terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Cópula

Duas bocas banguelas e
Um beijo na madrugada
O deserto e a escuridão
Um oceano de saliva e sêmen
Línguas náufragas
Sem salva-vidas
Copulando gemidos e cansaços.
A dois passos dos grandes lábios
Um falo suicida.

Adeilton Lima

sábado, 29 de novembro de 2008

Cratera

Se na cratera do olho ao menos
Se pronunciasse uma gota de luz
E eu pudesse encontrar talvez
Aquela velha lágrima
Não do adeus
Mas do primeiro encontro
Se ainda restos de palavras
Mesmo trituradas, sussurradas
Nas curvas sem exceção
De uma noite ou de um dia qualquer
Ou se na esfera doce do teu seio
Se avermelhasse a tarde só para mim
Quem sabe eu não cuspisse agora
o fogo desse momento
Invadido por sombras nuas
A se estender pelos corredores
e arredores de frases
Sangradas, balbuciadas e jogadas ao chão
Como numa luta
Que chegasse ao fim...

Adeilton Lima

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Rebatendo o porre da vida
Entorno a minha cachaça
Calçada e lua, puta e rua
(Ah, esse lugar comum de caos
E poesia)
Beijo o chão ou tapo o sol
com a peneira dos trapos
Escorridos noite adentro
No caminho de virilhas sãs
E ofereço a ponta do dedo
Já molhado de saliva, erguido, teso
No falo das horas trôpegas
Onde se lambe a fumaça
Onde se encontra a desgraça
Pirracenta dos velhos atos.
Cactos fazendo cócegas
Na fedentina das axilas
A missa que sangra os ouvidos
Muito além do coro das rezas
Do sufoco e dos calos nas mãos
O amém das aves murmurando vôos
Sobre as cabeças atéias entre teias e
Colméias cheias de sapos
No lume pantanoso dos insetos.
Carcaça, carapaça e trapaça
Na ressaca soberba
De almas perdidas
E noites selvagens!

Adeilton Lima

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

domingo, 21 de setembro de 2008

A palavra pimenta queimando
Entre os lábios
Faiscando na garganta
Como ciscos no olho soprando calor
Num piscar veloz de vulcões
O vermelho nas bordas da visão
Latejando, latejando, latejando...
A vida arde!

Adeilton Lima

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A Atriz

­­
Já era noite quando chegou em casa. Mais um dia! A vida engolindo a selva que engolia a vida. Sentiu os calos que à meia-sola surravam-lhe todos os sentidos. Conferiu cada uma das fotos como num ritual sem reza. Cada uma, como se fosse única. Uma fama congelada no tempo, no tempo apenas daquela foto. As estrelas, os astros, o universo. O ator principal da novela das oito. A atriz coadjuvante. Figurantes, não. Seus porta-retratos não tinham espaço para anônimos. Seus porta-retratos eram mais que isso, eram porta-sonhos.
Haveria de protagonizar, esse era o verbo.
E aquela atriz novinha paparicada pelo diretor não lhe roubaria o papel. Se necessário fosse daria um jeitinho. Afinal, sua performance na cama extrapolava qualquer roteiro de telenovela, com posições impróprias para o horário nobre evidentemente. Mas o tempo passava, e já não lhe paravam mais na rua, não lhe pediam autógrafos, não a reconheciam!
Na manhã seguinte, como se estivesse em crise de abstinência conferiu novamente cada uma das fotos. Portas, paredes e até geladeira. Registros de instantes que não representaram nada, a não ser a demonstração de incômodo pelo artista abordado. De qualquer modo, quem visse aquela foto juraria que ela era íntima daquele artista, daquela pessoa, daquela alma. Mas que importância isso tinha? O que importava mesmo era manter essa aparência que disfarçava o abismo no qual vivia. Precisava mostrar para todos que ela era importante, e que para isso não mediria esforços.
No entanto, quando ouviu a declaração de que o papel não seria seu, titubeou nos saltos.
E os autógrafos sonhados? E as abordagens na rua? E os fotógrafos? E a tal ilha? (?).
O mais curioso é que no exato instante em que saía da emissora, viu passar o galã. E como se naquele momento ensaiassem a cena mais importante da novela, perguntou-lhe:
- Você poderia tirar uma foto comigo?

