quarta-feira, 24 de setembro de 2008

domingo, 21 de setembro de 2008

A palavra pimenta queimando
Entre os lábios
Faiscando na garganta
Como ciscos no olho soprando calor
Num piscar veloz de vulcões
O vermelho nas bordas da visão
Latejando, latejando, latejando...
A vida arde!

Adeilton Lima

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A Atriz

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Já era noite quando chegou em casa. Mais um dia! A vida engolindo a selva que engolia a vida. Sentiu os calos que à meia-sola surravam-lhe todos os sentidos. Conferiu cada uma das fotos como num ritual sem reza. Cada uma, como se fosse única. Uma fama congelada no tempo, no tempo apenas daquela foto. As estrelas, os astros, o universo. O ator principal da novela das oito. A atriz coadjuvante. Figurantes, não. Seus porta-retratos não tinham espaço para anônimos. Seus porta-retratos eram mais que isso, eram porta-sonhos.
Haveria de protagonizar, esse era o verbo.
E aquela atriz novinha paparicada pelo diretor não lhe roubaria o papel. Se necessário fosse daria um jeitinho. Afinal, sua performance na cama extrapolava qualquer roteiro de telenovela, com posições impróprias para o horário nobre evidentemente. Mas o tempo passava, e já não lhe paravam mais na rua, não lhe pediam autógrafos, não a reconheciam!
Na manhã seguinte, como se estivesse em crise de abstinência conferiu novamente cada uma das fotos. Portas, paredes e até geladeira. Registros de instantes que não representaram nada, a não ser a demonstração de incômodo pelo artista abordado. De qualquer modo, quem visse aquela foto juraria que ela era íntima daquele artista, daquela pessoa, daquela alma. Mas que importância isso tinha? O que importava mesmo era manter essa aparência que disfarçava o abismo no qual vivia. Precisava mostrar para todos que ela era importante, e que para isso não mediria esforços.
No entanto, quando ouviu a declaração de que o papel não seria seu, titubeou nos saltos.
E os autógrafos sonhados? E as abordagens na rua? E os fotógrafos? E a tal ilha? (?).
O mais curioso é que no exato instante em que saía da emissora, viu passar o galã. E como se naquele momento ensaiassem a cena mais importante da novela, perguntou-lhe:
- Você poderia tirar uma foto comigo?

Adeilton Lima

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Uma serpente lambe meus ouvidos
Como a guitarra de um rock progressivo
Estou só na escuridão do quarto há dias
Papai diz que é masturbação...
Mas eu acho que no fundo
O velho andou tomando ácido
Sua voz ecoa
Nas ruínas de Pompéia.
Adeilton Lima

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Incrível Look

Um piercing verde
Contorcendo-se no centro
Da gigantesca língua...
Eis o incrível look!

Adeilton lima

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Aurora

“A arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade.
É preciso mentir para ser verdadeiro.” (Pablo Picasso)


Aurora era uma prostituta jovem e bela.
Sim, conheci Aurora no crepúsculo e todas as cores dos seus sonhos.
Ela costumava dizer que não era como as outras moças do prostíbulo, pois morava com a família e ainda dava satisfações aos pais. Vivia cercada por uma tia sexagenária que sofria de pudores e orgasmos interrompidos, obcecada em preservá-la dos perigos do mundo. Dava-lhe tudo que podia, como se assim pudesse sugar um pouco daquela juventude que transpirava prazeres inaudíveis.
Mal sabia ela das madrugadas de Aurora.
Aurora queria ser atriz, viver outras vidas, ser outras pessoas, mergulhar noutros mundos. Sozinha, no quarto, fazia-de-conta. Era talvez o desejo inconsciente de assumir-se, de romper com tudo aquilo que a oprimia. Queria ver-se livre da castração da família, daquele pesadelo na noite infindável. Interpretava em seu palco imaginário uma Capitu sem dissimulações, uma Maria Madalena sem arrependimentos, uma Diadorim despida.
Eram muitos os amantes de Aurora. Jovens, velhos, belos, intelectuais, loucos, sonhadores, casados, e também os comuns, aqueles tipos com que muitas famílias sonham em casar suas filhas in dominio patris. Aurora às vezes via-se num belo vestido branco com uma grinalda repleta de estrelas. Em meio ao idílio, Aurora atendia a todos com a mesma paciência de um entardecer.
Aurora gostava de bonecas, isso satisfazia não apenas as suas fantasias, como alimentava o olhar ingênuo dos que a cercavam. Aurora contracenava com as bonecas, as bonecas eram as suas companheiras de brincadeiras, de batalha, e de vida.
A primeira vez que vi Aurora foi num sonho. Era um teatro imenso e luxuoso e apenas nós dois ali estávamos. Ela no palco, eu na platéia. Aos poucos ela ia despindo-se do texto que dizia, revelando verdades que só o teatro tem a capacidade de mostrar. Era como se interpretasse a si própria. Todos os refletores iluminavam seu rosto como mil sóis estuprando uma manhã. Acho que pude ver sua alma. A vi novamente noutros sonhos e cheguei a tocá-la. Disse-me coisas ao ouvido que só a noite bêbada poderia traduzir.
Aurora anda por aí, parindo céus vermelhos e chorando orvalhos. Fugindo de sua própria imagem no meio da noite, de sua própria história contida atrás da máscara.
Aurora, inocente Aurora. Nem mesmo nascera e já era madrugada.


Este conto é dedicado ao cliente mais assíduo de Aurora, Nelson Rodrigues.
Eu sei, eu vi, eu era o cafetão.


Adeilton Lima
Revista Cult - 2004