quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Toda uma vida sem trocarem um único olhar... E de repente ele estava ali estático ao lado de seu corpo olhando fixamente para aquele rosto inerte e pálido, para aqueles olhos preenchidos absurda e paradoxalmente pela luz da morte.

Adeilton Lima

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A saliva que fulmina
palavras atávicas
enquanto o veneno
desce pelo canto da boca...
Há murmúrios
e resta apenas (no aqui e no agora)
os esqueletos petrificados
no barco ruminante
das madrugadas...
a cegueira insone dos vaga-lumes
rodopiando fios de lembranças
nas constelações do corpo...
Vampiros enlouquecidos
a suplicar a luz!


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A loucura
esse meteoro diário
a zunir na tua cabeça
como gargalhadas dos zumbis que te cercam
repletos de cordas e crucifixos
no pescoço...
A loucura
esse galo cantando
nas manhãs indesejáveis
de consciências tardias
à beira do sepulcro..
A loucura
esse oceano abissal
que salta dos teus olhos
causando calafrios nos poros
da pele que ainda resta sobre os teus ossos...
A loucura
esse feto que te acena
desesperadamente
no avesso dos nascimentos
ainda visível sob o portal tão longe e tão perto
de um arco-íris!


Adeilton Lima

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A poeira
acolhe o espírito
da memória
na jornada dos tempos idos
mas presentes
espelho sem pele
das nuvens que também se foram
deixando estilhaços
nos redemoinhos do céu!


Adeilton Lima
Uma nação
assim parida...
sobras de asas
desbotadas
cuja memória
dos voos
se perdeu
nos vagões
das últimas tempestades...
e agora, moribundo e delirante,
o povo arqueja,
e vitupera,
em vão,
entre a imensidão
do que poderia ter sido
e o abismo do que já não é...


Adeilton Lima

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Lançou as oferendas
ao mar
sonhando livrar-se
do naufrágio
em terra firme...
Um deserto torrencial
de desejos e solidão...
Uma vida à deriva.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Anjos e demônios

Tentou
budismo
cristianismo
islamismo
judaísmo
antes do terreiro
voltou ao ateísmo
depois buscou outros rumos
visitou o candomblé
e o Sírio de Nazaré
correu mundo
virou hare krihsna
amou, se iluminou,
mas pirou o cabeção
e caiu no protestantismo
doou o velho fusca
e alguns tostões
virou pastor
gritou, berrou, mentiu
voltou ao álcool
ao pó...
o velho paraíso
(foda-se satã
dane-se Deus
vão para o inferno
com seus pregões
e maniqueísmos)
e veio o celibato
o jejum
o autoflagelo
a castração
mas também o giro, o sufismo
e o surrealismo
recorreu à psicanálise
comeu édipo
e o pão que o diabo amassou...
fez regressão
mudou o nome
mas não o sexo
era perda de tempo
deitou-se com Nietzsche
transou zaratustra
dançou tango
visitou os índios
fez iniciações rituais
tornou-se guru...
anjo e conselheiro
até que veio o grande dia
o dia da epifania
como quem gritasse
como quem mugisse
como quem gemesse
como quem tocasse uma sinfonia
ele viu como que por magia
o homem e o menino
diante do espelho
à luz do dia...
eles próprios
somente eles...

Adeilton Lima

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Mesmo amordaçado
o dia tenta abrir a janela...
pelas ruas
um cortejo fúnebre
sem sustentáculo de esperanças
passeatas insípidas
de manadas néscias.
Por trás da vidraça
o algoz saboreia um charuto
diante dos mortos
e da escravidão irrefreável
das horas...


Adeilton Lima
Nas paredes da caverna
o poeta escrevia com sangue o grito ancestral
útero abismal
onde os dragões
preparam há séculos o fogo solar!
jaz na aurora
o murmurar das ondas
enquanto lá fora, no mundo canino, os homens
se perdem em meio às guerras zunindo seus canhões e seus egos!
foi o pássaro que disse: "Eis a hora!"
E os cardumes saltaram sobre as ondas fugindo
dos tubarões!
O arfar das guelras e o jorro das manhãs!
Tanta morte! Tanta vida!
Quanto ao poeta, apenas a memória púrpura
de uma velha canção.


Adeilton Lima

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

domingo, 20 de novembro de 2016

domingo, 6 de novembro de 2016



Olhar pro céu
E curtir o azul
O pôr do sol
Ou mesmo um dia nublado
e depois puxar assunto sobre o clima
desembaraçando as nuvens e a conversa
Esperar a noite chegar
Com ansiedade para não perder
O espetáculo da lua cheia...
Ouvir músicas tatuadas
Nas nossas histórias
Pegar um cineminha
Um teatro
Ou um ir a um terreiro
Benzer a alma para a vida que segue
Tomar sorvete
Dar gargalhadas
sobre qualquer bobagem
enroscar as pernas sob os lençóis
não querendo ver o tempo passar
sentir aquele calor e aquele cheiro únicos
andar sem roupa pela casa
revivendo tribos atávicas
e jamais descobertas
depois, falar um poema ao ouvido
e adormecer
como quem sente a presença dos anjos
e sua proteção
nos caminhos abertos pelas madrugadas.

Adeilton Lima