Adeilton Lima

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Uma serpente lambe meus ouvidos
Como a guitarra de um rock progressivo
Estou só na escuridão do quarto há dias
Papai diz que é masturbação...
Mas eu acho que no fundo
O velho andou tomando ácido
Sua voz ecoa
Nas ruínas de Pompéia.
Adeilton Lima

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Incrível Look

Um piercing verde
Contorcendo-se no centro
Da gigantesca língua...
Eis o incrível look!

Adeilton lima

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Aurora

“A arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade.
É preciso mentir para ser verdadeiro.” (Pablo Picasso)


Aurora era uma prostituta jovem e bela.
Sim, conheci Aurora no crepúsculo e todas as cores dos seus sonhos.
Ela costumava dizer que não era como as outras moças do prostíbulo, pois morava com a família e ainda dava satisfações aos pais. Vivia cercada por uma tia sexagenária que sofria de pudores e orgasmos interrompidos, obcecada em preservá-la dos perigos do mundo. Dava-lhe tudo que podia, como se assim pudesse sugar um pouco daquela juventude que transpirava prazeres inaudíveis.
Mal sabia ela das madrugadas de Aurora.
Aurora queria ser atriz, viver outras vidas, ser outras pessoas, mergulhar noutros mundos. Sozinha, no quarto, fazia-de-conta. Era talvez o desejo inconsciente de assumir-se, de romper com tudo aquilo que a oprimia. Queria ver-se livre da castração da família, daquele pesadelo na noite infindável. Interpretava em seu palco imaginário uma Capitu sem dissimulações, uma Maria Madalena sem arrependimentos, uma Diadorim despida.
Eram muitos os amantes de Aurora. Jovens, velhos, belos, intelectuais, loucos, sonhadores, casados, e também os comuns, aqueles tipos com que muitas famílias sonham em casar suas filhas in dominio patris. Aurora às vezes via-se num belo vestido branco com uma grinalda repleta de estrelas. Em meio ao idílio, Aurora atendia a todos com a mesma paciência de um entardecer.
Aurora gostava de bonecas, isso satisfazia não apenas as suas fantasias, como alimentava o olhar ingênuo dos que a cercavam. Aurora contracenava com as bonecas, as bonecas eram as suas companheiras de brincadeiras, de batalha, e de vida.
A primeira vez que vi Aurora foi num sonho. Era um teatro imenso e luxuoso e apenas nós dois ali estávamos. Ela no palco, eu na platéia. Aos poucos ela ia despindo-se do texto que dizia, revelando verdades que só o teatro tem a capacidade de mostrar. Era como se interpretasse a si própria. Todos os refletores iluminavam seu rosto como mil sóis estuprando uma manhã. Acho que pude ver sua alma. A vi novamente noutros sonhos e cheguei a tocá-la. Disse-me coisas ao ouvido que só a noite bêbada poderia traduzir.
Aurora anda por aí, parindo céus vermelhos e chorando orvalhos. Fugindo de sua própria imagem no meio da noite, de sua própria história contida atrás da máscara.
Aurora, inocente Aurora. Nem mesmo nascera e já era madrugada.


Este conto é dedicado ao cliente mais assíduo de Aurora, Nelson Rodrigues.
Eu sei, eu vi, eu era o cafetão.


Adeilton Lima
Revista Cult - 2004

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A Boa!

