Vai a esmo
Sem medo que
Outra
Ponta de destino
Te atropele e
Fure teus ouvidos com a luz
Lentamente...
Caminha
Assim
No meio do redemoinho
Dos acasos
Deixa que agulhas
Acendam tua língua
Ou tatuem tuas palavras
Num tecido qualquer de tempo
Vai a esmo
Sem bússolas
No tato vesgo dessa reta
Sem chegada
Só
Procura
Procura
Procura
Adeilton Lima
domingo, 26 de abril de 2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
O Réptil
Sob a relva o réptil
Rumina
O dia anterior
(ato sub-reptício)
Preparando o seu veneno.
Cio.
Aquece agora a língua
Em amplidões calorosas de horizontes suspensos
Em meio aos odores das folhas úmidas.
Há calcanhares de aquiles à deriva
Tragando a seiva hedionda do dia.
No corpo da terra lambida e parida
Jaz o movimento horizontal e oblíquo. Jazz!
Sobre o réptil pairam vôos espectrais
Migrando para o berço ou para o túmulo
(tanto faz) de poetas
Envenenados pela vida,
Com as presas ainda cravadas no peito
Escorrendo sentimentos débeis.
Mas o réptil a tudo ignora.
Na nódoa cambaleante das horas,
Ignora o desejo dos pássaros
Ignora a delicadeza da flor
Ignora o salto do anfíbio
Ignora também a força do leão
E o olhar mais profundo da coruja.
Nas escamas de sua fortaleza
Sob o corpo enrugado do orvalho
O réptil produz seu veneno
(gotas que se misturam)
Pois há um dia a cumprir
Uma vida a ceifar
No seu linguajar lascivo
E fatal.
A soberbia sinuosa do movimento
Que se eleva como ondas sobre o mar seco do matagal
Guelras no campo de batalha
Onde tubarões famintos também tentam saciar a fome.
O réptil em seu sono febril
Tem pesadelos de nuvens no colo cru da areia quente
Na relva amarga dessas folhas mortas e
No sangue frio dessa tinta que agora escorre
Pelo canino imperdoável
De minha caneta.
Adeilton Lima
Rumina
O dia anterior
(ato sub-reptício)
Preparando o seu veneno.
Cio.
Aquece agora a língua
Em amplidões calorosas de horizontes suspensos
Em meio aos odores das folhas úmidas.
Há calcanhares de aquiles à deriva
Tragando a seiva hedionda do dia.
No corpo da terra lambida e parida
Jaz o movimento horizontal e oblíquo. Jazz!
Sobre o réptil pairam vôos espectrais
Migrando para o berço ou para o túmulo
(tanto faz) de poetas
Envenenados pela vida,
Com as presas ainda cravadas no peito
Escorrendo sentimentos débeis.
Mas o réptil a tudo ignora.
Na nódoa cambaleante das horas,
Ignora o desejo dos pássaros
Ignora a delicadeza da flor
Ignora o salto do anfíbio
Ignora também a força do leão
E o olhar mais profundo da coruja.
Nas escamas de sua fortaleza
Sob o corpo enrugado do orvalho
O réptil produz seu veneno
(gotas que se misturam)
Pois há um dia a cumprir
Uma vida a ceifar
No seu linguajar lascivo
E fatal.
A soberbia sinuosa do movimento
Que se eleva como ondas sobre o mar seco do matagal
Guelras no campo de batalha
Onde tubarões famintos também tentam saciar a fome.
O réptil em seu sono febril
Tem pesadelos de nuvens no colo cru da areia quente
Na relva amarga dessas folhas mortas e
No sangue frio dessa tinta que agora escorre
Pelo canino imperdoável
De minha caneta.
