quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Fala

Já perdi a fala
Já caí no lixo
Já morri na sala
Já mordi o osso

No pescoço
Roí o caroço
Pomo de Adão
Tudo destroçado
Tudo carcomido

Já gritei teu nome
Dentro do meu ventre
Já lambi teus olhos
Nos ouvidos da prisão

Já morri de medo
Do desassossego
Camisas-de-força
Abafaram o meu segredo

Tua fala é frágil
Puro abandono
Tua pele é flácida
Na sombra do meu sono

Já estanquei o sangue
No verso jugular
Varizes, mariposas, cata-ventos
Urrando, uivando pro luar

O meu descabelo
Pêlo, pele
Pelo amanhecer
Sem reza, sem certeza

Teu passado dócil
Teu presente presa
Teu momento fértil
Teu anel turquesa

Já caí no mundo
Com toda a largueza
Já enlouqueci amando
Cego, pobre e mudo

Teu pobre juízo
Tua febre clara
Tua boca falsa
Teu dente desbotado


Sobre o solo seco
Diante das pedras
Amolo a minha faca
Cortando palavras

Agora o silêncio
A pausa, o intermezzo
No tempo sem dono
Do que já não resta

Vou pular do alto
Desse meu poema

Adeilton Lima

Um comentário:

SheilaCampos disse...

Oi, Adeilton!!!!

Que ótimo poema! Não conhecia seu lado autor!
Virei sempre! Está adicionado aos meus "favoritos"!
Beijos e sucesso, sempre!