A barata na boca da garrafa
A garganta da garrafa nas antenas da barata
Como os caninos de um vampiro
Prontos a sugar todo o líquido...
um túnel repleto de enguias e clarões ao fundo
fumegando sentinelas
O contorcer-se da existência num corpo febril
louco, desvairado
Gargalos, garras, gargalhadas
Uma pele de vidro sem reflexos
Quase aos cacos
Com cara ainda de noite
A barata lambe a presa
Como se fosse a própria cria
Tudo úmido
Ah, esse líquido amarelado!
Talvez mais gelado
Do que a gostosa... E estúpida cerveja...
Gargarejos e(s)coando...
Mas ali resta um balcão
E um deserto de mesas e cadeiras.
Ouve-se uma voz talvez num tom suave:
Garçom! Desce uma!

Adeilton Lima

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Borboleta

Por entre os tecidos
De todas as cores
Arco-íris na tarde
Uma borboleta dança

Leveza de um sonho

De cabelos soltos
Cobrindo seu corpo
Pele clara e nua
Nas asas do sol

Suspensa no ar
Passeia com as nuvens
Que fazem desenhos

Corcéis alados
carretéis de cascatas
carrosséis da infância
Na sabedoria do tempo

Vai borboleta
É a luz do teu dia!

Canta, dança, faz amor com o vento
Visita os castelos
Fortalezas na praia
Em cada grão de areia

Vai borboleta
É a luz da tua vida!

Passeia pelo reino das cores
E desenha aquarelas
No mar dos teus olhos

Depois

Me traz de novo a aurora
Por apenas um segundo
Pra eu voltar a sonhar

Adeilton Lima

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Uma fisgada no alto da cabeça
Dia qualquer sem aviso
O espelho às gargalhadas
A lâmina cega de um machado rasgando a pele
A dor que vem d’algum útero
Agora um rio seco feito trincheira
O desenho do caos perfurando o couro
Tatuando os anos

Ei-la pronta, invasora e soberba!
A ruga.

Adeilton Iima

terça-feira, 1 de abril de 2008

A Língua

(a partir do poema Censura, do Eiliko)

Ainda havia um resto de sarcasmo naqueles lábios...
Porém, a morte não aliviara qualquer gota de embriaguez. Mordeu-lhe secamente o crânio como quem apenas contasse um segredo ou proferisse uma sentença irremediável. Ouviram-se os sorrisos das lâminas já distantes. Agora, ali, sobre uma mesa e rodeado por quatro grandes velas, o corpo aguardava o momento em que daria início a um novo ciclo, o da putrefação. Mal sabiam todas aquelas pessoas que nem tudo ceifara... E que por trás daqueles lábios, ali dentro, um fiasco de vida ainda resistia: A língua. Como uma enguia, contorcia-se febril no que restava de boca, de lábios, de gengivas, de dentes, vislumbrando apenas a escuridão profunda que dava para a garganta. E aqui se via o horror. Palavras talvez esquecidas, fissuras de maldições, de murmúrios e de desejos, quiçá alguma dose de orgasmo e felicidade deslizando em restos de saliva pelas paredes. Estava ali a língua no solo de uma prisão à beira do nada quase sendo tragada por um redemoinho que atravessava o esôfago. O tempo passava e era iminente o seu fim. O calor dos gases que jaziam no estômago ainda lhe permitia algum hálito, no entanto, sem absolvição, o que tornava tudo ainda mais doloroso. A hora avançava e o desespero também. Precisava decidir rápido, pois sabia que o desfecho estava próximo. Revelaria o segredo? Trairia o cadáver? Romperia o pacto de toda uma vida?
O padre, uma missa, as exéquias. Um grito, um alarido, um choro. Alguns passos, umas breves palavras e a ordem. Que fosse colocada a tampa do caixão.
Uma cena terrível foi o que se testemunhou em seguida. A língua, como se vomitasse a si própria saltou das garras da morte e pronunciando palavras indecifráveis beijou a face do morto, tombando em seguida como um corpo náufrago trazido pela maré.

