sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A Atriz

­­
Já era noite quando chegou em casa. Mais um dia! A vida engolindo a selva que engolia a vida. Sentiu os calos que à meia-sola surravam-lhe todos os sentidos. Conferiu cada uma das fotos como num ritual sem reza. Cada uma, como se fosse única. Uma fama congelada no tempo, no tempo apenas daquela foto. As estrelas, os astros, o universo. O ator principal da novela das oito. A atriz coadjuvante. Figurantes, não. Seus porta-retratos não tinham espaço para anônimos. Seus porta-retratos eram mais que isso, eram porta-sonhos.
Haveria de protagonizar, esse era o verbo.
E aquela atriz novinha paparicada pelo diretor não lhe roubaria o papel. Se necessário fosse daria um jeitinho. Afinal, sua performance na cama extrapolava qualquer roteiro de telenovela, com posições impróprias para o horário nobre evidentemente. Mas o tempo passava, e já não lhe paravam mais na rua, não lhe pediam autógrafos, não a reconheciam!
Na manhã seguinte, como se estivesse em crise de abstinência conferiu novamente cada uma das fotos. Portas, paredes e até geladeira. Registros de instantes que não representaram nada, a não ser a demonstração de incômodo pelo artista abordado. De qualquer modo, quem visse aquela foto juraria que ela era íntima daquele artista, daquela pessoa, daquela alma. Mas que importância isso tinha? O que importava mesmo era manter essa aparência que disfarçava o abismo no qual vivia. Precisava mostrar para todos que ela era importante, e que para isso não mediria esforços.
No entanto, quando ouviu a declaração de que o papel não seria seu, titubeou nos saltos.
E os autógrafos sonhados? E as abordagens na rua? E os fotógrafos? E a tal ilha? (?).
O mais curioso é que no exato instante em que saía da emissora, viu passar o galã. E como se naquele momento ensaiassem a cena mais importante da novela, perguntou-lhe:
- Você poderia tirar uma foto comigo?

Adeilton Lima

Um comentário:

Esperando Godot... disse...

Gostei...muito interessante!