quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A Escada

Havia uma escada diante de mim. E eu desceria aos infernos, aos labirintos da imaginação. Talvez desvendasse alguns mistérios por trás das sombras trêmulas, o tempo se derramando sem olhar para trás.

Adeilton Lima
(http://www.unisinos.br/desafio_literario/)

Teatro

O teatro é o meu corcel de fogo
Minha bandeira, ladeira acima e abaixo
É minha asa branca
É meu pandeiro e minha cuíca
É silencio, é som
É pulso, é batida
É água corrente, cachoeira
Mar aberto e profundo
O teatro é templo e oração
É sangue
É oxigênio
É olhar, é palavra que ressoa
É respiração que ofega
É êxtase, é tempestade, é calmaria
É explosão!

Adeilton Lima

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Diário de um Louco - De volta em Abril, no Espaço Cena!!!

Diário de um Louco, de Nicolai Gogol - Adaptação: Rubem Rocha Filho - Direção: Cesário Augusto - Interpretação: Adeilton Lima
Prêmio Myriam Muniz de Teatro 2007/2008 - FUNARTE
Melhor espetáculo pelo júri popular- Festival de Teresina - 2001
Prêmio Aloísio Batata - Brasília - 1997.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

"O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor. Embora, inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento. Sem medida que eu conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza. Não tem começo, não tem fim. Rico não é o homem que coleciona e se pesa num amontoado de moedas, nem aquele devasso que estende as mãos e braços em terras largas. Rico só é o homem que aprendeu piedoso e humilde a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura. Não se rebelando contra o seu curso. Brindando antes com sabedoria para receber dele os favores e não sua ira. O equilíbrio da vida está essencialmente neste bem supremo. E quem souber com acerto a quantidade de vagar com a de espera que deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco de buscar por elas e defrontar-se com o que não é. Pois só a justa medida do tempo, dá a justa 'atudeza' das coisas."

Raduan Nassar

A Casa

Arrumar a casa
Tirar a poeira
Lavar tudo
Tábua a tábua
Zinco, ladrilho e cal.
Levar para fora o desconexo
E a parte do avesso que não interessa
Em cada canto semear lírios
E banhar-se no perfume das velas
Já lambuzadas de escuridão
Meditar em silêncio
Como se cada cômodo
Revelasse outros arquipélagos
E por eles corresse a seiva
Das árvores tão fartas de manhãs
Ouvir os ecos que se debruçam do sótão ao porão
Vozes sábias pousadas sobre os telhados
Imigradas dos lugares mais recônditos da existência
Da lagartixa, ouvir suas mensagens e delírios
E não deixar de observar aquela calda saltitante como o olho de um farol
Pairando sobre o oceano
Parir gentilezas com a porta escancarada
E receber o vento no rosto em sinal de agradecimento

O aroma da casa
A voz da casa
A memória da casa
As cores da casa
As idades da casa

Tudo assim entregue à chuva
Num dia qualquer de verão.
Chuva que alimenta o quintal da casa
Em suas pequenas poças, bocas e bicas.

Nesse terreiro as crianças chegam para brincar.

Adeilton Lima

sábado, 26 de janeiro de 2008

O grito

A cárie do berço
À margem do anzol
Lábio preso
Sem palavras
Assim nasce o grito.

Adeilton Lima

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Fala

Já perdi a fala
Já caí no lixo
Já morri na sala
Já mordi o osso

No pescoço
Roí o caroço
Pomo de Adão
Tudo destroçado
Tudo carcomido

Já gritei teu nome
Dentro do meu ventre
Já lambi teus olhos
Nos ouvidos da prisão

Já morri de medo
Do desassossego
Camisas-de-força
Abafaram o meu segredo

Tua fala é frágil
Puro abandono
Tua pele é flácida
Na sombra do meu sono

Já estanquei o sangue
No verso jugular
Varizes, mariposas, cata-ventos
Urrando, uivando pro luar

O meu descabelo
Pêlo, pele
Pelo amanhecer
Sem reza, sem certeza

Teu passado dócil
Teu presente presa
Teu momento fértil
Teu anel turquesa

Já caí no mundo
Com toda a largueza
Já enlouqueci amando
Cego, pobre e mudo

Teu pobre juízo
Tua febre clara
Tua boca falsa
Teu dente desbotado


Sobre o solo seco
Diante das pedras
Amolo a minha faca
Cortando palavras

Agora o silêncio
A pausa, o intermezzo
No tempo sem dono
Do que já não resta

Vou pular do alto
Desse meu poema

Adeilton Lima

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Metrópole

Uma lua sorri para a calçada crua
Descalça e sem agasalho, no frio.
Com o dedo na boca
Da madrugada que se estende
Pelo quarteirão
Clichês e michês nas esquinas
De luzes ao meio, sonolentas.
Mal paridas
Na vigília sem destino
Das sirenes surdas

Um cobertor puído
Penetra um vento ainda tímido
Anunciando a garoa
Que já freqüentou tantos sambas

A rua bamba
Na caixa de fósforos úmida
O Calor que partiu na calada das horas
Com a desculpa de logo voltar
Talvez trazendo leite na caneca da tarde

A lua já bêbada
Sorrindo um brilho disfarçado
Na ponta da aurora assim meio borrada

O frio queimando o cimento

Enquanto logo ali tão perto
Uma barata tonta dá as caras a caminho da padaria

Eis o dia!

Adeilton Lima

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Fio

No fio da navalha
No meio fio da vida
Fio e meio de calçada
Um fio puído de camisa
Um fio de fala
Outro de brisa

Caminhos a fio

Adeilton lima

domingo, 20 de janeiro de 2008

Girassóis

(Os verdadeiros poemas são incêndios - Vicente Huidobro)

Num vasto campo
Semeio a minha loucura
A terra salta dos olhos
Como um pássaro em fuga
Mas levando algumas sementes.
Um espantalho gargalha
Com abutres entre os dentes
Pousados numa mesa farta
Para os lobos, as hienas e as serpentes.
Um uivo, um assobio, um arrepio tolo
Percorrendo o canto da boca
Uma baba, uma lágrima seca
Que tenta alcançar a lua vadia
No rasgo bêbado da noite.
Sim.
Num vasto campo
Rodeado por sombras ancestrais
Inicio o grande ritual
Acendo as velas no círculo do meu chapéu
E percorro o cheiro da madrugada
Minha amante fugidia,
Sempre disfarçada.
Meu pincel é um arrebol em relâmpagos
Centelhas de vida no ventre daquelas sementes
Girassóis na minh’alma
Girassóis, girassóis, girassóis!
Pelos quatro cantos do mundo
Uma pétala do meu delírio
E agora sou asas
Nos tons do amarelo
Sem medo mergulho bem fundo
Porque sei que as camisas-de-força
São meus pára-quedas...
E vou
E vôo
Vôo!

Adeilton Lima