terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Anjos e demônios

Tentou
budismo
cristianismo
islamismo
judaísmo
antes do terreiro
voltou ao ateísmo
depois buscou outros rumos
visitou o candomblé
e o Sírio de Nazaré
correu mundo
virou hare krihsna
amou, se iluminou,
mas pirou o cabeção
e caiu no protestantismo
doou o velho fusca
e alguns tostões
virou pastor
gritou, berrou, mentiu
voltou ao álcool
ao pó...
o velho paraíso
(foda-se satã
dane-se Deus
vão para o inferno
com seus pregões
e maniqueísmos)
e veio o celibato
o jejum
o autoflagelo
a castração
mas também o giro, o sufismo
e o surrealismo
recorreu à psicanálise
comeu édipo
e o pão que o diabo amassou...
fez regressão
mudou o nome
mas não o sexo
era perda de tempo
deitou-se com Nietzsche
transou zaratustra
dançou tango
visitou os índios
fez iniciações rituais
tornou-se guru...
anjo e conselheiro
até que veio o grande dia
o dia da epifania
como quem gritasse
como quem mugisse
como quem gemesse
como quem tocasse uma sinfonia
ele viu como que por magia
o homem e o menino
diante do espelho
à luz do dia...
eles próprios
somente eles...

Adeilton Lima

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Mesmo amordaçado
o dia tenta abrir a janela...
pelas ruas
um cortejo fúnebre
sem sustentáculo de esperanças
passeatas insípidas
de manadas néscias.
Por trás da vidraça
o algoz saboreia um charuto
diante dos mortos
e da escravidão irrefreável
das horas...


Adeilton Lima
Nas paredes da caverna
o poeta escrevia com sangue o grito ancestral
útero abismal
onde os dragões
preparam há séculos o fogo solar!
jaz na aurora
o murmurar das ondas
enquanto lá fora, no mundo canino, os homens
se perdem em meio às guerras zunindo seus canhões e seus egos!
foi o pássaro que disse: "Eis a hora!"
E os cardumes saltaram sobre as ondas fugindo
dos tubarões!
O arfar das guelras e o jorro das manhãs!
Tanta morte! Tanta vida!
Quanto ao poeta, apenas a memória púrpura
de uma velha canção.


Adeilton Lima

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

domingo, 20 de novembro de 2016

domingo, 6 de novembro de 2016



Olhar pro céu
E curtir o azul
O pôr do sol
Ou mesmo um dia nublado
e depois puxar assunto sobre o clima
desembaraçando as nuvens e a conversa
Esperar a noite chegar
Com ansiedade para não perder
O espetáculo da lua cheia...
Ouvir músicas tatuadas
Nas nossas histórias
Pegar um cineminha
Um teatro
Ou um ir a um terreiro
Benzer a alma para a vida que segue
Tomar sorvete
Dar gargalhadas
sobre qualquer bobagem
enroscar as pernas sob os lençóis
não querendo ver o tempo passar
sentir aquele calor e aquele cheiro únicos
andar sem roupa pela casa
revivendo tribos atávicas
e jamais descobertas
depois, falar um poema ao ouvido
e adormecer
como quem sente a presença dos anjos
e sua proteção
nos caminhos abertos pelas madrugadas.

Adeilton Lima

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Guarda silêncio, formosa flor
guarda silêncio...
Se o sol, a grande luz
perceber que choras
ficará escuro...
Guarda silêncio, formosa flor
guarda silêncio... 
Adeilton Lima

A partir de texto pré-colombiano anônimo.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

O horóscopo,
o final feliz da novela
e a vida blasé
O príncipe que nunca vinha
como na TV
o vestido ainda no cabide
e o sapato de cinderela
perdido no labirinto
as cartas, os búzios
nenhuma resposta
apenas a realidade
costurando os dias
como um vodu
na flacidez
das sombras
e dos sonhos
fagulhas agora despidas
entre os dedos trêmulos,
úmidos de desejo...


Adeilton Lima
Injetou
lentamente
o poema na veia...
Overdose.
Na gaveta restavam ainda
algumas contas a pagar.


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A fogueira
da memória jaz como um deserto
onde o tempo deposita seus
destroços...
as cinzas de agora são teias de aranha
que cobrem aquele rosto eternizado entre as chamas
e cujo olhar de fogo deixou na alma
queimaduras seculares
hoje cicatrizes vivas no sorriso dos algozes
as rugas do fogo
em labaredas inesquecíveis
ainda queimando em sua inexistência sublime

no aqui e no agora
um pássaro sem penas teimando em voar
um homem despido, nu, diante da morte
como um feto minutos antes do nascimento
e do grito inicial de tudo, até do que finda...
resistindo às cinzas
transformando-se em pó...


Adeilton Lima 
https://soundcloud.com/deiltonima/voz-025m4a

domingo, 14 de agosto de 2016

Mantra

Alimente sua alma e deixe que a poesia venha
Ela virá!
regue a poesia e deixe sua alma livre
plante o que precisa ser plantado
Regue o que precisa ser regado
ouça o que precisa ser ouvido
Ao longe a voz suave dos pássaros
anunciam novas estações
doe mais sorrisos
como se nada mais lhe restasse
sobre a terra
olhe com perdão e compaixão os seus inimigos
(eles apenas te fortalecem
quando te fazem olhar pra si mesmo)
floreie os seus caminhos com a paz
alimento de todas as auroras
estenda sempre a mão sem esperar recompensas
jogue-se na vida como crianças num carrossel de sonhos
embale a sua própria criança nos versos de um poema
respire fundo a cada novo mergulho
respire agora ainda com mais intensidade
depois desta leitura.
a poesia veio
sem ornamentos
nem promessas
Como um mantra.


Adeilton Lima

terça-feira, 19 de julho de 2016

Um fim de tarde
risca no céu
alguma poesia
repleta de azul
o arfar das folhas
caleidoscópicas
que giram à guisa de nuvens
num carrossel sonolento
a conduzir a noite
sobre o cerrado cinza
e seco deste mês de julho
O arrebol na alma
como uma caliandra
que anuncia a gravidez
das cachoeiras
sob os lençóis ainda úmidos
e aquecidos das nascentes.


Adeilton Lima
A paixão
é um círculo do inferno
onde não se deve
ir sozinho

Adeilton Lima