Adeilton Lima

quinta-feira, 13 de março de 2008

Teatrinho Polishop

Senhoras e senhores!
Reconhecidamente, está criado em Brasília um novo estilo teatral. Se você está pensando no Teatrinho Polishop ( ou CTL+C), você acertou! Ligue 0800 e já poderá concorrer a alguns prêmios! É só ligar! Na cidade, esse tipo de “teatro” com embalagem, rótulo, data de validade e código de barras pode ser encontrado com facilidade em alguns espaços localizados ali na... (muito bem, você acertou novamente!). Para ficar bem claro, isso não tem nada a ver com o besteirol (até porque quem faz besteirol, no geral, não tem problema algum em se reconhecer como tal. Louvável. E há os que fazem besteirol com muita competência).
Bem, e o que caracteriza esse tipo de teatrinho polishop?
Em primeiro lugar, a ausência de atores, até porque seus fazedores visam explicitamente à televisão (“ah, que cara chato e preconceituoso”, me acusarão. Sim, claro, existe um ou outro ator na tv...). Calma, só estou querendo dizer que essa gente não estuda teatro e busca um caminho fácil para chegar às “malhações” da vida... Teatrinho trampolim... Por que não ir logo direto? Segundo, a abordagem superficial de temas supostamente sérios ou polêmicos. O lance é fazer sensacionalismo e vender uns bilhetinhos com um discurso pseudo libertex!. No mais, o ego desse povo é algo de ofuscar até mesmo o próprio sol (tadinho do sol). Tem gente até que acha que inventou o teatro... Na forma, esse “teatro” mama descaradamente (nada pessoal) noutros trabalhos. Bem, ao invés de procurar um divã, essa gente fica por aí exibindo seu ‘panqueique’ e seu ego carente de afagos – Freud palita os dentes, digo, explica! Se não sair correndo...
“Mas por que raios tu estás a falar sobre isso homem de Deus!”, me perguntaria “seu Manoel”, um senhorio imaginário tão interessante que já foi confundido com uma pessoa real pela burrice de alguns que praticam o teatrinho sobre o qual vos falo...
Bem, não é que o teatro do fulano seja melhor que o de cicrano. Há público para tudo e para todos. Mas me dou ao trabalho de fazer essa reflexão porque o discurso que vem de lá pra cá, ou seja, do povinho do teatrinho polishop em relação aos estudiosos e pesquisadores de teatro é que o que nós fazemos é ruim, não é para as grandes platéias etc. Como se fosse pecado um artista se propor a investigar o universo da linguagem com a qual trabalha, pensar o ser humano e sua complexidade existencial, pensar os mecanismos sociais e se apresentar para um público reduzido etc. Em suma, como se tudo isso se resumisse a uma questão de gosto e de mercado. Digo isso porque há aí um discurso de extremo preconceito contra o próprio teatro, uma arte que ao longo do tempo tem sido massacrada pelos esquemas mercadológicos e midiáticos. Ou seja, o Teatrinho Polishop se vende como teatro, se apropria de alguns elementos e códigos teatrais, mas com toda a sinceridade, definitivamente, teatro esse lixo não é. Chamem essa porcaria de qualquer outra coisa. (Sim, Polishop fica bem, mas pode ser também, teatrinho fashion... Dá no mesmo).
E qual o paralelo desse teatrinho com a televisão? Refiro-me obviamente ao formato de televisão que está aí. Ora, não vivemos no mundo das celebridades? Do sucesso efêmero, do exibicionismo e dos paparazzi? De “trabalhos” em embalagens de isopor que se fragmentam ao primeiro assopro de um intervalo comercial? É isso... O irritante é chamarem isso de teatro. E não é difícil identificar o esquema de produção por trás desse tipo de “teatro”.
Ele é feito em série, na mesma proporção em que se volatiliza como os flatos produzidos por um espectador desesperado com problemas de digestão sentado na primeira fila. Tudo o que esse teatrinho consegue é se identificar com os gases da platéia.

