quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Aurora

“A arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade.
É preciso mentir para ser verdadeiro.” (Pablo Picasso)


Aurora era uma prostituta jovem e bela.
Sim, conheci Aurora no crepúsculo e todas as cores dos seus sonhos.
Ela costumava dizer que não era como as outras moças do prostíbulo, pois morava com a família e ainda dava satisfações aos pais. Vivia cercada por uma tia sexagenária que sofria de pudores e orgasmos interrompidos, obcecada em preservá-la dos perigos do mundo. Dava-lhe tudo que podia, como se assim pudesse sugar um pouco daquela juventude que transpirava prazeres inaudíveis.
Mal sabia ela das madrugadas de Aurora.
Aurora queria ser atriz, viver outras vidas, ser outras pessoas, mergulhar noutros mundos. Sozinha, no quarto, fazia-de-conta. Era talvez o desejo inconsciente de assumir-se, de romper com tudo aquilo que a oprimia. Queria ver-se livre da castração da família, daquele pesadelo na noite infindável. Interpretava em seu palco imaginário uma Capitu sem dissimulações, uma Maria Madalena sem arrependimentos, uma Diadorim despida.
Eram muitos os amantes de Aurora. Jovens, velhos, belos, intelectuais, loucos, sonhadores, casados, e também os comuns, aqueles tipos com que muitas famílias sonham em casar suas filhas in dominio patris. Aurora às vezes via-se num belo vestido branco com uma grinalda repleta de estrelas. Em meio ao idílio, Aurora atendia a todos com a mesma paciência de um entardecer.
Aurora gostava de bonecas, isso satisfazia não apenas as suas fantasias, como alimentava o olhar ingênuo dos que a cercavam. Aurora contracenava com as bonecas, as bonecas eram as suas companheiras de brincadeiras, de batalha, e de vida.
A primeira vez que vi Aurora foi num sonho. Era um teatro imenso e luxuoso e apenas nós dois ali estávamos. Ela no palco, eu na platéia. Aos poucos ela ia despindo-se do texto que dizia, revelando verdades que só o teatro tem a capacidade de mostrar. Era como se interpretasse a si própria. Todos os refletores iluminavam seu rosto como mil sóis estuprando uma manhã. Acho que pude ver sua alma. A vi novamente noutros sonhos e cheguei a tocá-la. Disse-me coisas ao ouvido que só a noite bêbada poderia traduzir.
Aurora anda por aí, parindo céus vermelhos e chorando orvalhos. Fugindo de sua própria imagem no meio da noite, de sua própria história contida atrás da máscara.
Aurora, inocente Aurora. Nem mesmo nascera e já era madrugada.


Este conto é dedicado ao cliente mais assíduo de Aurora, Nelson Rodrigues.
Eu sei, eu vi, eu era o cafetão.


Adeilton Lima
Revista Cult - 2004

Um comentário:

ausente amanda galvao disse...

Gostei muito do se texto, fiquei emocionada! Eu interpretei a Aurora e esse texto me diz muito. Publicarei no meu tumblr.