terça-feira, 1 de abril de 2008

A Língua

(a partir do poema Censura, do Eiliko)

Ainda havia um resto de sarcasmo naqueles lábios...
Porém, a morte não aliviara qualquer gota de embriaguez. Mordeu-lhe secamente o crânio como quem apenas contasse um segredo ou proferisse uma sentença irremediável. Ouviram-se os sorrisos das lâminas já distantes. Agora, ali, sobre uma mesa e rodeado por quatro grandes velas, o corpo aguardava o momento em que daria início a um novo ciclo, o da putrefação. Mal sabiam todas aquelas pessoas que nem tudo ceifara... E que por trás daqueles lábios, ali dentro, um fiasco de vida ainda resistia: A língua. Como uma enguia, contorcia-se febril no que restava de boca, de lábios, de gengivas, de dentes, vislumbrando apenas a escuridão profunda que dava para a garganta. E aqui se via o horror. Palavras talvez esquecidas, fissuras de maldições, de murmúrios e de desejos, quiçá alguma dose de orgasmo e felicidade deslizando em restos de saliva pelas paredes. Estava ali a língua no solo de uma prisão à beira do nada quase sendo tragada por um redemoinho que atravessava o esôfago. O tempo passava e era iminente o seu fim. O calor dos gases que jaziam no estômago ainda lhe permitia algum hálito, no entanto, sem absolvição, o que tornava tudo ainda mais doloroso. A hora avançava e o desespero também. Precisava decidir rápido, pois sabia que o desfecho estava próximo. Revelaria o segredo? Trairia o cadáver? Romperia o pacto de toda uma vida?
O padre, uma missa, as exéquias. Um grito, um alarido, um choro. Alguns passos, umas breves palavras e a ordem. Que fosse colocada a tampa do caixão.
Uma cena terrível foi o que se testemunhou em seguida. A língua, como se vomitasse a si própria saltou das garras da morte e pronunciando palavras indecifráveis beijou a face do morto, tombando em seguida como um corpo náufrago trazido pela maré.

Adeilton Lima