Adeilton Lima
segunda-feira, 16 de março de 2009
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
As teclas do piano imaginário sob os dedos
A música nos vãos da alma
Asa aberta cheia de abismos
Um uivo ao longe rasgando uma garganta
A natureza esquiva de um réptil
Sob as folhas de uma tarde cinza
Um chocalho na percussão precisa do ataque
Pássaros fugidios espalhados pelo ar
E veio uma chuva
Torrente de veneno
A presa alva como um teclado
O alvo preso sem chances, sem saída
Na relva surda de um corpo
Adeilton Lima
A música nos vãos da alma
Asa aberta cheia de abismos
Um uivo ao longe rasgando uma garganta
A natureza esquiva de um réptil
Sob as folhas de uma tarde cinza
Um chocalho na percussão precisa do ataque
Pássaros fugidios espalhados pelo ar
E veio uma chuva
Torrente de veneno
A presa alva como um teclado
O alvo preso sem chances, sem saída
Na relva surda de um corpo
Adeilton Lima
Oxidante
Caninos amarelados
À espera do pigarro amante
Por entre os dedos
O odor vulgar do falo
Bolinando uma respiração repleta de varizes
Agora um trago, uma baforada
As horas infinitamente quentes
Rasgando o peito
Preparando a tosse
Como um vulcão em êxtase
Pronto a jorrar penitências
Desejos, taras, dependências
Diante de uma boca voraz
A consumir somente cinzas
Adeilton Lima
À espera do pigarro amante
Por entre os dedos
O odor vulgar do falo
Bolinando uma respiração repleta de varizes
Agora um trago, uma baforada
As horas infinitamente quentes
Rasgando o peito
Preparando a tosse
Como um vulcão em êxtase
Pronto a jorrar penitências
Desejos, taras, dependências
Diante de uma boca voraz
A consumir somente cinzas
Adeilton Lima
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Cópula
Duas bocas banguelas e
Um beijo na madrugada
O deserto e a escuridão
Um oceano de saliva e sêmen
Línguas náufragas
Sem salva-vidas
Copulando gemidos e cansaços.
A dois passos dos grandes lábios
Um falo suicida.
Adeilton Lima
Um beijo na madrugada
O deserto e a escuridão
Um oceano de saliva e sêmen
Línguas náufragas
Sem salva-vidas
Copulando gemidos e cansaços.
A dois passos dos grandes lábios
Um falo suicida.
Adeilton Lima
sábado, 29 de novembro de 2008
Cratera
Se na cratera do olho ao menos
Se pronunciasse uma gota de luz
E eu pudesse encontrar talvez
Aquela velha lágrima
Não do adeus
Mas do primeiro encontro
Se ainda restos de palavras
Mesmo trituradas, sussurradas
Nas curvas sem exceção
De uma noite ou de um dia qualquer
Ou se na esfera doce do teu seio
Se avermelhasse a tarde só para mim
Quem sabe eu não cuspisse agora
o fogo desse momento
Invadido por sombras nuas
A se estender pelos corredores
e arredores de frases
Sangradas, balbuciadas e jogadas ao chão
Como numa luta
Que chegasse ao fim...
Adeilton Lima
Se pronunciasse uma gota de luz
E eu pudesse encontrar talvez
Aquela velha lágrima
Não do adeus
Mas do primeiro encontro
Se ainda restos de palavras
Mesmo trituradas, sussurradas
Nas curvas sem exceção
De uma noite ou de um dia qualquer
Ou se na esfera doce do teu seio
Se avermelhasse a tarde só para mim
Quem sabe eu não cuspisse agora
o fogo desse momento
Invadido por sombras nuas
A se estender pelos corredores
e arredores de frases
Sangradas, balbuciadas e jogadas ao chão
Como numa luta
Que chegasse ao fim...
Adeilton Lima
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Rebatendo o porre da vida
Entorno a minha cachaça
Calçada e lua, puta e rua
(Ah, esse lugar comum de caos
E poesia)
Beijo o chão ou tapo o sol
com a peneira dos trapos
Escorridos noite adentro
No caminho de virilhas sãs
E ofereço a ponta do dedo
Já molhado de saliva, erguido, teso
No falo das horas trôpegas
Onde se lambe a fumaça
Onde se encontra a desgraça
Pirracenta dos velhos atos.
Cactos fazendo cócegas
Na fedentina das axilas
A missa que sangra os ouvidos
Muito além do coro das rezas
Do sufoco e dos calos nas mãos
O amém das aves murmurando vôos
Sobre as cabeças atéias entre teias e
Colméias cheias de sapos
No lume pantanoso dos insetos.
Carcaça, carapaça e trapaça
Na ressaca soberba
De almas perdidas
E noites selvagens!
Adeilton Lima
Entorno a minha cachaça
Calçada e lua, puta e rua
(Ah, esse lugar comum de caos
E poesia)
Beijo o chão ou tapo o sol
com a peneira dos trapos
Escorridos noite adentro
No caminho de virilhas sãs
E ofereço a ponta do dedo
Já molhado de saliva, erguido, teso
No falo das horas trôpegas
Onde se lambe a fumaça
Onde se encontra a desgraça
Pirracenta dos velhos atos.
Cactos fazendo cócegas
Na fedentina das axilas
A missa que sangra os ouvidos
Muito além do coro das rezas
Do sufoco e dos calos nas mãos
O amém das aves murmurando vôos
Sobre as cabeças atéias entre teias e
Colméias cheias de sapos
No lume pantanoso dos insetos.
