domingo, 14 de agosto de 2016

Mantra

Alimente sua alma e deixe que a poesia venha
Ela virá!
regue a poesia e deixe sua alma livre
plante o que precisa ser plantado
Regue o que precisa ser regado
ouça o que precisa ser ouvido
Ao longe a voz suave dos pássaros
anunciam novas estações
doe mais sorrisos
como se nada mais lhe restasse
sobre a terra
olhe com perdão e compaixão os seus inimigos
(eles apenas te fortalecem
quando te fazem olhar pra si mesmo)
floreie os seus caminhos com a paz
alimento de todas as auroras
estenda sempre a mão sem esperar recompensas
jogue-se na vida como crianças num carrossel de sonhos
embale a sua própria criança nos versos de um poema
respire fundo a cada novo mergulho
respire agora ainda com mais intensidade
depois desta leitura.
a poesia veio
sem ornamentos
nem promessas
Como um mantra.


Adeilton Lima

terça-feira, 19 de julho de 2016

Um fim de tarde
risca no céu
alguma poesia
repleta de azul
o arfar das folhas
caleidoscópicas
que giram à guisa de nuvens
num carrossel sonolento
a conduzir a noite
sobre o cerrado cinza
e seco deste mês de julho
O arrebol na alma
como uma caliandra
que anuncia a gravidez
das cachoeiras
sob os lençóis ainda úmidos
e aquecidos das nascentes.


Adeilton Lima
A paixão
é um círculo do inferno
onde não se deve
ir sozinho

Adeilton Lima

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O olhar voraz da primeira vez
um meteoro de delírios
dentro e fora do labirinto
sem possibilidade de escapatória
uma lua minguando nesse céu
estupefacto de realidade
aquela manhã que se vai
na cauda de algum cometa
respirando ainda
a poeira cósmica dos amores...


Adeilton Lima

sábado, 30 de abril de 2016

A acidez
dos dias
nos grandes lábios
da volúpia tesa
dentes de vulva
ovos de serpentes...
a língua voraz, tenaz
sagaz em delírios
O suor lubrificando
obliquamente
a carne, o osso
a vértebra dos trilhos
por onde o falo
se agiganta
se projeta
e penetra
os abismos!


terça-feira, 22 de março de 2016

sábado, 19 de março de 2016

O vento assume
as formas do teu corpo
teus seios empinam-se
na loucura dos vendavais...
me leva, tempestade!


Adeilton Lima

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O teu silêncio
Escrito na porta
Do labirinto
Meu instinto
Tua teia
Meu novelo que não quer saída
Eu tua presa
Nas cercas do jardim
Recreio de abelhas
Doce tão doce como
Aquela cor distante mas aqui
Dentro dessa manhã
Um sinal de fumaça pelas ruas de sampa
Um âmbar, um azul, um vermelho dia
Meus passos pelo teto da madrugada
Dizendo não pare, não pare, não pare
Seja assim sempre teu sorriso
Na minha memória
Tua lucidez nunca de partida
Teu olhar agora me lembrando          
Um fruto maduro sem pressa
A correnteza e seu curso
Como essa luz que agora risca o céu

E beija o abismo.

Adeilton LIma

sábado, 5 de dezembro de 2015

Até que um dia a rima
rompeu com o poema
e se assumiu verso livre...
foi fonema pra todo lado!


Adeilton Lima

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A Língua




Ainda havia um resto de sarcasmo naqueles lábios...
Porém, a morte não aliviara qualquer gota de embriaguez. Mordeu-lhe secamente o crânio como quem apenas contasse um segredo ou proferisse uma sentença irremediável. Ouviram-se os sorrisos das lâminas já distantes. Agora, ali, sobre uma mesa e rodeado por quatro grandes velas, o corpo aguardava o momento em que daria início a um novo ciclo, o da putrefação. Mal sabiam todas aquelas pessoas que nem tudo ceifara... E que por trás daqueles lábios, ali dentro, um fiasco de vida ainda resistia: A língua. Como uma enguia, contorcia-se febril no que restava de boca, de lábios, de gengivas, de dentes, vislumbrando apenas a escuridão profunda que dava para a garganta. E aqui se via o horror. Palavras talvez esquecidas, fissuras de maldições, de murmúrios e de desejos, quiçá alguma dose de orgasmo e felicidade deslizando em restos de saliva pelas paredes. Estava ali a língua no solo de uma prisão à beira do nada quase sendo tragada por um redemoinho que atravessava o esôfago. O tempo passava e era iminente o seu fim. O calor dos gases que jaziam no estômago ainda lhe permitia algum hálito, no entanto, sem absolvição, o que tornava tudo ainda mais doloroso. A hora avançava e o desespero também. Precisava decidir rápido, pois sabia que o desfecho estava próximo. Revelaria o segredo? Trairia o cadáver? Romperia o pacto de toda uma vida?
O padre, uma missa, as exéquias. Um grito, um alarido, um choro. Alguns passos, umas breves palavras e a ordem. Que fosse colocada a tampa do caixão.
Uma cena terrível foi o que se testemunhou em seguida. A língua, como se vomitasse a si própria saltou das garras da morte e pronunciando palavras indecifráveis beijou a face do morto, tombando em seguida como um corpo náufrago trazido pela maré.

Adeilton Lima