Adeilton Lima

segunda-feira, 10 de março de 2008

As Mulheres Carroceiras

As mulheres carroceiras têm peitos grandes
Amamentam?
Os meninos esquálidos
No lombo da vida
No meio do mundo
As mulheres carroceiras
Dão chicotadas no cavalo
Com sua obediência sem relincho
Suportando a carga do dia seguinte
Pra encher a marmita de capim
As mulheres carroceiras
Lambem o asfalto da cidade
Sobre potros alados
Aladim sem lâmpada mágica
Catando velharias
Em ruelas semi-nuas
Cacos de esquinas no fundo das latas
As mulheres carroceiras
As carrocerias vazias
O suor do cavalo ou da égua
Com sede, com fome
Apenas o sal
Amargo
Do deserto
Ou do cerrado

Adeilton Lima

quarta-feira, 5 de março de 2008

Declaração dos Direitos do Cidadão e artista Brasiliense (Saudação a Thiago de Mello)

Artigo 1º - Fica decretado nesta data que todo cidadão que vive no Distrito Federal é livre.
Parágrafo único – As pessoas poderão transitar em qualquer horário pelas avenidas, ruas, becos, vielas, bem como a orla do lago, bares e praças públicas.

Artigo 2º - O carnaval será uma manifestação constante nas esquinas de Brasília, representando a alegria, a solidariedade, a confraternização e a paz que haverá de reinar entre todos os seus habitantes. As pessoas poderão sorrir!

Artigo 3° - Todos os artistas serão respeitados no exercício de suas atividades.
Parágrafo único – Nenhum artista, sob qualquer hipótese, reclamará da falta de verbas para a produção de seus trabalhos. Qualquer obra de arte doravante se insere nos mecanismos de defesa de nossa identidade cultural, cidadã e humana. Entenda-se obra de arte como tudo aquilo distante de esquemas midiáticos e mercadológicos.

Artigo 4º - Os malabaristas dos semáforos receberão escola, moradia e cachê para os seus números. Está abolida a esmola como pretenso pagamento para qualquer tipo de atividade artística.

Artigo 5º - A partir desta data, os policiais do BOPE vestirão fardas brancas, abolirão as palavras POSITIVO (no sentido negativo), PORRADA, GÁS e ARMA de seu vocabulário. Será obrigatório o estudo da vida de Gandhi em seus cursos de formação.

Artigo 6º - A ciranda é livre embaixo dos blocos.

Artigo 7º - Serão construídas ciclovias em todo o Distrito Federal.

Artigo 8º - A partir desta data será abolido o “tapinha” nas costas, nos gabinetes ou nas ruas, o riso amarelado e as frias expressões de cumprimentos (inclusive nos elevadores). Os cumprimentos serão verdadeiros.

Artigo 9º - Todo cidadão poderá freqüentar os teatros, cinemas e shows a preços acessíveis.

Artigo 10º - A partir desta data, os artistas “Seu Teodoro”, Athos Bulcão, Wladimir Carvalho, Cassiano Nunes (in memoriam), “Mestre Zezito” (in memoriam) e Ary Pararraios (in memoriam) serão os patronos da cultura local e de toda a arte aqui produzida.

Adeilton Lima

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Gostosa

A barata na boca da garrafa
A garganta da garrafa nas antenas da barata
Como os caninos de um vampiro
Prontos a sugar todo o líquido...
um túnel repleto de enguias e clarões ao fundo
fumegando sentinelas
O contorcer-se da existência
num corpo febril, louco, desvairado
Gargalos, garras, gargalhadas
Uma pele de vidro sem reflexos
Quase aos cacos
Com cara ainda de noite
A barata lambe a presa
Como se fosse a própria cria
Tudo úmido
Ah, esse líquido amarelado!
Talvez mais gelado
Do que a gostosa... E estúpida cerveja...
Gargarejos e(s)coando...
Mas ali resta um balcão
E um deserto de mesas e cadeiras.
Ouve-se uma voz talvez num tom suave:
Garçom! Desce uma!