Carcaça, carapaça e trapaça
Na ressaca soberba
De almas perdidas
E noites selvagens!
Adeilton Lima
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
domingo, 21 de setembro de 2008
A palavra pimenta queimando
Entre os lábios
Faiscando na garganta
Como ciscos no olho soprando calor
Num piscar veloz de vulcões
O vermelho nas bordas da visão
Latejando, latejando, latejando...
A vida arde!
Adeilton Lima
Entre os lábios
Faiscando na garganta
Como ciscos no olho soprando calor
Num piscar veloz de vulcões
O vermelho nas bordas da visão
Latejando, latejando, latejando...
A vida arde!
Adeilton Lima
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
A Atriz
Já era noite quando chegou em casa. Mais um dia! A vida engolindo a selva que engolia a vida. Sentiu os calos que à meia-sola surravam-lhe todos os sentidos. Conferiu cada uma das fotos como num ritual sem reza. Cada uma, como se fosse única. Uma fama congelada no tempo, no tempo apenas daquela foto. As estrelas, os astros, o universo. O ator principal da novela das oito. A atriz coadjuvante. Figurantes, não. Seus porta-retratos não tinham espaço para anônimos. Seus porta-retratos eram mais que isso, eram porta-sonhos.
Haveria de protagonizar, esse era o verbo.
E aquela atriz novinha paparicada pelo diretor não lhe roubaria o papel. Se necessário fosse daria um jeitinho. Afinal, sua performance na cama extrapolava qualquer roteiro de telenovela, com posições impróprias para o horário nobre evidentemente. Mas o tempo passava, e já não lhe paravam mais na rua, não lhe pediam autógrafos, não a reconheciam!
Na manhã seguinte, como se estivesse em crise de abstinência conferiu novamente cada uma das fotos. Portas, paredes e até geladeira. Registros de instantes que não representaram nada, a não ser a demonstração de incômodo pelo artista abordado. De qualquer modo, quem visse aquela foto juraria que ela era íntima daquele artista, daquela pessoa, daquela alma. Mas que importância isso tinha? O que importava mesmo era manter essa aparência que disfarçava o abismo no qual vivia. Precisava mostrar para todos que ela era importante, e que para isso não mediria esforços.
No entanto, quando ouviu a declaração de que o papel não seria seu, titubeou nos saltos.
E os autógrafos sonhados? E as abordagens na rua? E os fotógrafos? E a tal ilha? (?).
O mais curioso é que no exato instante em que saía da emissora, viu passar o galã. E como se naquele momento ensaiassem a cena mais importante da novela, perguntou-lhe:
- Você poderia tirar uma foto comigo?
Adeilton Lima
Já era noite quando chegou em casa. Mais um dia! A vida engolindo a selva que engolia a vida. Sentiu os calos que à meia-sola surravam-lhe todos os sentidos. Conferiu cada uma das fotos como num ritual sem reza. Cada uma, como se fosse única. Uma fama congelada no tempo, no tempo apenas daquela foto. As estrelas, os astros, o universo. O ator principal da novela das oito. A atriz coadjuvante. Figurantes, não. Seus porta-retratos não tinham espaço para anônimos. Seus porta-retratos eram mais que isso, eram porta-sonhos.
Haveria de protagonizar, esse era o verbo.
E aquela atriz novinha paparicada pelo diretor não lhe roubaria o papel. Se necessário fosse daria um jeitinho. Afinal, sua performance na cama extrapolava qualquer roteiro de telenovela, com posições impróprias para o horário nobre evidentemente. Mas o tempo passava, e já não lhe paravam mais na rua, não lhe pediam autógrafos, não a reconheciam!
Na manhã seguinte, como se estivesse em crise de abstinência conferiu novamente cada uma das fotos. Portas, paredes e até geladeira. Registros de instantes que não representaram nada, a não ser a demonstração de incômodo pelo artista abordado. De qualquer modo, quem visse aquela foto juraria que ela era íntima daquele artista, daquela pessoa, daquela alma. Mas que importância isso tinha? O que importava mesmo era manter essa aparência que disfarçava o abismo no qual vivia. Precisava mostrar para todos que ela era importante, e que para isso não mediria esforços.
No entanto, quando ouviu a declaração de que o papel não seria seu, titubeou nos saltos.
E os autógrafos sonhados? E as abordagens na rua? E os fotógrafos? E a tal ilha? (?).
O mais curioso é que no exato instante em que saía da emissora, viu passar o galã. E como se naquele momento ensaiassem a cena mais importante da novela, perguntou-lhe:
- Você poderia tirar uma foto comigo?
Adeilton Lima
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