sábado, 29 de novembro de 2008

Cratera

Se na cratera do olho ao menos
Se pronunciasse uma gota de luz
E eu pudesse encontrar talvez
Aquela velha lágrima
Não do adeus
Mas do primeiro encontro
Se ainda restos de palavras
Mesmo trituradas, sussurradas
Nas curvas sem exceção
De uma noite ou de um dia qualquer
Ou se na esfera doce do teu seio
Se avermelhasse a tarde só para mim
Quem sabe eu não cuspisse agora
o fogo desse momento
Invadido por sombras nuas
A se estender pelos corredores
e arredores de frases
Sangradas, balbuciadas e jogadas ao chão
Como numa luta
Que chegasse ao fim...

Adeilton Lima

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Rebatendo o porre da vida
Entorno a minha cachaça
Calçada e lua, puta e rua
(Ah, esse lugar comum de caos
E poesia)
Beijo o chão ou tapo o sol
com a peneira dos trapos
Escorridos noite adentro
No caminho de virilhas sãs
E ofereço a ponta do dedo
Já molhado de saliva, erguido, teso
No falo das horas trôpegas
Onde se lambe a fumaça
Onde se encontra a desgraça
Pirracenta dos velhos atos.
Cactos fazendo cócegas
Na fedentina das axilas
A missa que sangra os ouvidos
Muito além do coro das rezas
Do sufoco e dos calos nas mãos
O amém das aves murmurando vôos
Sobre as cabeças atéias entre teias e
Colméias cheias de sapos
No lume pantanoso dos insetos.
Carcaça, carapaça e trapaça
Na ressaca soberba
De almas perdidas
E noites selvagens!

Adeilton Lima