segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Gostosa

A barata na boca da garrafa
A garganta da garrafa nas antenas da barata
Como os caninos de um vampiro
Prontos a sugar todo o líquido...
um túnel repleto de enguias e clarões ao fundo
fumegando sentinelas
O contorcer-se da existência
num corpo febril, louco, desvairado
Gargalos, garras, gargalhadas
Uma pele de vidro sem reflexos
Quase aos cacos
Com cara ainda de noite
A barata lambe a presa
Como se fosse a própria cria
Tudo úmido
Ah, esse líquido amarelado!
Talvez mais gelado
Do que a gostosa... E estúpida cerveja...
Gargarejos e(s)coando...
Mas ali resta um balcão
E um deserto de mesas e cadeiras.
Ouve-se uma voz talvez num tom suave:
Garçom! Desce uma!

Adeilton Lima

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

O Menino e a Árvore

Agora tudo é imagem
Nas águas do rio
correndo na memória.
Matinê de domingo
Ruas, ruelas e becos
das cidades do interior
Aqui dentro, lá fora...
A imagem da infância
A imagem da velhice
A imagem-Ser
O tempo ágil das formigas
dos sapos, das lagartixas
e dos caramujos
O som de um gramofone
no alto de uma árvore
esculpindo pássaros
Pedras e flores
O avô-árvore da floresta
O homem no sonho das águas
reencontrando o menino
Terceira margem
Trapézios sobre o entardecer
Talvez no dorso de um jabuti
mergulho e vôo
No imaginário
Agora tudo é alma!

Adeilton Lima

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Quero teu olhar se derramando pela rua
Nessa festa
Que seja barulhenta a madrugada
Cheia de luas
Quero a tarde de vermelho
O mesmo verde dessas árvores virgens
O joão-de-barro que partiu
A juriti saudosa
No raiar do dia
E quando novamente a noite chegar
Quero ficar aqui quietinho
Ouvindo a tua poesia

Adeilton Lima

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O Rio

"Não tenho pressa. Na mata, a pressa é inútil. A cidade me entonteia, o rio me liberteia".
Luís Gomes (Ribeirinho de 60 anos que vive no coração da Amazônia).