Adeilton Lima

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

O Menino e a Árvore

Agora tudo é imagem
Nas águas do rio
correndo na memória.
Matinê de domingo
Ruas, ruelas e becos
das cidades do interior
Aqui dentro, lá fora...
A imagem da infância
A imagem da velhice
A imagem-Ser
O tempo ágil das formigas
dos sapos, das lagartixas
e dos caramujos
O som de um gramofone
no alto de uma árvore
esculpindo pássaros
Pedras e flores
O avô-árvore da floresta
O homem no sonho das águas
reencontrando o menino
Terceira margem
Trapézios sobre o entardecer
Talvez no dorso de um jabuti
mergulho e vôo
No imaginário
Agora tudo é alma!

Adeilton Lima

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Quero teu olhar se derramando pela rua
Nessa festa
Que seja barulhenta a madrugada
Cheia de luas
Quero a tarde de vermelho
O mesmo verde dessas árvores virgens
O joão-de-barro que partiu
A juriti saudosa
No raiar do dia
E quando novamente a noite chegar
Quero ficar aqui quietinho
Ouvindo a tua poesia

Adeilton Lima

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O Rio

"Não tenho pressa. Na mata, a pressa é inútil. A cidade me entonteia, o rio me liberteia".
Luís Gomes (Ribeirinho de 60 anos que vive no coração da Amazônia).

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A Escada

Havia uma escada diante de mim. E eu desceria aos infernos, aos labirintos da imaginação. Talvez desvendasse alguns mistérios por trás das sombras trêmulas, o tempo se derramando sem olhar para trás.

Adeilton Lima
(http://www.unisinos.br/desafio_literario/)

Teatro

O teatro é o meu corcel de fogo
Minha bandeira, ladeira acima e abaixo
É minha asa branca
É meu pandeiro e minha cuíca
É silencio, é som
É pulso, é batida
É água corrente, cachoeira
Mar aberto e profundo
O teatro é templo e oração
É sangue
É oxigênio
É olhar, é palavra que ressoa
É respiração que ofega
É êxtase, é tempestade, é calmaria
É explosão!

Adeilton Lima

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Diário de um Louco - De volta em Abril, no Espaço Cena!!!

Diário de um Louco, de Nicolai Gogol - Adaptação: Rubem Rocha Filho - Direção: Cesário Augusto - Interpretação: Adeilton Lima
Prêmio Myriam Muniz de Teatro 2007/2008 - FUNARTE
Melhor espetáculo pelo júri popular- Festival de Teresina - 2001
Prêmio Aloísio Batata - Brasília - 1997.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

"O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor. Embora, inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento. Sem medida que eu conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza. Não tem começo, não tem fim. Rico não é o homem que coleciona e se pesa num amontoado de moedas, nem aquele devasso que estende as mãos e braços em terras largas. Rico só é o homem que aprendeu piedoso e humilde a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura. Não se rebelando contra o seu curso. Brindando antes com sabedoria para receber dele os favores e não sua ira. O equilíbrio da vida está essencialmente neste bem supremo. E quem souber com acerto a quantidade de vagar com a de espera que deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco de buscar por elas e defrontar-se com o que não é. Pois só a justa medida do tempo, dá a justa 'atudeza' das coisas."

Raduan Nassar

A Casa

Arrumar a casa
Tirar a poeira
Lavar tudo
Tábua a tábua
Zinco, ladrilho e cal.
Levar para fora o desconexo
E a parte do avesso que não interessa
Em cada canto semear lírios
E banhar-se no perfume das velas
Já lambuzadas de escuridão
Meditar em silêncio
Como se cada cômodo
Revelasse outros arquipélagos
E por eles corresse a seiva
Das árvores tão fartas de manhãs
Ouvir os ecos que se debruçam do sótão ao porão
Vozes sábias pousadas sobre os telhados
Imigradas dos lugares mais recônditos da existência
Da lagartixa, ouvir suas mensagens e delírios
E não deixar de observar aquela calda saltitante como o olho de um farol
Pairando sobre o oceano
Parir gentilezas com a porta escancarada
E receber o vento no rosto em sinal de agradecimento

O aroma da casa
A voz da casa
A memória da casa
As cores da casa
As idades da casa

Tudo assim entregue à chuva
Num dia qualquer de verão.
Chuva que alimenta o quintal da casa
Em suas pequenas poças, bocas e bicas.

