segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A Casa

Arrumar a casa
Tirar a poeira
Lavar tudo
Tábua a tábua
Zinco, ladrilho e cal.
Levar para fora o desconexo
E a parte do avesso que não interessa
Em cada canto semear lírios
E banhar-se no perfume das velas
Já lambuzadas de escuridão
Meditar em silêncio
Como se cada cômodo
Revelasse outros arquipélagos
E por eles corresse a seiva
Das árvores tão fartas de manhãs
Ouvir os ecos que se debruçam do sótão ao porão
Vozes sábias pousadas sobre os telhados
Imigradas dos lugares mais recônditos da existência
Da lagartixa, ouvir suas mensagens e delírios
E não deixar de observar aquela calda saltitante como o olho de um farol
Pairando sobre o oceano
Parir gentilezas com a porta escancarada
E receber o vento no rosto em sinal de agradecimento

O aroma da casa
A voz da casa
A memória da casa
As cores da casa
As idades da casa

Tudo assim entregue à chuva
Num dia qualquer de verão.
Chuva que alimenta o quintal da casa
Em suas pequenas poças, bocas e bicas.

Nesse terreiro as crianças chegam para brincar.

Adeilton Lima

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