares desesperados
que do amor correm como loucos
temendo a luz do dia renovada
Eu desejo os teus beijos pela madrugada
sussurros, odores, delírios
água doce no veio das palavras

Adeilton Lima

domingo, 20 de dezembro de 2009

A Vida é Leve!

Os Melhores do Mundo e Udi Grudi

A Vida é Leve!

A última vez em que assisti a um espetáculo d’Os Melhores do Mundo, eles ainda se chamavam A Culpa é da Mãe. Fui ver Dingo Béus. Já sabemos o que aconteceu com essa turma, ganharam mesmo o mundo e hoje fazem a festa nos teatros por onde passam. Já fui crítico dessa forma de teatro, de achá-lo pouco compromissado com o trabalho de ator etc... Mas há teatros e teatros e essa moçada não tem que ficar dando muita trela pro meu Grotowski, não. A história deles é outra. E não vai aqui qualquer tipo de censura. Fazem um outro teatro, só isso, nem melhor nem pior que qualquer outra escola, mas o teatro deles, com alegria e qualidade.
A principal ferramenta que move e sustenta o trabalho dessa moçada é exatamente a competência e a inteligência na elaboração das cenas/charges e caricaturas que fazem da vida. Nada de pejorativo no que afirmo. O que funciona ali se chama conjunto. O que Os Melhores do Mundo fazem com maestria em cena são tirinhas de humor da melhor qualidade nas quais poderíamos encontrar diálogo nos trabalhos de Laerte, Angeli, Fernando Gonsales e tantos outros do mesmo universo. A ironia, a crueldade, a crítica corrosiva e o até o humor superficial, sim, e por que não? Tá tudo lá. Não perdem a oportunidade de atualizar seus quadros com acontecimentos recentes da vida política brasileira e local, material farto e diário. O público de imediato se identifica e, como se estivéssemos todos numa mesa de bar, contando e ouvindo piadas, ficamos logo à vontade, deixando o tempo passar com o riso de ponta a ponta.
Já o Udi Grudi, em seus 25 anos de história, faz magia com os espetáculos O Cano e Ovo, encantando crianças e adultos. Com eles, pegamos carona num trenzinho caipira cujo maquinista se chama Villa-Lobos. Como diz Manoel de Barros, tudo que for para o lixo, serve para a poesia. Pois esse grupo de palhaços está atento a essa percepção do mundo, lembrando-nos inclusive, que o mau-humor é o lixo da alma, e que o melhor mesmo é alimentar a criança que vive em cada um de nós, sorrindo, gargalhando, como pude perceber num atento espectador de cinco anos que estava ao meu lado. A mensagem de o Cano é ampla e recheada de poesia. Precisamos cuidar do meio ambiente, do corpo e da alma, vendo o mundo com mais leveza e respeitando a vida.
A visão lúdica do mundo e da vida que pulsa à nossa volta é o trilho comum na trajetória desses dois trabalhos tão diferentes. Cada um no seu caminho. Dois meninos traquinas pulando muros e subindo em árvores, e rindo de tudo. E dois grupos que representam duas vertentes do bom teatro produzido em Brasília.
Adeilton Lima

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Poemas Noturnos

Um poema lambe a noite
Nas frases de uma notícia qualquer
De jornal sobre o rosto do louco
Dormindo na calçada

Palavras desconexas de sonhos
No abajur de letras e estrelas
Vão se formando
Enquanto bêbados cantam
Na outra esquina
Como se vissem
Discos voadores

Sons de copos
Trilham a virada das horas
E sopram cacos para
O dia seguinte

Mas ainda há seios na madrugada.

Os poemas noturnos são
Meteoros riscando a pele
E rasgando a alma...


Adeilton Lima

Na Veia

Dos meus olhos inchados de passeatas
Das cervejas rebeladas dentro dos copos
Da caminhada oblíqua sobre a calçada
Da vida que se desdobra sem esquinas
Numa reta nua para o abismo

Há um martelo degolado sobre a mesa
Há uma foice sangrando, dúbia, débil, pífia
Há uma prostituta sorrindo seus cachês
Por entre os seios fartos dos palácios
Capitais
Quintais
Quiçá
Cu do mundo

O garoto terrorista, malabarista dos semáforos
A cola não para trabalhos escolares
A viagem sem bailarinas, sem palhaços
O odor das fezes
Dos cães ou dos ratos tanto faz

Cuspo o fogo dessa veia inquieta
Desse circo de horrores das alcovas
Onde o asno banca o sábio
E todos dizem amém

Se teu olho não enxerga
Os calos do trabalho
Acorda!
Sai pra vida, vem pra briga
Não vacila, não cochila
Já curraram a tua moral!