Nesse terreiro as crianças chegam para brincar.

Adeilton Lima

sábado, 26 de janeiro de 2008

O grito

A cárie do berço
À margem do anzol
Lábio preso
Sem palavras
Assim nasce o grito.

Adeilton Lima

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Fala

Já perdi a fala
Já caí no lixo
Já morri na sala
Já mordi o osso

No pescoço
Roí o caroço
Pomo de Adão
Tudo destroçado
Tudo carcomido

Já gritei teu nome
Dentro do meu ventre
Já lambi teus olhos
Nos ouvidos da prisão

Já morri de medo
Do desassossego
Camisas-de-força
Abafaram o meu segredo

Tua fala é frágil
Puro abandono
Tua pele é flácida
Na sombra do meu sono

Já estanquei o sangue
No verso jugular
Varizes, mariposas, cata-ventos
Urrando, uivando pro luar

O meu descabelo
Pêlo, pele
Pelo amanhecer
Sem reza, sem certeza

Teu passado dócil
Teu presente presa
Teu momento fértil
Teu anel turquesa

Já caí no mundo
Com toda a largueza
Já enlouqueci amando
Cego, pobre e mudo

Teu pobre juízo
Tua febre clara
Tua boca falsa
Teu dente desbotado


Sobre o solo seco
Diante das pedras
Amolo a minha faca
Cortando palavras

Agora o silêncio
A pausa, o intermezzo
No tempo sem dono
Do que já não resta

Vou pular do alto
Desse meu poema

Adeilton Lima

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Metrópole

Uma lua sorri para a calçada crua
Descalça e sem agasalho, no frio.
Com o dedo na boca
Da madrugada que se estende
Pelo quarteirão
Clichês e michês nas esquinas
De luzes ao meio, sonolentas.
Mal paridas
Na vigília sem destino
Das sirenes surdas

Um cobertor puído
Penetra um vento ainda tímido
Anunciando a garoa
Que já freqüentou tantos sambas

A rua bamba
Na caixa de fósforos úmida
O Calor que partiu na calada das horas
Com a desculpa de logo voltar
Talvez trazendo leite na caneca da tarde

A lua já bêbada
Sorrindo um brilho disfarçado
Na ponta da aurora assim meio borrada

O frio queimando o cimento

Enquanto logo ali tão perto
Uma barata tonta dá as caras a caminho da padaria

Eis o dia!

Adeilton Lima

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Fio

No fio da navalha
No meio fio da vida
Fio e meio de calçada
Um fio puído de camisa
Um fio de fala
Outro de brisa

Caminhos a fio

Adeilton lima

domingo, 20 de janeiro de 2008

Girassóis

(Os verdadeiros poemas são incêndios - Vicente Huidobro)

Num vasto campo
Semeio a minha loucura
A terra salta dos olhos
Como um pássaro em fuga
Mas levando algumas sementes.
Um espantalho gargalha
Com abutres entre os dentes
Pousados numa mesa farta
Para os lobos, as hienas e as serpentes.
Um uivo, um assobio, um arrepio tolo
Percorrendo o canto da boca
Uma baba, uma lágrima seca
Que tenta alcançar a lua vadia
No rasgo bêbado da noite.
Sim.
Num vasto campo
Rodeado por sombras ancestrais
Inicio o grande ritual
Acendo as velas no círculo do meu chapéu
E percorro o cheiro da madrugada
Minha amante fugidia,
Sempre disfarçada.
Meu pincel é um arrebol em relâmpagos
Centelhas de vida no ventre daquelas sementes
Girassóis na minh’alma
Girassóis, girassóis, girassóis!
Pelos quatro cantos do mundo
Uma pétala do meu delírio
E agora sou asas
Nos tons do amarelo
Sem medo mergulho bem fundo
Porque sei que as camisas-de-força
São meus pára-quedas...
E vou
E vôo
Vôo!

Adeilton Lima