Na tribuna ou nos altares
Na oração dos bolsos
Puída a roupa do demônio
Resiste ao exorcismo
Que te leva o último níquel

De líderes bastardos
Atolados em almofadas
Disfarçados em alfândegas
De subalternos, reles, teles
Das estatais

O escárnio sorriso
De uma máscara carnívora
Cujos dedos decepados
Rogam a Deus enquanto
Dão adeus ao suor das máquinas

Onde multidões acenaram
Nos portos da memória
Sobre as tumbas dos que lutaram

O oceano agora vazio
Da tua fala
Revela o náufrago sufrágio
De bandeiras que desbotam
De estrelas que enferrujam

Dessa enxada que roça a terra
Planto o trigo da infância
Desses calos doloridos
Faço bolhas de sabão

Nesta garganta doravante
Apenas a certeza do grito
E do pão que agora levo à boca

Adeilton Lima

domingo, 26 de abril de 2009

Esmo

Vai a esmo
Sem medo que
Outra
Ponta de destino
Te atropele e
Fure teus ouvidos com a luz
Lentamente...
Caminha
Assim
No meio do redemoinho
Dos acasos
Deixa que agulhas
Acendam tua língua
Ou tatuem tuas palavras
Num tecido qualquer de tempo
Vai a esmo
Sem bússolas
No tato vesgo dessa reta
Sem chegada

Procura
Procura
Procura

Adeilton Lima

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O Réptil

Sob a relva o réptil
Rumina
O dia anterior
(ato sub-reptício)
Preparando o seu veneno.
Cio.
Aquece agora a língua
Em amplidões calorosas de horizontes suspensos
Em meio aos odores das folhas úmidas.
Há calcanhares de aquiles à deriva
Tragando a seiva hedionda do dia.
No corpo da terra lambida e parida
Jaz o movimento horizontal e oblíquo. Jazz!
Sobre o réptil pairam vôos espectrais
Migrando para o berço ou para o túmulo
(tanto faz) de poetas
Envenenados pela vida,
Com as presas ainda cravadas no peito
Escorrendo sentimentos débeis.
Mas o réptil a tudo ignora.
Na nódoa cambaleante das horas,
Ignora o desejo dos pássaros
Ignora a delicadeza da flor
Ignora o salto do anfíbio
Ignora também a força do leão
E o olhar mais profundo da coruja.
Nas escamas de sua fortaleza
Sob o corpo enrugado do orvalho
O réptil produz seu veneno
(gotas que se misturam)
Pois há um dia a cumprir
Uma vida a ceifar
No seu linguajar lascivo
E fatal.
A soberbia sinuosa do movimento
Que se eleva como ondas sobre o mar seco do matagal
Guelras no campo de batalha
Onde tubarões famintos também tentam saciar a fome.
O réptil em seu sono febril
Tem pesadelos de nuvens no colo cru da areia quente
Na relva amarga dessas folhas mortas e
No sangue frio dessa tinta que agora escorre
Pelo canino imperdoável
De minha caneta.

Adeilton Lima

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

As teclas do piano imaginário sob os dedos
A música nos vãos da alma
Asa aberta cheia de abismos
Um uivo ao longe rasgando uma garganta

A natureza esquiva de um réptil
Sob as folhas de uma tarde cinza
Um chocalho na percussão precisa do ataque
Pássaros fugidios espalhados pelo ar

E veio uma chuva
Torrente de veneno

A presa alva como um teclado
O alvo preso sem chances, sem saída
Na relva surda de um corpo

Adeilton Lima

Oxidante

Caninos amarelados
À espera do pigarro amante
Por entre os dedos
O odor vulgar do falo
Bolinando uma respiração repleta de varizes
Agora um trago, uma baforada
As horas infinitamente quentes
Rasgando o peito
Preparando a tosse
Como um vulcão em êxtase
Pronto a jorrar penitências
Desejos, taras, dependências
Diante de uma boca voraz
A consumir somente cinzas

Adeilton Lima